Marcar três gols numa mesma partida, com uma assistência de lambuja no final, é para poucos. Marcar três gols num intervalo de míseros nove minutos, então, para mais seletos ainda. E a lista de divagações aumenta exponencialmente quando se pensa que isso aconteceu com um garoto de 17 anos. Um menino da Vila, na própria Vila Belmiro, vestindo a camisa do Santos. Rodrygo, de fato, mostra ser um desses garotos raros. Se o começo de ano desagrada os santistas, o talento latente do adolescente serve para aquecer o peito. Já tinha sido assim em aparições na Libertadores, foi de novo nos 5 a 2 sobre o Vitória. Mas há um momento em particular que merece menção: o corte. O drible seco que resultou no segundo tento. Daqueles lances que se impregnam na memória.

Os outros dois gols de Rodrygo dependeram de seu oportunismo. Aproveitou uma sobra de bola na área em um, avançou em velocidade no outro. Porém, o segundo é daqueles tentos com assinatura. Que deixam a marca quando alguém for lembrar desta atuação, principalmente se o prodígio conseguir cumprir no futuro o que promete no presente. ” Sabe aquele jogo que o Rodrygo acabou com o Vitória, três gols em nove minutos?”, poderá dizer uma testemunha. Ao que ouvirá: “Claro, aquele que deixou o marcador sem rumo, eu pra cá e você pra lá, antes de marcar”. Serão lembranças indissociáveis aos santistas.

Poderia ser assim com outro lance, o domínio deslumbrante e a finta seca que terminaram com um chute por cima do travessão contra o Estudiantes. Mas a magia das redes balançando garante outro tom, ainda mais quanto elas estufaram uma vez antes ou outra depois. Dá para dizer até que o golaço ganha ares de premonição.

Há muito para Rodrygo evoluir. Mesmo nas últimas partidas, dentro das limitações do Santos, ele não conseguir desequilibrar tanto assim. Só que a empolgação por tudo o que envolveu a tarde na Vila Belmiro se torna inerente. Os santistas mais jovens certamente vão se lembrar de um lance de Neymar ou de Robinho, ou até de alguém que encantou sem se tornar o que se previa, como Ganso. De qualquer forma, há um talento bruto ali, inegavelmente.

Olhando de longe, o corte de Rodrygo nem parece dos lances mais excepcionais. No entanto, depende de habilidade. Depende de uma capacidade diferente para quebrar o ritmo e mudar a direção. Afinal, quantas vezes se vê uma finta dessas render um golaço assim? Deixar um marcador tão perdido, como aconteceu com Lucas? O tempero está aí. E acaba tornando mais especial a tarde em que o menino reverenciou as arquibancadas da Vila Belmiro, para ser reverenciado em sua saída de campo.

Existe um caminho a se percorrer. E a inconsistência do Santos exige um pouco mais. Mas se há esperanças, elas estão em Rodrygo e tudo o que já proporcionou nestes poucos meses como profissional. São “só” três gols em nove minutos. É “só” um drible seco e humilhante no marcador. Que, no entanto, provocam a pensar além.