O drible é uma das artes mais puras do futebol. Mas uma arte profana. Uma arte que depende de alguém do outro lado sendo humilhado. E uma arte que provoca quem assiste. Não há a geometria dos lançamentos, a precisão dos desarmes, a estética do domínio. O drible se torna sensacional pelo improviso. Por se desenhar em rabiscos com as pernas que, a partir da genialidade do artista, se transformam em obras surrealistas. São muitos os que reproduzem estas artes, mas poucos os verdadeiros mestres. Entre estes, René Houseman, uma das referências da “gambeta” pela Argentina. Um ponta direita habilidoso que habitou os sonhos de tantos torcedores, sobretudo em seu ápice no Huracán e nas duas Copas do Mundo que disputou. Um craque que, aos 64 anos, vira apenas lembranças, falecido nesta quinta em decorrência de um câncer na língua.

Assim como tantos artistas, Houseman não era um cara simples de se compreender no dia a dia. E o maior indício está em seu apelido, ‘El Loco’. As histórias envolvendo o ponta são inúmeras. De que gostava das noitadas, em atrasos costumeiros. De que batia bola nos campos de várzea, quando já era consagrado como profissional. De que fingia lesões para ser substituído e, assim, seu reserva ganhar também o bicho. Mas qualquer sinal de loucura era plenamente compreendido quando se via a sua genialidade. Os dribles imparáveis, os adversários estirados no chão, os golaços estonteantes. Isso bastava para que o camisa 7 hipnotizasse as multidões em suas incursões pelo lado direito do ataque, com um estilo abusado e propriamente “varzeano” pela inconsequência. A indulgência plena para que se mantivesse nos corações.

Nascido em 1953, na província de Santiago del Estero, Houseman se mudou cedo para a capital. Tinha apenas dois anos quando seus pais seguiram a Buenos Aires, em busca de melhores condições de vida. Moravam em Bajo Belgrano, uma “villa” na periferia da metrópole – como são chamadas as favelas locais. O garoto, não muito afeito aos livros, estudou até os 14 anos. Dividia seu tempo com trabalhos simplórios – em um açougue, em um sacolão, em uma farmácia. E também brilhava na várzea. Ao lado dos irmãos mais velhos, jogava como lateral por “Los Intocables”, um clube de bairro famoso na região. Adolescente, encarava adultos nos campos duros de terra batida.

“Viver na villa foi o melhor que aconteceu comigo. Em nenhum lado estava tão tranquilo como lá. Eu era um garoto feliz, não me faltava nada. Passava o dia inteiro chutando a bola contra um paredão. Muitas pessoas criticam as pessoas da villa. Para mim, é um orgulho. Sempre vou ser villero. E eu digo sem drama: sou villero até a morte”, declarou Houseman, à revista El Gráfico, em 2002.

Quando tinha 15 anos, Houseman deu um passo além. Foi se provar em uma peneira no Excursionistas, clube da região para o qual torcida. No entanto, mesmo se destacando nos testes, não foi selecionado – em rejeição que, para ele, se dava pelo fato de ser um “villero”, um favelado. Mudaria de cores e, logo depois de uma experiência pelo Defensores de Flandria, seguiria ao Defensores de Belgrano, justamente o arquirrival do Excursionistas. Por lá, estreou no time principal quando tinha 18 anos. Aos 19, então, viveu a glória na Primera C, equivalente à terceira divisão. Com seus dribles, encantou torcedores e, mais do que isso, levou seu clube ao título da competição, garantindo o acesso. Naquele momento, o Defe era pequeno demais ao bom futebol do prodígio. Ele assinou com o Huracán, chegando a Parque Patrícios em janeiro de 1973.

“É um ponta direita no rosto e no jeito. Como diz o Flaco Menotti, por momentos lhe parece a simpática imagem do ‘loco’ Corbatta. Na figura esguia. Nos ombros estreitos. Nas pernas finas. Nas incipientes rugas que aparecem nas bochechas quando sorri. Nesta expressão de menino. Sim, de menino de 19 anos que já caminhou por anos… […] Sim, também tem o jeito de ponta direita em campo. No atrevimento, na forma como acordeona o corpo, no descaramento para enfrentar. Nas arrancadas quase inesperadas. Na picardia para mudar por dentro e por fora. E na habilidade do manejo. Para dar com a direita e com canhota. E dar bem, com precisão”, descreve a revista El Gráfico, assim que o jovem chegou ao Huracán. Inclusive, fazem uma sugestão: que inventem um apelido para a promessa de sobrenome alemão. Há uma lenda que diz, inclusive, que esperavam um grandalhão alemão quando anunciaram ‘Houseman’ em Parque Patrícios, não o baixinho mirrado de cabelos compridos e meias arriadas.

Aquele ano de 1973 seria histórico ao Huracán, e não apenas pela contratação de um de seus maiores ídolos. Naquela temporada, o Globo alcançou seu último grande título, faturando o Campeonato Argentino. Treinador dos quemeros, o próprio César Luis Menotti recomendou a compra de Houseman. “Este magrelo desengonçado que vocês viram hoje vai ser destaque do futebol argentino”, declarou o comandante, ao promover a estreia do garoto. E ganhou um dos protagonistas em sua célebre equipe, que contava ainda com ícones do porte de Miguel Brindisi, Carlos Babington, Omar Larrosa, Jorge Carrascosa e Alfio Basile. Aquele esquadrão quebrou um jejum do clube de 45 anos sem a taça nacional, a única da liga erguida desde a instituição do profissionalismo. E se isso já seria suficiente para que os campeões ficassem na memória, Menotti conseguiu ir além, montando um time extremamente ofensivo, de futebol vistoso. Os dribles de ‘El Loco’, afinal, eram fundamentais à estética refinada do super Huracán.

Naquela campanha do Campeonato Metropolitano de 1973, o Huracán dominou de ponta a ponta. Estreou com uma goleada por 6 a 1 sobre o Argentinos Juniors e logo emendou outros bailes – como os 5 a 0 no Racing e também no Rosario Central. Os quemeros encerraram a campanha com 19 vitórias em 32 partidas, com 62 gols marcados e sem serem muito incomodados pela concorrência. Se havia quem desdenhasse da afirmação quanto ao “sexto grande”, Boca Juniors, San Lorenzo, Independiente e River Plate terminaram logo abaixo na tabela. Já o alucinante Houseman se tornou incontestável, mesmo com tão poucos jogos pelo novo clube. Ao longo daquela campanha, acumulou dez gols, inúmeros passes e incontáveis dribles.

O sucesso de Houseman era tão grande que, já em maio de 1973, ele ganhou sua primeira chance na seleção argentina, convocado por Omar Sívori para um torneio amistoso contra o Uruguai. O ponta integrou a equipe nacional durante toda a fase preparatória e apareceu na lista final de Vladislao Cap para a Copa do Mundo de 1974. Aos 20 anos, o garoto – que até meses antes estava na terceirona – disputaria o seu primeiro Mundial. Mais do que isso, causou impacto. Sua atuação contra a Itália na fase de grupos é inesquecível, anotando um lindo gol de canhota no empate por 1 a 1. Ainda deixaria sua marca contra Haiti e Alemanha Oriental, com a Albiceleste caindo no quadrangular semifinal que também tinha a Holanda. O camisa 11 dividiu a mesma prateleira de Johan Cruyff, Rivellino e Pau Breitner na lista de artilheiros daquela competição. Foi destaque individual.

A chegada de Menotti à seleção ainda em 1974 deu uma garantia a mais para que Houseman se tornasse absoluto com a camisa celeste. Já no Huracán, embora tenha no máximo chegado a um vice-campeonato, desfrutava da adoração absoluta de seus torcedores – mesmo acumulando tantos episódios com contornos folclóricos. Um deles conta que a diretoria do Globo, para oferecer condições melhores de vida a El Loco, alugou um apartamento em Parque Patrícios. Queria que ele se afastasse das “más influências” de Bajo Belgrano, que poderiam atrapalhar a sua disciplina nos treinos. O jovem até se mudou ao novo lar e parecia adaptado à realidade. Porém, apenas 20 dias depois, voltou à sua comunidade. Era um “villero” com orgulho, e entre os seus é que se sentia bem. Preferia o aconchego entre os humildes casebres.

Já em 1977, aconteceu o jogo mais famoso de René Houseman. As noitadas eram assunto sabido e o Huracán até costumava dar uma colher de chá ao seu craque. Às vésperas de um duelo contra o River Plate, o ponta pediu permissão  para que ganhasse umas horas a mais antes de chegar à concentração, pois era aniversário de seu filho. Às dez da noite, disseram, precisaria se apresentar. Precavidos, os quemeros mandaram funcionários para buscá-lo em Bajo Belgrano no horário e permitiram que ele curtisse um pouco à mais, até uma hora da madrugada. Porém, quando concordou em partir ao hotel, o craque alegou que esquecera as chaves do carro em casa e que precisaria voltar para buscar, mas logo se juntaria à concentração. O que não aconteceu.

Apenas às 11 da manhã do dia seguinte é que Houseman apareceu no hotel, completamente bêbado. Ainda deu uma batidinha em seu carro ao estacionar, mas nada muito sério. “O que você queria? Tinha baile e eu adorava. Quando apareci, os dirigentes não queriam que eu jogasse, mas disse a eles: ‘Esperem, que tiro uma soneca e depois vemos’. Dormi duas horinhas. Tomei 200 xícaras de café e me deram 40 banhos de água fria, até que me recuperei, mas não de tudo”, relembrou, anos depois. Mesmo de porre, o ponta estava com a mira perfeita, anotando um golaço em Ubaldo Fillol. Saiu rindo pelo que acabara de aprontar e logo caiu no chão, pedindo substituição. Voltou aos vestiários para dormir e o River terminou vencendo por 2 a 1.

Participando de todos os amistosos preparatórios e das Eliminatórias, Houseman figurou na convocação final de Menotti para a Copa do Mundo de 1978. Segundo suas próprias palavras, não era um time tão talentoso quanto o de 1974, mas eram “melhores pessoas”. O treinador conseguiu fazer com que o senso coletivo imperasse, acima do individualismo anterior. E assim, a Argentina conseguiria triunfar no Mundial. Em uma preparação física mais restrita, El Loco sentiu o impacto em seu jogo, menos driblador e mais veloz. Não fez uma competição tão brilhante, embora tenha se mantido entre as opções principais do time. O camisa 9 foi titular em três partidas, perdendo espaço na reta final do torneio. Apesar disso, entrou no segundo tempo e marcou um dos gols nos 6 a 0 decisivos sobre o Peru. Já na final, também saindo do banco, participou da vitória por 3 a 1 sobre a Holanda, definida na prorrogação. Posteriormente, admitiria como ficou devendo naquele Mundial.

Houseman fez sua última aparição pela seleção em 1979, completando a expressiva marca de 55 jogos e 13 gols. Ainda jovem, sua carreira já começava a entrar em declínio. O álcool e a indisciplina começaram a interferir em seu rendimento, enquanto o Huracán sofreu um amplo desmanche na metade final dos anos 1970. Em 1981, aos 27 anos, encerrou sua história inquebrantável no Globo. Somou 266 partidas e 108 gols pelo Campeonato Argentino, em oito temporadas. Então, o ponta buscou uma mudança de ares e seguiu ao River Plate, onde não emplacou. Passaria depois pelo Colo-Colo e pelo sul-africano Amazulu, até assinar com o Independiente em 1984. Faz parte do elenco que conquistou a Copa Libertadores naquele ano, mas mal entrou em campo. Por fim, cumpriu um sonho na última etapa de sua carreira: defendeu o Excursionistas, que seguiu em seu coração mesmo depois de ser recusado. Aos 32 anos, após um único jogo pelos alviverdes, pendurou as chuteiras.

Apesar de tudo, Houseman continuou sendo considerado um dos jogadores mais talentosos da história do futebol argentino. O companheiro Carlos Babington dizia: “Para mim, que o vi de perto e desfrutei de milhares de treinamentos, René esteve à altura de Pelé e Maradona. Era um mágico, não repetia nunca. Sempre criava um drible novo”. Já Menotti costumava defini-lo como uma mescla entre Maradona e Garrincha. A vida pós-futebol do ponta, aliás, se aproxima à de Mané. Internado por 22 dias, superou o alcoolismo no início dos anos 1990, mas se tornou um fumante inveterado. E, diante das dificuldades financeiras, realizaram um amistoso beneficente para ajudá-lo em 2000.

Naquele 18 de junho, o Tomás Adolfo Ducó se encheu de fãs. E muitos companheiros estiveram em campo: Bochini, Bertoni, Fillol, Kempes, Larrosa, Carrascosa, Brindisi, Babington, entre outros. El Loco era ovacionado a cada vez que pegava na bola, enquanto os torcedores gritavam seu nome. Já no início do segundo tempo, aconteceu algo sublime. Um dos portões das tribunas se abriu e centenas de pessoas invadiram o campo para abraçá-lo. “O que mais se lembram deste jogo é o reconhecimento das pessoas, que não se esquecem do que cada um faz no futebol”, comentou o ponta, à El Gráfico.

Houseman se manteve em Bajo Belgrano, frequentando o estádio do Excursionistas, a quatro quarteirões de sua casa. Ganhava uma pensão paga aos antigos campeões mundiais e, por um tempo, recebeu um auxílio do Huracán. “Não me falta nada, porque conquistei tudo. Fui campeão do mundo, campeão com o Globo. Além do mais, tenho minha esposa e meus filhos, que me ajudam. Quero seguir sendo livre como os pássaros, como quando jogava. Sou feliz com as pessoas que me rodeiam. Não quero seguir sofrendo na vida como já me aconteceu. Sou um ser humano comum que pôde se destacar no que trabalhou, só isso”, definiu em 2001, ao La Nación, mesmo admitindo que a disciplina poderia ter garantido uma carreira mais consistente. Em 2014, veio ao Brasil, mas não para acompanhar a Copa do Mundo, e sim para comentar um campeonato de favelas.

Nos últimos meses, Houseman revelou a sua luta contra o câncer, doença que matou tanto seu pai quanto sua mãe. A própria AFA se prontificou a bancar o seu tratamento. E, apesar das dificuldades, El Loco não se distanciou do futebol. Sua última imagem em um estádio fica para sempre: em janeiro, mesmo debilitado, o antigo ídolo esperava sentado na calçada a abertura dos portões do Tomás Adolfo Ducó, para assistir ao jogo do Huracán contra o River Plate. Comemorou a vitória do Globo por 1 a 0. O idoso seguiria sua batalha por mais algumas semanas, até descansar nesta quinta. Seu nome continuará ecoando nas ruas de Parque Patrícios e de Bajo Belgrano para sempre. Aqueles gramados e aqueles campos de terra batida ainda estão rabiscados por sua arte inapagável. Um villero de coração, um varzeano convicto, um driblador por essência.

PS: Vale conferir também o material preparado pelo amigo Caio Brandão, no Futebol Portenho, que ajuda a complementar esta leitura.