Sterling marcou, aos 52 minutos do segundo tempo, o gol da vitória do Manchester City sobre o Bournemouth. Uma reviravolta emocionante para os torcedores azuis que, àquela altura, já estavam conformados com o tropeço. A comemoração foi exaltada. O jovem inglês foi celebrar com as arquibancadas e dois homens invadiram o gramado, imediatamente rechaçados pela polícia e pelos fiscais, que estão sendo acusados de uso desproporcional de força.

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Quem acusa é a Federação de Torcedores de Futebol, que também elogiou a postura de Sergio Agüero. O atacante argentino tirou satisfação com as autoridades ao ver os torcedores sendo agarrados e empurrados ao chão pelas autoridades. A polícia chegou a dizer que Agüero agrediu um dos seus oficiais, mas essa alegação foi retirada pouco depois.

Nick Glynn é um policial aposentado, com 20 anos de experiência como comandante e conselheiro das forças de segurança do futebol e testemunha especialista em casos de abuso de força. Em um texto escrito para o Guardian, Glynn concorda que houve uso excessivo de força contra os torcedores e avisa os seus colegas que já é hora de parar de tratar os fãs como inimigos.

O ex-policial lembra que as regras aplicadas a torcedores de futebol foram escritas logo depois da tragédia de Hillsborough, quando o consenso ainda era de que os próprios fãs do Liverpool eram responsáveis pela morte de 96 pessoas. Ainda havia a versão do tabloide The Sun, desmentida na sequência, de que esses fãs urinaram nos corpos, atrapalharam o resgate e roubaram os mortos. A regulamentação é reunida no The Football Act de 1991.

“Essas mentiras foram perpetuadas no Football Act e o sentimento de desagrado e suspeita para os torcedores de futebol é preservado no seu uso pela polícia e pelos fiscais ao redor do país. O pensamento é que somos todos hooligans no fundo”, escreveu Glynn. “Para 99,99% dos torcedores de futebol, a violência não poderia estar mais longe de suas mentes”.

O especialista afirma que algumas regras são amplas ou rígidas demais. Claro que a invasão de campo tem que ser coibida, “mas não criminalizar alguém que cruza a linha dois centímetros para comemorar um gol”. Atirar uma moeda ao gramado pode machucar, até cegar, mas atirar a bola do jogo de volta ao campo não pode ser também uma ofensa criminal, até mesmo quando se trata de uma criança, de acordo com Nick Glynn.

Pela comemoração, Sterling levou o segundo cartão amarelo e foi expulso, o que motivou uma resposta irritada do seu técnico Pep Guardiola. O espanhol disse que, se os jogadores não podem comemorar gols com os torcedores, a única solução seria parar de convidar os torcedores para as partidas. Uma visão corroborada pelo ex-policial.

“É sempre interessante observar a reação dos fiscais e dos policiais quando um gol é marcado”, afirma Glynn. “Eu vejo medo, raiva, agressividade, às vezes pânico. Para muitos, parece que o desejo é interromper uma reação humana perfeitamente normal e natural a um raro evento, em vez de dar uns passos para trás, respirar fundo, se manter calmo, observar e dar um minuto e meio para as coisas se acalmarem. E a torcida quase sempre se acalma, especialmente quando a situação não é piorada pelos fiscais e pela polícia intervindo desnecessariamente”.

“Quando os jogadores vão aos seus próprios torcedores para comemorar, não se preocupe – não há nenhum motivo para se preocupar. Os torcedores estarão sentados novamente em um minuto e os jogadores vão continuar com a partida”, explicou. “Para ser claro: invadir o gramado é errado, mas há uma diferença entre invadir um gramado e comemorações momentaneamente cruzando a linha branca e entrando no gramado – e é aqui que um pouco de bom senso é necessário”.