Eusébio anota um de seus quatro gols contra a Coreia do Norte na Copa de 1966 (AP Photo/Bippa)

Eusébio ainda é, sim, maior que Cristiano Ronaldo

O que foi Eusébio? Para o torcedor brasileiro médio, trata-se de um grande atacante, que eliminou o Brasil da Copa de 1966 antes de terminá-la como artilheiro. Foi o principal nome na melhor equipe da história do Benfica, que também foi a base da melhor seleção da história de Portugal. Todas as referências ao Pantera Negra são locais, como se falássemos de um sujeito que ficou conhecido por ter sido importante para seu país. Mal comparando, e sem querer menosprezar ninguém, como um Hugo Sánchez português.

Por isso, é fácil dizer que Eusébio morreu como o segundo maior jogador da história de Portugal. É fácil imaginá-lo como uma grande referência local, e colocá-lo como uma figura já superada por Cristiano Ronaldo, que nem chegou aos 28 anos e já é uma referência mundial. Mas isso é usar os parâmetros do futebol do presente para medir a importância de alguém de cinco décadas atrás.

O futebol era muito diferente nos anos 60. Era um esporte mais nacionalizado. Havia o passe em todos os lugares, e clubes conseguiam impedir que seus melhores jogadores saíssem. Assim, os campeões de países como Portugal, Holanda, Bulgária, Hungria, Tchecoslováquia etc eram a base das seleções locais. A Copa dos Campeões adotava seu nome no sentido literal, com os campeões das liga nacionais do continente fazendo companhia ao atual campeão europeu.

Eusébio nunca teve a oportunidade de Cristiano Ronaldo de acumular números e fama. As Eliminatórias europeias para a Copa era composta por quadrangulares, a Eurocopa era um enorme torneio eliminatório, a Copa dos Campeões tinha quatro fases em mata-mata e o Campeonato Português tinha apenas 26 rodadas. Seus jogos não eram transmitidos para o mundo todo duas vezes por semana. Virar figura global, naqueles tempos, era coisa para Pelé. Di Stéfano talvez só tenha virado porque jogou em alto nível por dois continentes. Garrincha era (e ainda é) um personagem nacional, um sujeito cuja real grandeza é desconhecida pela maioria dos europeus.

Nesse contexto, Eusébio foi fundamental para “inventar” a seleção portuguesa como uma força internacional e é essa a imagem que muito brasileiro tem dele até hoje. Mas quem teve mais contato com Eusébio (os europeus) sabe que o moçambicano não era “apenas” o melhor jogador de Portugal.

Em sua época, disputar a Copa dos Campeões não era algo comum. Os clubes, mesmo os melhores, não conseguiam vaga com constância (você sabe em quantas temporadas Cristiano Ronaldo ficou de fora da Champions na carreira? Zero) e se colocar como dominantes no torneio.

O Benfica era exceção. Os encarnados conquistaram o título português em 13 das 17 temporadas com Eusébio em campo (entre 1960/61 e 1974/75). Ir à Copa dos Campeões era uma constante. Considerando apenas os dez anos da década de 60, foram nove participações, com dois títulos, três vices, duas eliminações nas quartas de final e duas na segunda fase. O período de ouro foi entre 1961 e 65, quando os lisboetas marcaram presença em quatro de cinco finais. Nenhum outro clube europeu teve um retrospecto desse nível no período.

Obs.: Como comparação, o Real Madrid disputou todas as edições da Copa dos Campeões na década de 1960, e teve um título, dois vices, uma eliminação na semifinal, duas nas quartas de final, duas na segunda fase e duas na primeira fase. A Internazionale levantou a taça duas vezes na década, como o Benfica, mas teve apenas um vice e uma semifinal além disso (foram somente quatro participações. Lembra que eu falei que era difícil jogar a Copa dos Campeões constantemente).

Dá para afirmar que Eusébio foi o maior jogador africano da história. Mas também dá para afirmar que foi o maior do futebol europeu da década de 1960. Não era pouca coisa. Era o período em que os torneios continentais se consolidavam no continente, e a presença do atacante moçambicano despertava um respeito só superado pelos momentos em que equipes brasileiras (clubes ou seleção) excursionavam.

O Brasil não pôde sentir tanto essa grandeza de Eusébio, mas a Europa sabe bem qual foi seu tamanho. Tanto que Manchester United e Real Madrid, dois times que toparam muito com o atacante naquela década de 1960, fizeram grandes homenagens ao jogador neste domingo e segunda (veja abaixo). Não foi apenas a celebração de um craque, foi também a de um oponente que despertou temor durante anos.

Cristiano Ronaldo tem outros méritos. Está, ao lado de Messi, em um patamar que nenhum outro jogador atingiu nesta década de 2010. Teve grandes conquistas por Manchester United e Real Madrid, já teve grandes participações pela seleção portuguesa. Mas não precisamos ter pressa para sair rotulando todo mundo. Cristiano Ronaldo ainda está construindo sua história e, se seguir no caminho em que está, ultrapassará Eusébio como o maior jogador de Portugal em todos os tempos. Mas o fará por sua importância em sua época, em não pelo acúmulo de números e troféus.