Os insucessos da seleção brasileira em Copas do Mundo passam por carrascos gentis. Pode parecer Síndrome de Estocolmo, mas tantas vezes o Brasil caiu ante a personagens dignos de admiração. Como odiar Obdulio Varela e Alcides Ghiggia, entre tantas provas de afeição à multidão brasileira que chorou no Maracanã? Como negar o talento de Paolo Rossi, que expiou os próprios pecados antes da redenção? Como maldizer Zinedine Zidane, com atuações tão magistrais em duas oportunidades? E, por mais que não tenha o protagonismo destes que estiveram em campo, Henri Michel merece o respeito. O treinador da França que relegou os brasileiros à prata olímpica em 1984 e, dois anos depois, ajudou a barrar o anseio de Telê Santana na Copa de 1986. Uma lenda do futebol francês, de legado que se espalhou por outros cantos. Que, infelizmente, faleceu nesta terça-feira aos 70 anos, de causa ainda não revelada.

Antes de ser um grande técnico, Henri Michel foi um jogador emblemático do futebol francês. Começou a carreira no Aix, de sua cidade natal, mas aos 18 anos despontou para vestir a camisa do Nantes. A partir de então, seria impossível recontar as glórias dos Canários sem citar o talento do meio-campista. “Elegância” era o seu codinome. Demonstrava uma maestria acima da média para distribuir o jogo. Ditava o ritmo do time, carimbando todas as bolas no meio, dando passes açucarados. Esguio, tinha velocidade e uma leitura privilegiada das jogadas. Além disso, seu chute de média longa distância tantas vezes foi fatal. Manteve-se por 16 anos nas graças da torcida auriverde, disputando 640 partidas, um recorde no clube. Ao final da carreira, quando a capacidade física não era a mesma, ainda rendeu muito bem como líbero.

A influência de Michel o alçou ao posto de capitão. Mas não era daqueles donos de braçadeira que se impunham na base da força, do grito. Sua liderança era pelo exemplo, pela qualidade. Daqueles que aos quais os companheiros se curvam por ser tão bom. E o Nantes logo colheria os frutos de contar com tamanha referência em seu meio-campo. Foram três títulos do Campeonato Francês aos Canários, além de cinco vices. A equipe também conquistou a Copa da França uma vez. Ainda teve o gosto de chegar a uma semifinal de Recopa Europeia em 1979/80. Após eliminarem Steaua Bucareste e Dinamo Moscou, os franceses caíram ao Valencia de Mario Kempes.

E a elegância de Henri Michel não se continha apenas ao Nantes. O meio-campista defendeu a seleção francesa em 58 partidas. Convocado pela primeira vez em 1967, aos 20 anos, seguiu compondo o elenco até 1980. Uma pena que não eram períodos tão frutíferos aos Bleus. Assim, precisou se contentar com apenas uma participação em Copas do Mundo dentro de campo. Vestiu a camisa 11 no Mundial de 1978, titular nas duas primeiras partidas da equipe. Contudo, as derrotas para Itália e Argentina logo de cara selaram a eliminação precoce da França. Após pendurar as chuteiras, ao menos, o veterano seguiu por perto. Sua liderança e sua capacidade para entender o jogo logo o botaram para comandar a seleção olímpica, no ciclo rumo aos Jogos de Los Angeles.

Henri Michel iniciou sua trajetória como técnico aos 35 anos. Levou os franceses às Olimpíadas e, mais do que isso, conseguiu conquistar o ouro. Não era um time tão estrelado assim, mas demonstrou sua força principalmente na reta final, ao vencer Iugoslávia e Brasil. O sucesso, aliás, promoveu o jovem comandante a um posto maior. Assumiu a seleção principal, que acabara de conquistar a Eurocopa de 1984. Michel Hidalgo, seu comandante em 1978 e responsável pelo sucesso na Euro, se tornou supervisor técnico, auxiliando o pupilo na sequência do trabalho. E com um time recheado de craques, os Bleus protagonizaram uma grande campanha. Eliminaram Itália e Brasil, caindo apenas diante da Alemanha Ocidental nas semifinais. Acabaram com um honroso terceiro lugar.

A transição da seleção francesa após perder referências em campo, porém, rendeu turbulências. O time deixou a vaga na Euro 1988 escapar para a União Soviética e começou mal nas Eliminatórias para a Copa de 1990, o que rendeu a demissão do técnico. Depois de uma rápida passagem pelo Paris Saint-Germain, Henri Michel iniciou uma saga de trotamundo. Passou por diversos países da África e da Ásia, como um especialista em Copas do Mundo. Dirigiu Camarões ao Mundial de 1994 e Marrocos no de 1998 – o ápice da passagem de cinco anos à frente dos Leões do Atlas. Já a grande história aconteceu na Costa do Marfim. Nos Elefantes, o treinador assumiu a geração mais talentosa que o país já vira. Mais do que o gosto de levar os marfinenses ao primeiro Mundial de sua história, de certa maneira, ainda auxiliou a interromper a guerra civil que dividia o território. O período em Abidjan, aliás, mostrou o seu melhor: um comandante aberto e que sabia domar egos, em um elenco de gênio forte.

Após deixar os marfinenses em 2006, Henri Michel rodou por vários clubes e seleções. Encerraria a carreira em 2012, após dirigir o Quênia. E o respeito permanecia. Prova disso veio nesta semana, quando o Nantes comemorava os 75 anos de sua fundação. O antigo capitão foi eleito pelos próprios torcedores à seleção de todos os tempos da agremiação. Mais do que isso, na antevéspera de sua morte, o clube o designou como o “Canário dos 75 anos”, com sua imagem se transformando em um mural gigantesco na fachada do museu dos Canários. Fica de tributo a um personagem que deixará saudades.