Sabe aquelas decisões ruins que você toma e que qualquer explicação as piora? Tem vezes que é preciso apenas admitir o erro ou, pelo menos, não tentar se justificar de qualquer maneira. O Grupo de Estudos Técnicos da Fifa, um órgão com um nome chique mas que falhou em sua principal atribuição nesta Copa, tentou se explicar pelo prêmio dado a Lionel Messi como o melhor da Copa do Mundo no Brasil. Se você viu a Copa, sabe que o argentino foi muito bem, decisivo, mas que basicamente ficou desaparecido na decisão com a Alemanha, tendo terminado a competição atrás de outros jogadores individualmente, como Arjen Robben e Thomas Müller. Pois para esse grupo, não. Para eles, as críticas à escolha estão embasadas “apenas no segundo tempo” do camisa 10 no jogo no Maracanã. E mais: um dos fatores decisivos para Messi levar a honraria individual máxima foi que ele “liderou um time unido”. Que forçada de barra.

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O Grupo de Estudos Técnicos da Fifa é um órgão de ex-jogadores e ex-treinadores cuja função é analisar os jogos de uma competição e, aparentemente, atribuir premiações confusas como a que vimos no Maracanã no final de semana passado. Em entrevista ao Le Monde, Gerard Houllier, ex-treinador da França e de times como Liverpool e Aston Villa, explicou por que Messi acabou no pódio do prêmio individual, defendendo a decisão e dando umas justificativas compreensíveis, mas também algumas outras bem questionáveis .

“Eu entendo que tenha sido uma surpresa, porque todo mundo apenas se lembra do segundo tempo do Lionel Messi na final. Nós, da comissão, olhamos para todos os jogos e julgamos que ele foi o jogador mais importante de seu time. Ele chegou à final, o que é uma das condições para a atribuição do troféu”, disse o francês.

“Além disso, o Messi foi mais que decisivo nos primeiros quatro jogos. Na semifinal contra a Holanda, ele cobrou o primeiro pênalti e marcou. A análise também leva em conta o fato de que ele era o capitão de um time unido, um time que jogava bem junto. Isso é algo que não víamos há muito tempo na Argentina. Ele foi mais que decisivo no elenco e na maneira como ele foi montado. Para mim, ele merece completamente a Bola de Ouro, considerando que levou seu time à final”, completou Houllier.

Como é que tal explicação abstrata pode ser dada para justificar o prêmio da Bola de Ouro? Se é para se ressaltar tanto a união da Albiceleste que dessem o prêmio a Mascherano. Apesar de Messi ser, sim, a liderança técnica da Argentina, o volante é quem era o maior responsável pelas conversas que levantavam a equipe toda, pelos papos individuais com alguns atletas em momentos-chave, como na disputa dos pênaltis com a Holanda, quando foi a Sergio Romero e falou com toda a certeza do mundo que o goleiro mediano seria herói naquele dia em Itaquera (e acertou). Não entendam mal: Messi também chamava a responsabilidade nessa comunicação, conversando com os companheiros, mas Mascherano, mesmo sem a faixa de capitão, pareceu o maior motivador daquele conjunto e foi voz importante em todos os jogos da Argentina.

Mas também é preciso dar o braço a torcer um pouco. A defesa de que Messi foi mais que decisivo nos quatro primeiros jogos é muito justa. Ora, ele decidiu com gols todas as vitórias na fase de grupos em meio a um setor ofensivo um tanto quanto ineficiente dos hermanos. Ainda chamou a responsabilidade nas oitavas de final, arrancando com a bola na prorrogação contra a Suíça e deixando Di María em perfeitas condições para fazer o gol do 1 a 0. E se você pensar bem, dá para dizer tranquilamente que ele foi quem mais tentou algo do lado argentino na final contra a Alemanha. Mas isso também não é suficiente para elegê-lo o melhor do torneio, ainda mais após seu fracasso em definir a Copa para a Argentina.

Apesar de considerarmos injusta a premiação a Messi, ela é bastante compreensiva. A Fifa tende mesmo a dar os prêmios a jogadores que foram destaques individuais de suas seleções, como aconteceu com Zidane em 2006 e Forlán, em 2010, por exemplo. O fato de que Thomas Müller fez parte de um grupo cheio de bons jogadores, que dividiram entre si as responsabilidades na definição do título da Alemanha, acabou pesando para que ele não fosse o escolhido. Mas usar o fator liderança e essa conversa de que ele, Messi, uniu o elenco parece um grande papo furado.