Na virada dos anos 2000, Fabián O’Neill era uma das referências da seleção uruguaia. O meio-campista habilidoso ganhou o apelido de ‘El Mago’ e defendeu a Celeste por quase uma década, reserva na Copa de 2002. Também teve uma carreira respeitável por clubes, campeão uruguaio com o Nacional, antes de rumar ao futebol italiano. Por lá, viveu os melhores momentos no Cagliari, o que valeu a transferência à Juventus em 2000/01. Jogou pouco pela Velha Senhora, mas ganhou um admirador: Zinedine Zidane, que certa vez declarou que o companheiro era um dos melhores jogadores com quem já havia atuado. Naquele momento, todavia, a carreira de O’Neill começava a degringolar. Passou sem sucesso por Perugia e novamente pelo Cagliari, antes de retornar ao Uruguai, encerrando a carreira precocemente aos 30 anos, no Nacional.

O passado promissor de O’Neill contrasta bastante com sua realidade modesta, no interior do Uruguai. O veterano, aos 43 anos, hoje mora em Paso de los Toros, cidade no centro do país com pouco mais de 12 mil habitantes. O glamour se esvaiu pelas mãos do Mago, que passa o dia no bar La Nueva Lata e na banca de frutas que fica logo ao lado, tomando sua dose e ajudando os donos dos comércios. E ele fala sem receios dos tombos que levou. Perdeu cerca de 14 milhões de dólares conquistados com o futebol. Mas não se arrepende, feliz com a vida pacata que se tornou realidade.

“Eu já venho para cá de manhã. Ajudo Janet, a dona, que é filha de um amigo que tem uma boate na cidade. E quando Quero, o dono do bar, precisa sair, eu fico em seu lugar. As pessoas não estranham, porque já me conhecem”, afirmou O’Neill, em entrevista ao jornal esportivo Ovación. Sem ter nem ao menos uma casa, o meio-campista vive com a sogra, a esposa (companheira durante parte dos tempos fartos e que não o abandonou) e o filho Favio, de 14 anos, que atua nas categorias de base do Nacional. Diz que está mais feliz sem nada do que nos tempos de conta bancária gorda.

Não muito afeito ao trabalho, O’Neill depende de ajuda. Por exemplo, está esperando Paco Casal (poderoso empresário uruguaio e seu antigo agente) voltar de viagem para quitar umas dívidas. “Não quero que me façam trabalhar muito, eu não gosto muito de trabalhar. Gostaria de descobrir jogadores, conheço gente em todos os povos, mas não é fácil de recomendar. Gostaria de trabalhar com isso e nada mais. Nada de estar de terno e gravata. Eu não quero ser comentarista na TV. Eu gosto de andar assim, de chinelo. Quando era capitão do Cagliari, às vezes tinha que colocar roupa social por obrigação. Gostava de ser o capitão, mas ia de agasalho. Sabia ser capitão, sei ter responsabilidades, o que sou é simples. A vida me fez assim, rebelde e orgulhoso”, explica.

Depois de parar, O’Neill teve outros negócios, incluindo uma fazenda para criar ovelhas. Não prosperou. Há quatro anos, lançou sua biografia, um sucesso no Uruguai. Vendeu milhares de cópias. Até Zidane apareceu com um exemplar nas mãos. Sucesso passageiro, como aquele dos tempos em que calçava chuteiras. Atualmente, além das dificuldades financeiras, nem mesmo a saúde anda tão bem. Em junho do ano passado, precisou operar a vesícula. Teria que permanecer três anos sem beber. Não aguentou um mês.

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“Tive 14 milhões de dólares e perdi. Mas, a mim, não me incomoda ser pobre. Não me custa. Tendo dinheiro para beber e que meus filhos estejam bem, aí está. Que meus filhos tenham saúde é uma fortuna para mim. Depois, comer, se come arroz com ovo igual. Cavalos lentos, mulheres rápidas e jogatina, isso faz com que não fique nada. Quando era jogador apostava mais, porque tinha mais dinheiro. Agora não posso, não tenho nada”, aponta. Segundo O’Neill, os divórcios também custaram parte da riqueza. As duas filhas, fruto dos dois primeiros casamentos, não passam a mesma dificuldade de Favio.

“Os amigos do passado hoje não existem. Sou feliz igual, porque há gente nova, que está comigo quando não tenho nada. Hoje paro aqui no bar com um grupo e ajudamos uns aos outros. Às vezes tenho mil pesos, às vezes eles têm. E o senhor do posto me dá para que leve comida para casa. É melhor estar assim que ter dinheiro. Tive muito dinheiro, milhões de amigos. Hoje só tenho 10 ou 12, boêmios como eu, mas são os que me ajudam”, complementa. “Paco Casal fez muito por mim. Fez com que eu ganhasse muito dinheiro. Depois, fui eu que a perdi. Além disso, não queria psicólogos. Era impossível me ajudar”.

De seus tempos de jogador, leva com carinho principalmente Zidane e o Cagliari: “Meu melhor momento foi no Cagliari. Era ídolo. Apesar da tristeza quando fomos rebaixados. Eu parava na praia e os torcedores me chamavam de bêbado. No outro ano, quando subimos, estes mesmos torcedores (porque eu conhecia a cara de quem me enchia) me pagavam bebida. Depois, quando fui para a Juventus, me tornei um dos últimos do elenco, porque lá estavam fenômenos, como Zidane. Hoje torço por Real Madrid por ele”.

E, aos 45 anos, O’Neill não pensa em deixar Paso de los Toros tão cedo: “Quero seguir assim, não quero estar do lado dos ricos. Nunca quis, o rico era eu. Por sorte, ficaram alguns princípios. Pouquinhos, mas ficaram. Em Paso de los Toros, ficaram alguns princípios. Gente que vê que eu estou mal e me estende a mão”. Seguem os tragos e as velhas histórias da bola, a quem hoje só restam as lembranças.