Um jogador de futebol morre duas vezes: quando encerra a carreira e quando, bem, morre mesmo. A frase é creditada a Paulo Roberto Falcão, uma metáfora do Rei de Roma para sintetizar os problemas pelos quais um atleta profissional passa quando abandona o glamour, atenção e atividade física intensa para relaxar com a família, muitas vezes antes mesmo dos 40 anos. A FIFPro, federação internacional dos futebolistas, não ficou satisfeita com uma mera figura de linguagem e conduziu um estudo específico para ter uma ideia dos efeitos da aposentadoria.

A pesquisa foi realizada pelo chefe de medicina da entidade Vincent Gouttebarge, que entrevistou 180 jogadores em atividade (60% passou a maior parte da carreira na elite da sua liga nacional) e 121 aposentados (65% jogaram bastante tempo na primeira divisão). Pelas minhas contas, 301 no total, de seis países: Holanda, Escócia, República da Irlanda, Estados Unidos, Austrália e Nova Zelândia.

A amostragem não é muito ampla, e a seleção de nações poderia ser mais heterogênea, mas já dá para ter uma ideia. Depois da aposentadoria, aumenta o número de jogadores deprimidos, ansiosos, exaustos (física e mentalmente), fumantes, com problemas com álcool, nutricionais e de baixa auto-estima. A seguir, os números. A primeira porcentagem é de jogadores em atividade. A segunda, de aposentados.

Depressão/crise de ansiedade: 26% – 39%
Problemas com álcool: 19% – 32%
Baixa auto-estima: 3% – 5%
Fumantes: 7% – 12%
Problemas nutricionais: 26% – 42%
Exaustão (física e mental): 5% – 15%

“Ao contrário do que o senso comum acredita, há lados ruins na carreira do jogador de futebol”, afirmou Gouttebarge. “Quando o jogador para com a atividade física intensa, ele perde a vida estruturada, o apoio social dos treinadores e colegas diminui, eles precisam encontrar um lugar ‘normal’ na sociedade e achar outra ocupação. Consequentemente, são mais suscetíveis a problemas de saúde mentais durante esse período”.

Foram levados em conta fatores como lesões ao longo da carreira, problemas pessoais e de relacionamento com colegas e treinadores. Por exemplo, dos 180 jogadores em atividade, 174 sofreram lesões relevantes, sendo 31% relacionadas ao joelho e 12% ao tornozelo, e 17% machucaram-se três ou mais vezes.

“Quando falamos de problemas de saúde, físicos ou mentais, a curto ou longo prazo, o mínimo que podemos fazer é aumentar a consciência dos jogadores a respeito desses problemas. Eles precisam saber o que pode acontecer durante e depois da carreira. Os acionistas do futebol têm a responsabilidade de remover o estigma associado a problemas psicológicos”, encerrou o médico.