Cinco de janeiro de 2014. Portugal amanhecia sob a notícia da morte de Eusébio, o maior jogador do país em todos os tempos e uma lenda do futebol mundial. Aos 71 anos de idade, o coração do Pantera Negra parou de bater e deixou triste uma nação inteira. O luto e a comoção tomaram conta dos portugueses e, em especial, dos benfiquistas.

Cinco de janeiro de 1977. Exatos 37 anos antes de sua morte, Eusébio entrava no vestiário do Benfica pela 615ª vez. Mas, diferentemente das outras 614 oportunidades, ele não vestiria a camisa vermelha. Eusébio, então com 34 anos, usava amarelo e preto, as cores do Beira-Mar, seu clube de então.

Era uma quarta-feira à tarde e fazia calor na cidade de Aveiro, distante 250 quilômetros de Lisboa. Mesmo com o horário insólito, o estádio Mário Duarte estava lotado. Em 13º lugar no campeonato, com apenas duas vitórias em 11 jogos, o time da casa precisava de um bom resultado diante do vice-líder Benfica, que já havia obtido sete triunfos.

Faltavam 15 minutos para o jogo começar quando Eusébio entrou no vestiário do Benfica. Mesmo não sendo o mesmo espaço físico a que ele tanto se acostumou a frequentar no estádio da Luz, era um ambiente familiar para ele. Ainda que se tratasse do balneário (como os portugueses costumam dizer) dedicado ao time visitante de um estádio pequeno na década de 70, ainda que ali não houvesse qualquer luxo, aquele local era, naquele momento, território do Benfica. Por isso, mesmo sendo adversário naquela tarde, o Pantera Negra estava em casa. Conhecia cada um dos rostos ali presentes e sabia como ninguém o significado da mística daquele lugar.

O jogo que estava para começar seria diferente. Eusébio enfrentaria o seu clube de coração pela primeira (e única) vez na vida. Melhor dizendo, Eusébio nunca enfrentou o Benfica. Ele esteve em campo, jogando pelo Beira-Mar, nesta partida contra os encarnados. Mas não teve coragem de realmente enfrentar o time que tanto amou.

A decisão de ir ao gramado apenas como um figurante foi tomada antes da partida. E motivou a visita do Pantera Negra ao vestiário visitante. Ele quis avisar aos antigos companheiros que nada faria para prejudicá-los. “Já tinha avisado ao treinador do Beira-Mar, o Manuel de Oliveira, que não iria arrematar para o gol. Quinze minutos antes do jogo, fui ao vestiário do Benfica e avisei para que não se preocupassem, pois não ia marcar gols.” A frase é do próprio Eusébio, numa das vezes em que contou o ocorrido naquela tarde de quarta-feira.

Quando a bola rolou, de fato ele não se portou como o grande craque que era. “Não chutei, não cobrei faltas. Andava lá no campo só a passar a bola aos outros”, recordou. Quem visse somente aquela partida, que terminou empatada em 2 a 2, jamais diria que o atacante do Beira-Mar era um ícone do futebol mundial. Para não dizer que Eusébio não fez absolutamente nada de relevante durante todo o jogo, vale citar uma jogada no segundo tempo, quando driblou o zagueiro Alhinho e tocou para Rodrigo, que desperdiçou o gol.

A partida foi equilibrada. O Benfica saiu na frente aos 19 minutos, com gol de Fernando Chalana. O empate do Beira-Mar veio aos 26, com Abel Migliati. Quatro minutos depois, Minervino Pietra faria o segundo dos encarnados, que foram para o intervalo com a vitória parcial. O gol de empate do time da casa seria anotado por Soares, aos 11 minutos da segunda etapa.

Mas o fato que tornou o duelo histórico estava reservado para os minutos finais do jogo. Falta para o Beira-Mar na meia-lua da grande área, pelo lado esquerdo. Eusébio, como de costume, pega a bola – ele era, naturalmente, o principal cobrador do time. Mas, ao invés de ajeitá-la para a batida, entrega a Antonio Sousa e pede que o companheiro faça a cobrança. O Pantera Negra estava cumprindo a promessa que havia feito no vestiário.

“Não sei o que se passou comigo, mas comecei a tremer com aquelas camisas vermelhas todas à minha frente, aquelas caras familiares. E recusei a bater a falta. Passei a bola ao Sousa, que atirou por cima. Esse episódio foi inesquecível, mas senti-me aliviado pelo Benfica não ter saído derrotado de Aveiro, quando eu ainda era jogador do Beira-Mar.”

Antonio Sousa, então com 19 anos, era um jovem em início de carreira – depois, defenderia Porto e Sporting e chegaria à seleção portuguesa. Ainda que sem intenção, protagonizou um momento histórico, do qual recorda-se até hoje. “O sentimento de Eusébio era enorme e jogar contra a equipe do coração e da vida foi marcante para ele. O árbitro assinalou uma falta contra o Benfica e o Eusébio, que batia todas as bolas paradas, disse-me para eu bater, porque não conseguia marcar gol no Benfica.”

Pelo contrato que tinha com o Beira-Mar, Eusébio não era obrigado a estar em campo naquele dia. Como recebia um cachê por jogo, ele apresentava-se ao time somente para a partida. Sua ideia original era de não atuar, mas acabou sucumbindo à pressão do técnico Manuel de Oliveira. A estratégia do treinador, porém, mostrou-se equivocada. Ao invés de contar com um craque ao seu lado, ele teve de dirigir um time que atuou como se tivesse um a menos em campo, tamanha era a indisposição do Pantera Negra em enfrentar seu antigo clube.

Eusébio ainda contribuiria mais uma vez para o Benfica ser campeão naquela temporada. No dia 6 de março, pela 20ª rodada, foi o autor do gol do Beira-Mar no empate por 1 a 1 com o Sporting, principal rival encarnado na briga pelo título. Foi também o último gol da carreira de Eusébio na primeira divisão portuguesa.

Os aurinegros acabaram rebaixados naquele ano – voltariam à divisão de elite logo na temporada seguinte. Uma eventual vitória sobre o Benfica naquela tarde de janeiro, em tese, não salvaria o time. Um ponto a mais na classificação (na época, a vitória valia dois pontos) não seria suficiente para evitar a degola.

Há quem acuse Eusébio de ser antiprofissional. De fato, se ocorresse nos dias de hoje, a atitude dele não faria sentido e seria duramente criticada. Mas, numa época em que o futebol ainda era tomado por um certo romantismo, nenhuma voz importante se levantou contra o Pantera Negra. Até mesmo o Beira-Mar, na homenagem que fez a Eusébio em razão de sua morte, citou o jogo sem tocar no assunto “corpo mole”.

Certo ou errado, o fato é que Eusébio teve coragem de admitir o que fez. Ainda que fosse pago para jogar o melhor futebol que pudesse, seu coração não permitiu que ele assim o fizesse naquele dia de sol em Aveiro. O coração encarnado de Eusébio era maior do que qualquer contrato.