Emiliano Mondonico pode nunca ter conquistado o Scudetto. Porém, quem acompanhou os seus trabalhos guarda o nome do treinador com carinho e respeito. O comandante brilhou nos anos áureos da Serie A. Foi capaz de protagonizar campanhas históricas à frente de times tradicionais e de cativar torcidas fanáticas. Atalanta e Torino, sobretudo, atravessaram épocas memoráveis sob as suas ordens. Era um apaixonado pelo futebol, que sabia conduzir as suas equipes, revelar talentos e cativar os torcedores. Uma referência que o Calcio infelizmente perdeu nesta quinta-feira, falecendo aos 71 anos, após idas e vindas em uma longa batalha contra o câncer.

Como jogador, Mondonico teve carreira modesta e personalidade rebelde. Até disputou a primeira divisão por Torino e Atalanta, coincidentemente – mas sem conseguir se estabelecer. O clube de sua vida como jogador foi a Cremonese, onde se profissionalizou e voltou para pendurar as chuteiras. Entre uma passagem e outra, acumulou quase uma década vestindo a camisa dos grigiorossi, entre a segundona e a terceirona. Ao final, a estadia no Estádio Giovanni Zini serviu para que o veterano começasse a trabalhar como técnico logo após a aposentadoria dos gramados, em 1979, aos 32 anos.

Depois de algum tempo nas equipes de base da Cremonese, Mondo assumiu o time principal em 1981. Primeiro, evitou o rebaixamento na Serie B. E não demorou a fazer história, contando com o talento do ascendente Gianluca Vialli. Em 1983/84, conquistou o acesso à Serie A, recolocando o clube na primeira divisão italiana depois de 54 anos. Não teve muito sucesso em sua primeira empreitada na elite, logo rebaixado, mesmo contando com os talentos internacionais de Wladyslaw Zmuda e Juary. Passaria mais um ano no Giovanni Zini, até se mudar em 1986 para o Como. À frente de uma equipe sem tantas pretensões, que perdeu jogadores importantes como Dirceu e Stefano Borgonovo, a nona colocação saiu de bom tamanho.

Já em 1987/88, Mondonico ganhou a primeira grande oportunidade da carreira. Dirigiria a Atalanta, um clube de peso e ambição, mas que havia sido rebaixada à Serie B. O treinador não apenas ajudou a Dea a retornar à primeira divisão, como também a levou às semifinais da Recopa Europeia. Vice-campeões da Copa da Itália no ano anterior, os nerazzurri caíram apenas diante do Mechelen de Michel Preud’Homme e Lei Clijsters, que acabaria com a taça. Já em 1988/89, o time do trio Evair, Glenn Peter Strömberg e Robert Prytz terminou em sexto na Serie A, suficiente para se classificar à Copa da Uefa. E na campanha seguinte, com Claudio Caniggia, ficaria na sétima colocação. Gerando repercussão, o técnico foi contratado em 1990 pelo Torino, que acabara de voltar à elite do Italiano.

No primeiro ano em Turim, Mondonico já botou o Toro nos trilhos, quinto colocado na Serie A. Viria ainda mais no ano seguinte, em esquadrão estrelado por Casagrande, Vincenzo Scifo, Rafael Martín Vázquez, Gianluca Lentini, Luca Marchegiani e outros grandes nomes. Os grenás terminaram em terceiro na Serie A 1991/92, atrás apenas de Milan e Juventus. Além disso, chegariam à final da Copa da Uefa, eliminando o Real Madrid na semifinal, mas sucumbindo ao Ajax na decisão. Por fim, a volta ao topo do pódio aconteceu em 1992/93, na Copa da Itália. Em decisão emocionante contra a Roma, os piemonteses levaram a melhor graças aos gols de Pato Aguilera e Andrea Silenzi. O clube conquistou sua quinta taça na competição.

Mondo passou mais uma temporada no Torino, com resultados não tão impactantes. A partir de então, sua carreira foi peregrina, resgatando seus times de coração à Serie A. Em 1995, levou a Atalanta de volta, chegando à final da Copa da Itália no ano seguinte – derrotado pela Fiorentina, após deixar a Juventus pelo meio do caminho. Continuaria em Bérgamo até 1998, ajudando Christian Vieri e Filippo Inzaghi a estourarem. Já em 1999, seria a vez de ascender com o próprio Torino, apesar da queda logo depois.

Trabalhou ainda no Napoli e no Cosenza, até ganhar uma oportunidade na Fiorentina, seu clube de infância. Eram momentos difíceis no Artemio Franchi, assumindo uma agremiação que meses antes enfrentara o processo falimentar. Pois o comandante chegou no meio da Serie B 2003/04 e cumpriu sua missão, apesar dos percalços. Em time capitaneado pelo ídolo Angelo Di Livio, a Viola ficou em sexto, mas se garantiu em uma repescagem contra o 15° da Serie A – por causa do aumento do número de clubes na elite. Superou o Perugia, assegurando o alívio aos torcedores em Florença.

Mondonico durou poucas rodadas com a Fiorentina na Serie A. Passaria depois por AlbinoLeffe e Cremonese nas divisões de acesso, além de ter uma curta passagem pelo Novara na Serie A. Encerrou a carreira à beira do campo em 2012, como o treinador que mais conquistou acessos à primeira divisão do Campeonato Italiano – cinco no total, por quatro clubes diferentes. Ainda assim, não se afastou totalmente do futebol, trabalhando como comentarista. Uma vida dedicada ao Calcio, que deixa diversas lembranças. Não à toa, seu falecimento rendeu homenagens de diversas personalidades e clubes, inclusive os que engrandeceu.