Uma das questões que se levanta quando se fala em futebol de seleções é como a Inglaterra não conseguiu ter sucesso, mesmo tendo um time recheado de estrelas nos anos 2000. A chamada geração de ouro foi no máximo até as quartas de final das grandes competições. Rio Ferdinand, Frank Lampard e Steven Gerrard, atualmente comentaristas, levantaram uma questão importante que atrapalhou o time na época: a intensa rivalidade entre eles na Premier League.

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Os três jogadores, que faziam parte do time, admitiram que jogar pela Inglaterra não os separava das disputas acirradas que aconteciam na liga local. Ferdinand e Lampard revelaram terem sido grandes amigos nas categorias de base do West Ham, mas deixaram de se falar quando o zagueiro foi para o Manchester United e o meia para o Chelsea.

Além de Ferdinand e Lampard, Gerrard participou de um programa na BT Sport e os três falaram sobre os problemas a seleção inglesa na época que o time inglês parecia ter jogadores para brigar no mais alto nível.

“Nós subimos das categorias de base no West Ham juntos, fazíamos tudo juntos, como amigos”, afirmou Ferdinand sobre o relacionamento com Lampard. “Eu saí e fui para o Leeds, depois Manchester United, Frank foi para o Chelsea e nessa época a nossa comunicação apenas desintegrou”, contou. “Isso foi, da minha perspectiva, pela obsessão por vencer. Eu não queria ver Frank ter vantagem sobre mim”.

“Era o mesmo com Stevie e a Inglaterra, quando nós estávamos batalhando com eles [Liverpool] pela Premier League, eu não queria sentar perto dele, ou tomar uma cerveja com ele, porque eu não queria ouvir o que o Liverpool estava fazendo… Eu acho que isso nos impediu de ir mais longe”, continuou.

Lampard concordou com Ferdinand ao dizer que era difícil ir de uma competição intensa no nível de clube para se entrosar com os mesmos jogadores na seleção. “Você sente tão apaixonadamente em relação ao clube que você joga com seus companheiros, seu próprio desempenho e ser companheiro de alguém com quem você é tão competitivo… Isso pode ter acontecido”, afirmou Lampard, com 106 jogos pela seleção inglesa. “Nós não nos odiávamos, mas por natureza, nós sentávamos em mesas diferentes”.

Lampard ainda comparou a situação inglesa com a de outras grandes seleções do mundo, que têm seus jogadores mais espalhados por outras ligas. “Muitas outras nações têm seus jogadores atuando por todo o mundo e então eles se juntam e eles não têm essa competição – toda semana estamos um contra o outro”, afirmou ainda o ex-jogador do Chelsea.

“Eu acho que era mais um relacionamento respeitoso na Inglaterra, em vez de uma proximidade onde havia amor lá”, adicionou ainda Gerrard. “[Philippe] Coutinho mal pode esperar para ir jogar pelo Brasil, são os melhores 10 dias da temporada deles. Mas você havia esse sentimento com a Inglaterra”, explicou o ex-jogador do Liverpool.

“Nós temos que melhorar o entrosamento, a união e a proximidade e acho que Gareth (Southgate] está tentando fazer isso e eu acho que irá ajudar nos resultados no campo”, continuou Gerrard.

A Inglaterra é uma das poucas grandes seleções do mundo que tem todos os seus jogadores convocados da liga local. Por ser a liga mais rica do mundo atualmente – e já nos anos 2000 esse cenário acontecia -, é raro ver uma estrela inglesa atuando fora do país. A exceção foi mesmo David Beckham, que deixou o Manchester United em 2003 para jogar pelo Real Madrid, onde ficou até 2007.

Falta de um técnico capaz também atrapalhou

Uma questão que sempre se falou sobre a Inglaterra também foi a falta de um técnico de ponta, capaz de armar um time que usasse todo o talento individual que o time tinha. Para Ferdinand, Lampard e Gerrard, faltou também um profissional capaz de fazer esse trabalho e encontrar soluções.

“Eu não acho que tivemos um técnico corajoso o suficiente para resolver o nosso meio-campo”, afirmou Ferdinand. “No papel, tínhamos os melhores meio-campistas do mundo na época: Lampard, Gerrard, [Paul] Scholes, [David] Beckham, [Owen] Hargreaves, [Michael] Carrick… E nós jogávamos em um rígido 4-4-2”.

“Quando você tem os melhores jogadores do mundo, você tenta colocá-los em um time, seja em diamante… Você os coloca para jogar”, continuou Ferdinand. “Você vê Espanha e Alemanha. Eles [meio-campistas ingleses] teriam se encaixado nesses times porque eles iriam garantir que seus melhores e mais criativos jogadores estivessem em campo”.

“Eu não acho que nós tivemos um técnico com a filosofia que funcionou”, opinou Gerrard. “Nós jogávamos muito individualmente e eu não sentia que nós éramos parte de um time que jogava de um certo modo e assim foi coo ficamos emperrados com um certo técnico”.

O melhor desempenho da Inglaterra da chamada geração de ouro foi chegar às quartas de final na Copa de 2002, na Eurocopa 2004 e na Copa do Mundo de 2006, todas sob o comando do sueco Sven-Goran Eriksson. Ficou fora da Eurocopa em 2008, sob a batuta de Steve McClaren. Em 2010, o time caiu nas oitavas de final, já sob o comando de Capello. Depois disso, algumas das principais estrelas, já envelhecidas, acabaram deixando a seleção.