Falcao García foi vítima de uma crueldade inaceitável do destino. Na melhor fase da sua carreira, pronto para defender a seleção colombiana, recheada de outros talentos, na Copa do Mundo do Brasil, do seu próprio continente, perto de casa, sofreu uma grave lesão nos ligamentos do joelho. Já em janeiro, sabia-se que o atacante não participaria do Mundial. Assistiu aos companheiros chegarem às quartas de final do lado de fora e, com problemas no início do ciclo seguinte, deve ter duvidado que um dia conseguiria outra chance de disputar o principal torneio do futebol. Essa angústia não existe mais. Ele conseguiu. E, neste domingo, na vitória por 3 a 0 sobre a Polônia, válida pela segunda rodada do Grupo H, Falcao finalmente marcou o seu nome na história das Copas.

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Quando se machucou, Falcao era um dos melhores atacantes do mundo. A temporada anterior havia sido brilhante, com 34 gols em 41 partidas pelo Atlético de Madrid. O Monaco abriu a carteira para contratá-lo: € 43 milhões. Parecia um pit stop, uma escala na França antes de se dirigir a centros maiores e clubes gigantescos. Mas, depois de defender o time do Principado apenas 19 vezes – e marcar 11 tentos -, Falcao sofreu a lesão que o tirou da Copa do Mundo. Às vésperas do começo da nova temporada, Falcao García buscou novos ares para recuperar a confiança. Mas não tomou as melhores decisões para sua carreira.

Falcao foi para a Premier League, o pior lugar para onde poderia ir depois de nove meses de inatividade. O futebol rápido e físico da Inglaterra junto com a exigência que vem de ser uma cara contratação não contribuíram para a sua retomada. Fez apenas quatro gols pelo Manchester United, em 29 partidas, 17 como titular. Apesar dos baixos números e das dificuldades que demonstrou, José Pékerman apostou no seu artilheiro e o convocou para a Copa América de 2015. Com a braçadeira de capitão, Falcao foi titular nas três primeiras partidas, não fez gol e foi para o banco de reservas. Pékerman não repetiria o equívoco na Copa América do Centenário, um ano depois. Falcao não foi chamado para o torneio nos Estados Unidos, depois de outra temporada fraca na Inglaterra, desta vez com a camisa do Chelsea – 12 jogos, dois como titular, um gol e lesões que o tiraram de boa parte da campanha.

As passagens ruins pelo futebol inglês praticamente fecharam as portas do mercado para Falcao. Havia sérias dúvidas se conseguiria voltar ao alto nível, depois de dois anos em que foi flagrante que a sua potência física havia desaparecido. Como ainda tinha contrato com o Monaco, e havia sido apenas emprestado (por valores altíssimos) para Manchester United e Chelsea, o colombiano decidiu ficar na França. E foi marcando seus gols, enquanto ninguém estava olhando: o primeiro na quinta rodada, outro na décima, três na 17ª, e, ao fim do primeiro turno, tinha 11 em 13 jogos. E o Monaco brigava seriamente pelo título. Falcao seria a âncora de experiência do time jovem treinado por Leonardo Jardim, com Mbappé, Lemar, Bernardo Silva e Bakayoko, que conquistaria o título da Ligue 1. Foi o artilheiro do time com 21 tentos em 29 partidas. E anunciou ao mundo que estava de volta no thriller contra o Manchester City pelas oitavas de final da Champions League.

Na temporada seguinte, Falcao foi mais uma vez uma liderança importante do Monaco, em uma equipe que havia vendido alguns dos seus principais jogadores e se reformulava. Foram 18 gols na Ligue 1 e 24 em todas as competições, tendo entrado em campo 36 vezes. Talvez não fosse mais um atacante do primeiro patamar do futebol europeu. Mas ainda era um ótimo jogador. Não poderia ser novamente ignorado por Pékerman. Havia retornado à seleção no final de 2016, contra o Chile, pelas Eliminatórias Sul-Americanas. No ano seguinte, disputou 90 minutos e foi capitão nas quatro partidas que colocaram a Colômbia na Copa do Mundo. E, naturalmente, constou na relação de convocados ao Mundial.

Falcao não fez uma grande partida contra o Japão, quando a Colômbia foi atrapalhada pela expulsão de Carlos Sánchez, logo aos três minutos. Deu apenas dois chutes a gol. Também não foi brilhante contra a Polônia. Parecia destoar dos companheiros na grande exibição da equipe sul-americana. Mas, aos 25 minutos do segundo tempo, começou a jogada abrindo com Arias e se projetou. Percebeu que estava impedido e deu um passe para trás, permitindo que o passe de Quintero não o encontrasse em impedimento. Ficou cara a cara com Szczesny e tirou do goleiro com um chute de três dedos no canto. Todos os recursos de um grande centroavante apareceram. E Falcao conseguiu tirar da garganta o grito que estava atravessado não apenas desde 2014, mas desde sempre: “Foi o gol com o qual sonho desde criança. Esperava por ele há muitos anos”.