SALVADOR - Os responsáveis pela festa em Salvador, nesses primeiros dias de Copa do Mundo, têm sido os holandeses. Não economizam na cerveja, nem às dez horas da manhã, cantam o hino nacional como se fossem uma única voz. Levam bandeiras, fantasiam-se, dançam e se divertem. Enquanto isso, os espanhóis assistem à festa laranja do lado de fora, com um aparente ar de inveja, querendo brincar daquele jeito, mas sem saber exatamente como. Retrata o clima da capital baiana, mas também serve como uma metáfora para a situação econômica dos dois países.

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Desde as primeiras horas desta sexta-feira, os holandeses começaram a comparecer à festa preparada pelo consulado deles, no Terreiro de Jesus. Havia meia dúzia de espanhóis. Muitos passavam ao lado da praça e continuavam em frente, em busca de um café ou de uma torrada para passar manteiga. A anfitriã era a Holanda, e seria natural que este evento específico recebesse mais holandeses, mas a superioridade laranja também é visível ao redor da capital baiana e, afinal de contas, os espanhóis foram convidados. “Tenho certeza que eles estarão na festa que faremos no Terreiro de Jesus”, disse Egbert Bloemsma, cônsul da Holanda. “Não temos a organização deles para fazer uma festa dessas”, acrescenta vice-cônsul da Espanha, na Bahia, Juan Manuel Caserza.

Também está faltando dinheiro. A Espanha ainda não se recuperou da crise econômica de 2008, depois do estouro da bolha imobiliária americana e da falência de bancos financeiros. O índice de desemprego bate na casa dos 25%, o que significa que a cada quatro espanhóis, um não tem renda fixa para fazer supermercado ou comprar roupa de frio. Imagina para pegar um avião, atravessar o Atlântico e ficar uma semana em Salvador. “Tem poucos (espanhóis) mesmo. Nós não temos dinheiro. Os holandeses têm”, resume Carlo, professor de 47 anos.

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A Holanda tem a quinta maior economia da zona do Euro e o quinto PIB per capita mais alto da Europa, excluindo San Marino, que é praticamente uma cidade no meio da Itália. Ano passado, em março, influenciada pela má fase da União Europeia, bateu 8,1% de desemprego, um recorde histórico para o país. Ainda assim, muito menor que a taxa espanhola. “Eu fui ao Mundial da Alemanha (em 2006) e havia muitos espanhóis”, afirma o advogado Francisco Xavier, de 45 anos, residente do Rio de Janeiro. “É difícil ficar aqui uma, duas semanas, com hospedagem, alimentação, viagens”.

A integração das torcidas em Salvador (Foto: Bruno Bonsanti)

A integração das torcidas em Salvador (Foto: Bruno Bonsanti)

Aos poucos, à medida que o meio-dia se aproximava, mais espanhóis foram chegando ao centro histórico de Salvador. Mas muitos poucos ousaram se juntar à festa holandesa, cada vez maior. Apesar de não haver uma rivalidade entre torcedores de seleção tão grande quanto há com os clubes, não deve ser o programa favorito de um espanhol cantar o hino holandês em alto e bom som. Alguns não se importaram, como Augustín, madrileno de 46 anos, que atraiu os olhares de estrangeiros e brasileiros ao executar passos bem razoáveis de samba. “Eu fui ao Rio de Janeiro e aprendi, olhando mesmo”, explica. “A festa é para todo mundo”.

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A economia espanhola está melhorando. Semana passada, o Banco Central Europeu anunciou um empréstimo de € 400 bilhões de euros aos bancos do país, com o objetivo de que esse dinheiro seja repassado a famílias e empresas. Depois do anúncio da medida, a bolsa de Madrid passou dos 11 mil pontos pela primeira vez desde abril de 2010. São passos estáveis, em frente, mas de formiga e ainda não estão gerando empregos. “O principal problema é a falta de crédito”, emenda Xavier. “Os pequenos empreendedores precisam criar empregos, girar a economia. Tudo uma questão de confiança”.

O técnico de informática Nacho Toledo, de 30 anos, também vê a economia da Espanha melhorando, daqui a “um ou dois anos”, espera que tudo esteja melhor, mas bem que queria se divertir um pouco em Salvador. “Estou procurando a festa da Espanha, mas não a encontro”, diz. É que ela ainda não começou, Nacho. Tente novamente daqui a um ou dois anos.

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