Aos 86 anos, Fábio Koff faleceu nesta quinta-feira, vítima de uma infecção generalizada que o mantinha internado desde a última semana. Dirigente fundamental para recontar a história do futebol brasileiro nas últimas três décadas, passou 15 anos à frente do Clube dos 13, comandando a entidade até a sua dissolução em 2011. As lembranças mais gratas sobre a sua trajetória, no entanto, sempre estarão entre os gremistas. Koff foi presidente do Grêmio em três passagens diferentes. Em duas delas, os tricolores conquistaram alguns de seus títulos mais importantes – em 1983, com a inédita Libertadores e o Mundial Interclubes, assim como em 1995, rumo ao bicampeonato continental, antes de também faturarem o Campeonato Brasileiro de 1996.

Nascido em Bento Gonçalves, Koff descobriu o gremismo ainda na infância, ao ganhar uma camisa do clube no Natal. Mudou-se a Porto Alegre na década de 1940, indo estudar na capital. Acompanhou um período de seca dos tricolores, em tempos dominados pelo Internacional. Justamente quando mais se aproximou do clube de coração. Nos anos 1950, virou sócio do Grêmio. Nos anos 1960, entrou para o conselho deliberativo. Já na década de 1970, virou dirigente. Conhecido pela postura enérgica, chegou à presidência pela primeira vez em 1982, permanecendo até o ano seguinte. Voltou para um novo ciclo entre 1993 e 1996. Por fim, a última passagem pelo cargo máximo aconteceu após sua saída do Clube dos 13, entre 2013 e 2014.

Se o pulso firme era uma de suas características como cartola, Koff também se destacava pela relação paternal que construiu com diversos personagens históricos do Grêmio. Entre eles, Renato Portaluppi. O maior ídolo tricolor deve muito ao dirigente, em diferentes momentos de sua trajetória pelo clube, principalmente durante os primeiros anos. Não à toa, o comandante emitiu uma tocante nota de pesar sobre o falecimento do ex-presidente.

“Tive a honra e o prazer de conhecer o Dr. Fábio Koff no início da minha história no Grêmio. Um homem com todos os predicados que um grande homem tem de ter. Foi como um pai para mim e sempre disse isso a ele e a todos que me perguntavam sobre a nossa relação. Estou muito triste com a notícia do seu falecimento e tenho absoluta certeza de que não é só o Grêmio que sentirá sua falta. O futebol brasileiro perde um grande homem. Depois de ganharmos o Mundo em 1983, voltamos a trabalhar juntos em 2013 e sempre que possível mantínhamos contato. Tenho certeza de que ele nos deixa muito satisfeito com tudo que o Grêmio tem feito dentro de campo. Obrigado por todos os ensinamentos, Dr. Fábio”, escreveu Renato.

Renato chegou ao Grêmio em 1980, trazido do Esportivo de Bento Gonçalves. A relação mais próxima com Fábio Koff começou em 1982, quando o advogado assumiu a presidência. E a firmeza do dirigente foi decisiva para a continuidade do atacante no Olímpico. O garoto despontava ao elenco profissional, alternativa ao veterano Tarciso, mas não satisfazia completamente Ênio Andrade – que o taxava como “maluco” por seu gênio rebelde. O treinador já tinha conseguido a contratação de Isaías, ponta esquerda do Maringá, e queria também Paulo César, ponta direita do clube paranaense. Antes de levar o negócio em frente, entretanto, o departamento de futebol entrou em contato com o mandatário.

Ao descobrir o que se planejava, Fábio Koff barrou a transação. Garantiu que o clube não iria trazer Paulo César, apostando em Renato. “É forte, é guri, quer crescer”, afirmou. O problema é que, sem o presidente saber, o departamento de futebol também negociava a saída do prodígio, em empréstimo alinhado com o Operário de Campo Grande. Foi então que o ponta direita teve sua permanência assegurada. “Vocês estavam fazendo a transferência, mas agora não estão mais”, retrucou Koff, mandando que a promessa voltasse de Bento Gonçalves, onde se preparava à mudança, e fosse integrado ao plantel. Diante dos atritos com Ênio Andrade, Renato permaneceu na reserva de Tarciso durante boa parte do ano de 1982. Porém, conquistaria seu espaço a partir da chegada de Valdir Espinosa, seu antigo companheiro no Esportivo, para ajudar a transformar a história gremista.

“O Renato é interessante, é uma figura. Acho que é dos atletas que melhor história tem dentro do Grêmio. É oriundo das categorias de base, ele fez sua história aqui no Grêmio. Era um atleta que conseguia ter força e técnica bastante aprimorada. E fundamentalmente, um coração gremista enorme. E ele como atleta jovem, com sucesso que fez, ele tinha os seus deslizes, mas nada que não fizesse qualquer rapaz com 19 ou 20 anos. Tinha-o como um filho meu”, comentou Koff, em entrevista ao Globo Esporte, em 2016.

A aposta de Fábio Koff se pagou em 1983. E a maneira como o dirigente tratava Renato, sabendo como lidar com o jovem craque, também fazia a diferença. Um episódio emblemático aconteceu antes do jogo em casa contra o Estudiantes, pelo triangular semifinal da Libertadores. O ponta direita figurava constantemente nas páginas dos jornais gaúchos, e não apenas por seu futebol. As saídas noturnas eram motivo de constante discussão na imprensa. Então, o garoto resolveu invadir na sala do presidente, com uma decisão “drástica” – para os seus padrões.

“Presidente, a geladeira da concentração está uma vergonha, não tem nada lá dentro”, disse Renato, segundo o relato da Revista Placar de abril de 1986. “E daí?”, respondeu Koff. “E daí que vou me concentrar a partir de hoje e queria que o senhor mandasse encher aquilo de refrigerantes”. Com um sorriso, o mandatário atendeu o pedido. Por conta própria, o ponta direita se enfurnou na concentração às vésperas da partida decisiva. Resultado? Os refrigerantes serviram de combustível e ele deu sua contribuição na vitória sobre os argentinos. Repetiria a fórmula antes do encontro com o América de Cali no Olímpico. Entre descanso e refrigerantes, acabou com os colombianos.

“Estou convencido que corri os 90 minutos porque não tinha ido a festas. Vou continuar concentrado. Sempre gostei de sair à noite, mas agora é a vez do título. O Espinosa me disse que depois do jogo em La Plata posso me soltar até no avião”, declarou Renato, após a partida contra o América de Cali. “Nem tudo que passa pela minha cabeça são mulheres. Quero este título mais do que ninguém. Elas estão até me escolhendo como o rapaz mais lindo da cidade, mas nada disso vai me influenciar. O que importa agora é seguir os meus companheiros e voltar da Argentina com a classificação”.

O Grêmio empatou com o Estudiantes por 3 a 3, na histórica Batalha de La Plata, e avançou à decisão. Contra o Peñarol, Renato mais uma vez teve peso decisivo, sobretudo ao fazer a jogadaça que resultou no gol de César, valendo o título. Nem mesmo o destempero nos minutos finais, quando foi expulso, tiraria o moral do garoto. Na comemoração, sinal de carinho com Fábio Koff, ele jogou um balde de água no presidente. “É uma criança espontânea”, disse o dirigente, conforme a Placar.

Já rumo ao Mundial, outro capítulo marcante da relação entre Renato e Koff. Durante uma tarde de sábado, a 15 dias da partida contra o Hamburgo, um carro entrou a milhão no pátio do Olímpico. O ato de exibicionismo acontecia bem próximo de um evento da escolinha do Grêmio, onde se encontravam várias crianças e seus pais. Quando o possante estacionou de qualquer jeito, em uma freada brusca, eis que saiu Renato, sob o olhar de repreensão dos adultos, temerosos de um acidente. “Entrou voando, numa velocidade incompatível com o local. Podia ter atropelado alguém, pois estava cheio de gente”, relembrou Koff, em sua biografia. O presidente viu tudo e, imediatamente, mandou o departamento de futebol multar o craque em 20% de seu salário.

Não demorou muito para Renato entrar na sala do presidente, insatisfeito, com uma advertência nas mãos. Disse que não ia pagar e nem assinar porcaria nenhuma. “Tu é que sabes, Renato. Não vai assinar? Tu achas que fizeste certo? Então tu estás fora! Podes voltar para Bento Gonçalves. Aqui tu não vais ficar”, respondeu o dirigente furioso. Ao que o jovem terminou de explodir: “Tá bem. Tô indo embora. Vou pra Bento e volto a ser auxiliar de padeiro”.

Em meio à irredutibilidade de ambos, Renato só se acalmou quando desceu aos vestiários e conversou com o técnico Valdir Espinosa, um tanto quanto incrédulo. Então, jogador e técnico voltaram ao gabinete presidencial. “Mandei ver o que estamos te devendo, Renato, e o contrato vai ser rescindido”, fuzilou Koff, de bate-pronto. E o ponta direita, que não era bobo nem nada, logo encontrou sua maneira de reverter a situação: “Posso pagar a multa com o bicho do Mundial?”.

Quinze dias depois, o ex- auxiliar de padeiro estava em Tóquio, arrebentando contra o Hamburgo. Já na comemoração pelo título, dentro do vestiário, o autor de dois gols perguntou: “Tá paga a multa?”. “Claro que não, Renato! Fizeste dois gols, mas tens que desembolsar o valor”, ouviu de volta. Segundo Koff, a partir de então é que os dois se tornaram realmente grandes amigos. O dia 13 de maio, aliás, virou data de um ritual inquebrável a Renato: sempre ligava a Koff, desejando feliz aniversário.

O último momento em que Renato e Koff trabalharam juntos, como funcionário e presidente, foi durante a segunda passagem do já treinador pelo Grêmio, em 2013. O dirigente trouxe seu pupilo para assumir o time no início do Campeonato Brasileiro e, durante a apresentação, o ex-jogador deu um carinhoso beijo na testa do cartola – coisa de pai para filho. “Eu estou voltando no tempo te trazendo, te conheço desde menino. Desde 1983, tomaste outros rumos, a minha vida teve outros episódios… O Grêmio se impunha pela raça, pela determinação. Ninguém mais representava esse espírito, essa coragem, que tu tinhas desde menino. Estava faltando ao Grêmio o teu espírito, a tua raça, a tua determinação, a tua coragem. Tu chegas não porque te quero como apenas como amigo. Estás chegando aqui porque o Grêmio precisa de ti”, anunciou Koff.

A parceria mais uma vez deu certo e Portaluppi superou as expectativas, levando os tricolores ao vice-campeonato nacional, que rendeu uma vaga na Copa Libertadores. Contudo, ao final do ano, o técnico não chegou a um acordo com a diretoria para renovação de seu contrato e decidiu sair. O que não diminui a doçura com o amigo. “Gostaria de agradecer publicamente ao Dr. Fábio Koff por todo o carinho que sempre demonstrou por mim e pela confiança na minha capacidade profissional”, declarou o comandante, em sua despedida.

Já em 2017, Fábio Koff seguia confiando em Renato como o responsável por retomar as glórias gremistas. Era, afinal, seu ‘herdeiro’ na tarefa. “Renato é uma pessoa extremamente inteligente, tem liderança de grupo, gerencia as ideias. Ele adquiriu uma consciência profissional muito forte. Antes, apagava incêndios e voltava para o Rio, hoje está integrado. É um dos melhores técnicos do futebol sul-americano”, avaliou o ex-presidente, às vésperas da final contra o Lanús, ao Zero Hora. Mostra de uma relação afetuosa que perdurou até os últimos dias de vida do ‘pai’. O próximo 13 de maio certamente será mais vazio a Renato.