Cena rápida. Julho de 1975, sede da Confederação Brasileira de Desportos, no Rio de Janeiro. A Associação Brasileira de Treinadores de Futebol era criada em um evento que contou com a presença de nomes importantes da época como Otto Glória, Oswaldo Brandão e Mario Travaglini, além de veteranos como Flávio Costa, o primeiro presidente da entidade. Corta para agosto de 2013. Em São Paulo, Luiz Felipe Scolari, Oswaldo de Oliveira, Vágner Mancini e outros profissionais importantes da área fundaram a Federação Brasileira dos Treinadores de Futebol. O veterano Zé Mário foi escolhido para a presidência.

A ABTF foi a primeira tentativa de unir os treinadores brasileiros para melhorar as condições da profissão. E não deu certo. Para começar, porque ninguém prestou atenção nela nem na época da fundação. A primeira menção na Folha de S. Paulo foi em 24 de julho daquele ano, em uma reportagem sobre Oswaldo Brandão, que participaria de uma reunião da entidade na Federação Paulista de Futebol e depois acertaria detalhes da viagem da seleção brasileira, que ele treinava, para um amistoso contra a Venezuela em Caracas.

A associação ainda existe, mas sua principal vitória é uma lei nacional de 1993 – 18 anos depois da criação – assinada pelo presidente Itamar Franco, que regularizou a profissão no Brasil. O site está no ar e mostra apenas dois associados: os cariocas Jorge Vieira, que não treina ninguém desde 2000, e Carlos Alberto Silva, aposentado desde 2005.

A Federação de Treinadores está ciente que não pode se tornar irrelevante que nem a sua predecessora. Foi justamente por isso que os idealizadores preferiram uma federação à uma associação. Os treinadores filiam-se aos sindicatos, que se filiam à FBTF, aumentando a força política e a representatividade. Eles também querem estar presentes em órgãos como o STJD e o Conselho Nacional de Esportes. ”É uma ótima iniciativa, um caminho válido para que possamos discutir o que precisa ser feito para melhorar o nosso futebol”, diz Tite, ex-técnico do Corinthians. “Precisamos participar dessa discussão.”

A regulamentação válida até hoje para a profissão ainda é a lei de 1993. Ela deu alguma regularização para a profissão, mas 85% dos técnicos brasileiros ainda trabalham sem contratos assinados. Um problema que a federação pretende atacar. A FBTF também pretende trazer cursos, inspirados na Uefa, para capacitar os profissionais daqui. Fornecer uma qualificação específica para que não haja a impressão que qualquer um pode ser treinador de futebol, principalmente ex-jogadores que se aventuram com a prancheta na mão sem a formação necessária. “Acho que a partir do momento em que tudo estiver organizado, com cursos, a tendência é que diminua um pouco o número de técnicos. A dificuldade será maior e ficarão mesmo os que são do ramo”, afirma Wagner Mancini.

Vágner Mancini é uma das vozes mais influentes dentro da FBTF

Vágner Mancini é uma das vozes mais influentes dentro da FBTF

Para atingir esses objetivos, a FBTF testa sua força política.

Em dezembro, um projeto-lei foi enviado para Brasília para a avaliação do ministro do Trabalho, Manoel Dias. A ideia é que um treinador demitido receba o combinado até o fim do contrato e seja impedido de trabalhar em outro time da mesma divisão. Com isso, a entidade espera reduzir a dança das cadeiras dos treinadores.

“Eu acho que sempre vai existir. É uma cultura do nosso futebol”, pondera um pessimista Vágner Mancini. “Ele tem que ser vitorioso, senão vai ser mandado embora. A partir do momento em que estamos falando da profissionalização dos treinadores, da classe dos atletas, por meio do Bom Senso, precisamos também rever a classe dos dirigentes. A maioria é despreparada para ocupar esses cargos, e são os que geralmente demitem e contratam os treinadores. A partir de profissionais nessa área, a tendência é que os técnicos fiquem mais tempo”.

Aos 65 anos, Geninho é o treinador mais velho dos clubes da primeira divisão. Não está tão envolvido com a federação, mas também deu alguns pitacos, e acredita que é importante que a entidade saiba equilibrar bem as coisas.

“Ele andaram pedindo opiniões, eu participei de algumas reuniões. Acho que precisa ser mão dupla. Benefícios para o clube e para o técnico. Não pode jogar a obrigação somente para cima do clube”, diz o veterano. “Por exemplo: querem exigir um contrato em que o clube tenha a obrigação de pagar até o fim, então extingue-se a multa, que é hoje uma grande arma do treinador”.

A Federação dos Treinadores surgiu antes mesmo do Bom Senso FC, grupo de jogadores que tenta, por enquanto, melhorar o calendário e obrigar os clubes a terem pelo menos um pouco de responsabilidade financeira. Já houve conversas entre as duas entidades e haverá outras para, a passos de formiga, o futebol brasileiro evoluir dentro e fora do gramado. “Temos que unir forças. O Bom Senso tem ideias maravilhosas, como a federação dos técnicos e outras instituições. Está na hora de darmos as mãos e melhorarmos o nosso futebol”, comenta Mancini.