Carlo Tavecchio é favorito para assumir a Federação Italiana de Futebol nas eleições de 11 de agosto contra o ex-jogador Demetrio Albertini, mas, se realmente for confirmado no cargo, começa seu mandato sem credibilidade de atacar um dos principais problemas do futebol italiano nos últimos anos: os recorrentes e cada vez mais tenebrosos casos de racismo, que parecem ter ficado mais frequentes na última temporada.

Tavecchio falava sobre as diferenças entre o futebol inglês e o italiano, em uma assembleia com as ligas amadoras, quando disse que a Itália deveria restringir a entrada de jogadores que não tenham nacionalidade europeia. Tudo bem, questão de opinião, caso o discurso tivesse parado por aí. “Na Inglaterra, eles identificam os jogadores que chegam, se são profissionais, podem jogar. Aqui, temos Opti Pobà, que antes comia bananas e agora é titular da Lazio. Na Inglaterra, você precisa demonstrar currículo e pedigree”, disse.

Opti Pobà, naturalmente, não existe. Foi apenas o nome utilizado por Tavecchio para ilustrar a ideia que ele tem de um jogador sem pedigre e que come bananas. Depois, confrontado, disse que não lembrava exatamente as palavras que havia utilizado e pediu desculpas se ofendeu alguém. Garantiu que quis apenas reforçar a importância de conhecer os feitos de um jogador que vem “da África ou de outros países” antes de contratá-lo.

Sempre louvável um pedido desculpas, mas seria mais eficiente se Tavecchio ao menos assumisse o erro e prometesse nunca mais repeti-lo. Porque ele precisa reconhecer o problema pelo qual a Itália passa. Recentemente, Kevin Constant, Kevin-Prince Boateng e Mario Balotelli sofreram ofensas racistas. De acordo com o Observatório de Racismo e Anti-Racismo no Futebol da Itália, houve 282 casos de discriminação racial no futebol do país entre 2007 e 2013 e 660 desde 2000.

Cécile Kyenge, como ministra da Integração, foi a primeira negra assumir uma posição tão alta no governo italiano. Hoje no Parlamento Europeu, a descendente de congoleses recriminou as declarações de Tavecchio. “Seria bom que ele lembrasse as palavras que usa, especialmente por ser uma pessoa que ocupa cargos importantes em instituições, cujas palavras carregam peso e consequências. É triste, parece que ele perdeu a noção do que queria dizer, a habilidade de analisar o que está dizendo e o efeito que certas frases podem causar”, afirmou.

Davide Faraone, do mesmo partido de centro-esquerda de Kyenge, foi mais categórico: “Tavecchio não pode ser presidente da FIGC. Várias arquibancadas foram fechadas por palavras similares. Ele não teria nenhuma credibilidade”. Outro crítico foi Damiano Tommasi, presidente da Associação de Jogadores Italianos. “Eu estou recebendo várias ligações e protestos de jogadores italianos e estrangeiros que estão espantados com isso”, contou.

As reações às palavras de Tavecchio são um bom sinal de que a Itália percebeu o problema do racismo que tem em suas entranhas, mas, como outras federações, as eleições para presidente da FIGC não representam necessariamente esse sentimento. São entidades fechadas. Se ele for mesmo o próximo presidente, como vai atacar um pensamento do qual parece compartilhar?