Há momentos da vida que só a fé parece ter uma explicação. Por mais que você não tenha crença alguma, é difícil conceber que aquilo aconteceu por mero acaso, mera coincidência. E a campanha do San Lorenzo na Copa Libertadores já toma estes contornos, ainda mais sabendo que o Papa Francisco é torcedor fanáticos dos cuervos. A classificação às quartas de final, contra o Grêmio, veio por méritos dos argentinos, é claro, com o triunfo nos pênaltis depois da derrota no tempo normal. Porém, foram tantos momentos em que os portenhos ficaram a um triz que supor uma ajudinha divina é até natural.

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O Grêmio foi superior durante os 90 minutos em Porto Alegre. A partida foi um tanto quanto amarrada, como havia acontecido no duelo no Nuevo Gasómetro. Entretanto, os tricolores já tinham sofrido a derrota por 1 a 0, com o gol “místico” de Ángel Correa, o que tornava a necessidade da vitória irremediável. E por isso mesmo buscavam muito mais o gol, contra um adversário satisfeito com o empate. Fazendo jus à braçadeira de capitão, Barcos chamava a responsabilidade. Mas os pequenos milagres iam safando o San Lorenzo.

Primeiro, um lance inacreditável de Buffarini. O pirata encobriu o goleiro Torrico, mas o defensor apareceu em cima da linha para tirar o gol certo do Grêmio. E o incrível ia se sucedendo aos poucos, na medida em que o relógio ia pressionando os gaúchos. Uma bola na trave, três defesas essenciais do arqueiro argentino – que, por ser o herói no título do Torneio Inicial, teve suas luvas abençoadas pelo Papa. Os portenhos viviam as suas provações, mas seguiam se safando.

Não queria dizer, no entanto, que a sorte (ou como você quiser chamar) estava apenas do lado do San Lorenzo. O time argentino teve um contra-ataque claro, mas se enrolou nas próprias pernas. Os gremistas tentavam ser agressivos no ataque, só que também se expunham às investidas dos cuervos, que não aproveitavam. A crença tricolor já se esvaia, com o time cada vez mais apático em campo. Até que a torcida fosse agraciada com um gol aos 38 minutos do segundo tempo. Rodriguinho encheu o pé no chute cruzado, que ia para fora. Dudu colocou a cabeça e escorou para as redes. Nem as mãos bentas de Torrico salvariam.

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O gol já satisfazia o Grêmio. Dava a sobrevida que a equipe buscava, embora a classificação direta só viesse com mais um gol. O placar de 1 a 0 levava a decisão para os pênaltis. E não era bom se arriscar contra as orações do San Lorenzo em um momento de aflição. Não deu. Foram poucos os lances de perigo até o apito final. Os gaúchos teriam que enfrentar Torrico e a intercessão de Francisco na marca da cal.

As luvas abençoadas irão ficar no imaginário. Mas o goleiro do San Lorenzo teve méritos totais nas cobranças. Foi buscar os chutes de Barcos e, principalmente, de Maxi Rodríguez, que ainda tocou no travessão e saiu. Enquanto isso, foram dois chutes dos cuervos que resvalaram na trave e acabaram entrando. As preces tricolores foram em vão, vitória dos argentinos por 4 a 2. O time que sofreu apenas dois gols em oito jogos da Libertadores estava eliminado. Depois de cair para os cruzados da Universidad Católica em 2012 e os cardinales do Independiente Santa Fe em 2013, perder para os papáveis de Boedo não surpreendeu.

Nas quartas de final, o San Lorenzo terá pela frente o Cruzeiro. Um adversário que já pareceu morto por duas vezes nesta Libertadores, mas que conseguiu ressuscitar em ambas. Outro rival de peso para tentar impedir o título continental inédito dos cuervos, tão sonhado por sua torcida. No duelo entre dois times que vem fazendo o impossível, qualquer palpite é arriscado. A classificação será uma questão de fé de seus torcedores.