A situação parecia sob controle dos Estados Unidos. Com dois pontos de vantagem sobre Panamá e Honduras, assim como um saldo de gols folgado, o time entrou na rodada final das Eliminatórias dependendo de um empate para conquistar a vaga direta na Copa do Mundo. Mesmo se perdesse, as chances de descolar ao menos um lugar na repescagem eram razoáveis. A noite precisava ser desastrosa para o US Team ficar de fora do Mundial. E foi, de uma maneira trágica que muitos torcedores americanos poderiam profetizar nas rodadas anteriores, por mais que a seleção insistisse em ressurgir das cinzas. Se há 28 anos Trinidad e Tobago representou a ascensão do futebol nos EUA, desta vez o pequeno país caribenho termina de jogar o ‘soccer’ no apocalipse, com a vitória por 2 a 1. A ilusão do Narciso de 2014 foi tragada pela fantasia que a seleção americana criou para si. Enquanto os ianques tentam entender o que aconteceu, o Panamá comemora a participação inédita na Copa, enquanto Honduras já se contenta com a repescagem.

Até esta terça, Trinidad e Tobago havia vencido um mísero jogo em nove rodadas do hexagonal final das Eliminatórias da Concacaf. Parecia o adversário perfeito aos Estados Unidos, por mais que a viagem ao Caribe pudesse inspirar cuidados. Os americanos, em vez da precaução, preferiram acreditar naquilo que parecia provável. Um erro fatal. Perder dos lanternas seria difícil? Seria mais difícil ainda que Panamá e Honduras ganhassem dos melhores times da Concacaf? Pois tudo isso aconteceu. E, no futebol, não adianta se agarrar na superstição, no passado ou em qualquer prognóstico furado. É preciso jogar bola. Justamente o que o US Team não fez.

A noite de pesadelo para os Estados Unidos não demorou muito tempo a se esboçar. Aos 17 minutos, em um lance displicente, Omar González tentou dar um bicão de qualquer jeito e encobriu Tim Howard. Abria o placar para Trinidad e Tobago. Naquele momento, ainda assim, a rodada favorecia os americanos, com Honduras perdendo e o Panamá empatando. Já aos 36, os trinitinos ampliaram. Alvin Jones chutou de muito longe e o goleiro aceitou. Justamente Howard, o símbolo da campanha em 2014. Justamente o sinal de que a seleção americana parou no tempo com Bruce Arena, em tantas decisões equivocadas. De qualquer forma, México e Costa Rica auxiliavam nas demais partidas, segurando o ímpeto de Panamá e Honduras.

Logo no início do segundo tempo, os EUA esboçaram uma reação. Christian Pulisic soltou a bomba de fora da área, descontando para a sua seleção. Enfim, os americanos acordavam para o jogo. O camisa 10, mesmo em dúvida antes da partida por uma lesão sofrida contra o Panamá, aparecia bastante. O problema eram os companheiros. O US Team tardou a ameaçar em busca do empate. E, nas melhores chances, faltou competência para balançar as redes. Enquanto isso, as certezas ruíam como um castelo de areia. Primeiro, com a virada de Honduras contra o México. Neste momento, restava aos Estados Unidos a repescagem. Até que o Panamá também virou contra a Costa Rica, aos 43 do segundo tempo, tirando os ianques do Mundial.

A campanha toda da seleção americana nas Eliminatórias foi problemática. Foram três míseras vitórias no hexagonal. Ironicamente, goleadas em casa contra Honduras e Panamá, além do triunfo no primeiro turno contra Trinidad e Tobago. Os americanos já tinham dado uma sorte tremenda pelo empate com os hondurenhos em San Pedro de Sula, na antepenúltima rodada. E os 4 a 0 sobre os panamenhos em Orlando, que pareciam um passo firme, terminaram como a perdição. Serão quatro anos para rever os conceitos e tentar colocar com urgência os pés no chão. Há capacidade para se sair melhor. Mas concentração, organização e empenho acabam sendo bem mais necessários, o que não se viu nos tropeços.

Do outro lado, duas seleções vivem um momento de glória. O Panamá – assunto de outro texto nas próximas horas – faz por merecer sua estreia em Copas do Mundo. Apesar da derrota parcial até o início do segundo tempo, o time seguiu em frente. Empatou com um gol fantasma, no qual a bola claramente não entrou, que deve gerar grande discussão. E completou sua epopeia num gol agônico, anotado por Román Torres, novo herói nacional. O triunfo por 2 a 1 sobre os Ticos será lembrado por muito tempo. Enquanto isso, Honduras voltará a ter uma chance na repescagem. Os Catrachos se superaram, especialmente por ficarem duas vezes em desvantagem contra o México. Rommel Quioto fez o gol decisivo na vitória por 3 a 2. Tentarão ir à terceira Copa seguida, apesar do obstáculo contra a Austrália na repescagem.

De qualquer forma, se por um lado a rodada conta a euforia de panamenhos e hondurenhos, ela acabará sendo bem mais lembrada pela fatalidade americana. O maior vexame destas Eliminatórias, que acaba por tirar o US Team dos Mundiais após sete participações consecutivas. A tragédia, de fato, chama mais atenção. Sobretudo quando acontece de maneira tão patética. Tão impotente. Resultado de uma prepotência que, no fim das contas, só escancarou a incompetência de não conseguir figurar nem entre os quatro melhores de um hexagonal.

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A linha do tempo das Eliminatórias da Concacaf

Abaixo, esquematizamos, gol a gol, como se sucederam os lances decisivos nos três jogos que definiram o hexagonal final das Eliminatórias da Concacaf, bem como a dança das cadeiras pelos lugares na zona de classificação. São considerados os instantes em que os tentos saíram, em ordem cronológica, e não a sequência de minutos conforme cada partida – já que há uma pequena diferença no horário exato dos apitos iniciais. Vale lembrar que México e Costa Rica já estavam classificados, enquanto Trinidad e Tobago não tinha mais chances. Além disso, Estados Unidos tinha melhor saldo que ambos os concorrentes e o Panamá superava Honduras no quesito.

Começa a rodada
EUA na Copa (13 pontos), Panamá na repescagem (11), Honduras fora (11)

17′ GOOOL DO MÉXICO, Oribe Peralta: Honduras 0x1 México
EUA na Copa (13 pontos), Panamá na repescagem (11), Honduras fora (10)

17′ GOOOL DE TRINIDAD E TOBAGO, González (contra): T&T 1×0 EUA
EUA na Copa (12 pontos), Panamá na repescagem (11), Honduras fora (10)

34′ GOOOL DE HONDURAS, Elis: Honduras 1×1 México
EUA na Copa (12 pontos), Panamá na repescagem (11), Honduras fora (11)

37′ GOOOL DE TRINIDAD E TOBAGO, Elis: T&T 2×0 EUA
EUA na Copa (12 pontos), Panamá na repescagem (11), Honduras fora (11)

36′ GOOOL DE COSTA RICA, Venegas: Panamá 0x1 Costa Rica
EUA na Copa (12 pontos), Honduras na repescagem (11), Panamá fora (10)

39′ GOOOL DO MÉXICO, Vela: Honduras 1×2 México
EUA na Copa (12 pontos), Panamá na repescagem (10), Honduras fora (10)

47′ GOOOL DOS EUA, Pulisic: T&T 2×1 EUA
EUA na Copa (12 pontos), Panamá na repescagem (10), Honduras fora (10)

54′ GOOOL DE HONDURAS, Ochoa (contra): Honduras 2×2 México
EUA na Copa (12 pontos), Honduras na repescagem (11), Panamá fora (10)

53′ GOOOL DO PANAMÁ, Torres: Panamá 1×1 Costa Rica
EUA na Copa (12 pontos), Panamá na repescagem (11), Honduras fora (11)

60′ GOOOL DE HONDURAS, Quioto: Honduras 3×2 México
Honduras na Copa (13 pontos), EUA na repescagem (12), Panamá fora (11)

88′ GOOOL DO PANAMÁ, Torres: Panamá 2×1 Costa Rica
Panamá na Copa (13 pontos), Honduras na repescagem (13), EUA fora (12)