Argentina Brazil Soccer Copa Libertadores

Faltou sanidade na miraculosa classificação do San Lorenzo

O Nuevo Gasómetro recebia muito mais do que um duelo de times. Era um confronto de estigmas. San Lorenzo e Botafogo se encaravam por uma vaga nas oitavas de final da Libertadores. Carregavam consigo a carga negativa de anos, aquela velha pecha de clube azarado, que sempre serviu de deleite para os rivais. Ainda por cima, tinham que ficar de olho no jogo entre a classificada Unión Española e o Independiente del Valle, que corria por fora pela segunda colocação. O choque astrológico, no entanto, proporcionou uma noite memorável para o futebol sul-americano. Santiago foi o palco de um verdadeiro épico, enquanto Buenos Aires viu o seu grande mais humilhado contradizer todas as maldições.

Não foi difícil para que o San Lorenzo fizesse sua parte e vencesse o Botafogo. Embora tivessem a vantagem do empate, os cariocas não deram muitas mostras da capacidade para exercê-la. Como nas rodadas anteriores, a equipe de Eduardo Húngaro foi maçante, com pouquíssimas alternativas. O único suspiro no primeiro tempo foi em um chute de Wallyson, para fora. Mas se nem o talismã funcionava, os cuervos mostraram que Deus estava com o time do Papa. Súplicas atendidas quando Villalba abriu o placar aos 28 minutos do segundo tempo, em um chute desviado que matou Jefferson. E os portenhos continuaram sendo mais time até o intervalo, prontos para ampliarem a diferença.

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Enquanto isso, o primeiro tempo em Santiago manteve a sanidade de quem estava no Estádio Santa Laura. Embora já garantido na próxima fase, a Unión Española se interessava pela vitória para ter a primeira colocação garantida. Já o Independiente del Valle dependia da vitória, de preferência fazendo bom saldo. Matías Campos Toro abriu o placar para os chilenos, enquanto os equatorianos igualaram com Daniel Ângulo. Tudo normal para um jogo tenso.

Voltemos para Buenos Aires. O San Lorenzo fazia sua parte ao abrir dois gols de vantagem sobre o Botafogo. Aos oito minutos, Ignacio Piatti resolveu honrar seu rótulo de craque do time e anotou o segundo gol com um chute de fora da área. Os botafoguenses, que sonhavam em ser o terceiro brasileiro alvinegro seguido a conquistar um título inédito na Libertadores, viam seu caminho ruir. Não havia mais Seedorf, Oswaldo de Oliveira. Apenas a cansativa rotina de cruzamentos de Jorge Wagner, as bolas alçadas para Ferreyra, as esperanças de lampejo de Wallyson, os bombardeios contra Jefferson. Era a decepção, que tinha se revertido no Brasileiro de 2013 e na pré-Libertadores, voltando a abater General Severiano.

O problema é que, cinco minutos depois do gol de Piatti, os 2 a 0 para o San Lorenzo já não eram suficientes graças a uma reviravolta gigantesca no Chile. Angulo completou sua tripleta em Santiago e virou o placar para o Independiente Del Valle, 3 a 1. No saldo de gols, os equatorianos avançariam. Aos portenhos, era fazer mais dois gols ou torcer pela reação de um time já classificado. E o que parecia mais improvável aconteceu. Em um intervalo de 15 minutos, três gols da Unión e nova virada no Estádio Santa Laura, 4 a 3. Campos Toro e Gustavo Canales fizeram à favor, enquanto Luis Fernando León marcou um gol contra dos mais ridículos, digno de Didi Mocó e Dedé Santana, ao furar um chutão e ver a bola entrar mansamente após bater em sua perna cravada no chão.

Com o placar favorável à Unión Española, o San Lorenzo voltava a se classificar. Mas o glória e o aleluia logo se transformaram em blasfêmias. Minutos depois, Junior Sornoza deu sua terceira assistência para o quarto gol de Angulo, enquanto ele mesmo se encarregou de marcar o quinto, de pênalti. Aos 33 do segundo tempo, o Independiente del Valle ficava com a vaga com o triunfo por 5 a 4 e mandava os cuervos ao purgatório. Para chegarem ao céu, só marcando mais um gol contra o Botafogo ou torcendo pelo empate dos chilenos. Sem isso, iriam ao inferno.

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Porém, os hinchas do San Lorenzo mantinham uma fé cega. “Se o Papa é por nós,quem será contra nós”, deviam pensar. E as preces de Francisco, direto do Vaticano, foram ouvidas na conexão direto. Matos perdeu um gol depois de passar por Jefferson com a meta vazia. Uma provação para o tento salvador, de Piatti, aos 43 minutos do segundo tempo. Com os 3 a 0 no marcador do Nuevo Gasómetro, os argentinos passavam de fase com os mesmos oito pontos do Independiente del Valle, mas um tento a mais no saldo. O esforço hercúleo dos equatorianos tinha sido em vão. Já a Unión Española ficava com o primeiro lugar somando nove pontos, só dois a mais que o lanterna Botafogo.

Dentre os clubes que nunca conquistaram a Libertadores, o San Lorenzo é quem mais parece apto a quebrar o tabu. Os cuervos não estão em boa fase e o sufoco para avançar deixa claro isso. Mas depois do impossível ocorrido nesta noite, é bom não duvidar. Enquanto isso, o Botafogo volta ao Rio de Janeiro com uma derrota que já parecia assimilada depois do vexame no Maracanã contra a Unión Española na rodada anterior. Terá alguns dias para se recompor para o Brasileirão e repensar seus rumos. Desta vez, ao menos, com a certeza de que terá que lidar apenas com seus problemas e, para quem acredita nas forças superiores, em sua própria sina.

Abaixo, vale conferir os nove gols do épico no Chile: