Enfim, acabou o “agora vai”. Se há algo que o Feyenoord pode comemorar nesta fase de preparação rumo à temporada 2017/18, é o fato de não restarem mais dúvidas sobre sua capacidade: é o campeão holandês, não precisa mais se preocupar com quebra de tabu, a lua-de-mel com a torcida segue em alta, já se sabe que alguma qualidade a equipe possui. O que poderia haver é a desconfiança clássica que se segue a todo e qualquer time holandês que ganhe um mínimo de destaque: a janela de transferências o vitimou pesadamente? Pode até parecer que sim, mas a visão detalhada mostra que não.

VEJA TAMBÉM: De novo, PSV muda para tentar avançar

À primeira vista, de fato, houve perdas sensíveis. Para começo de conversa, apenas três dias depois do desafogo definitivo do título da Eredivisie, vinha a notícia (até previsível, aliás) do fim da carreira respeitável de Dirk Kuyt, talvez o jogador que mais simbolize o fim do calvário Feyenoorder. Depois, já em meio aos festejos, Eljero Elia anunciara seu desejo de deixar o clube – o que não se sabia era que, ao invés de tentar recomeçar em países mais prestigiosos do futebol europeu, Elia seria encantado pela chance de integrar o projeto promissor do Basaksehir, da Turquia (também na Liga dos Campeões, como vice do Campeonato Turco – mas jogando a terceira fase preliminar). Também era de sobejo conhecida a volta de Steven Berghuis, emprestado pelo Watford.

Finalmente, em poucos dias, o campeão holandês se viu privado dos dois laterais titulares. Ainda no final de junho, a Roma que já tirara Hector Moreno do PSV foi sedenta a Roterdã, com um único objetivo na cabeça: contratar Rick Karsdorp, para a lateral direita giallorossa. E conseguiu, por contrato de cinco anos e 14 milhões de euros – podendo chegar a 19 milhões, dependendo dos bônus, no que foi simplesmente a maior venda da história do Feyenoord.

Na semana posterior, em julho, o time voltava lentamente aos treinos. E numa manhã, a outra perda se consumou: Terence Kongolo participava dos trabalhos com os ainda colegas de clube no centro de treinamentos de Varkenoord, até que foi chamado para fora. Era o interesse do Monaco se concretizando numa oferta de 15 milhões de euros, por cinco anos de contrato. Oferta prontamente aceita, dando a Kongolo a chance merecida para atuar num time conhecido por prestigiar jovens – e para, quem sabe, torná-lo um nome mais frequente na seleção holandesa, após a convocação para a Copa de 2014.

VEJA TAMBÉM: Azar, incompetência e brigas: a ausência holandesa na Copa de 2002

Kuyt, Elia, Karsdorp, Kongolo… aparentemente, a porteira estava aberta. Mas era só aparentemente. Pois Giovanni van Bronckhorst já tratou de falar grosso, em declarações à revista “Voetbal International”. Primeiro, para acabar com a festa, no bom sentido: “Muito bonito ver a festa, os livros que serão sempre uma maravilhosa lembrança, mas eu literalmente os fechei. Acabou. Quando vestirmos a camiseta para os próximos jogos, ela terá o símbolo dourado do campeão holandês, ou o símbolo da Liga dos Campeões. A partir dessa semana, o título não conta mais”.

Depois, “Gio” também apregoou que o Feyenoord teria de se fechar para negociações: “Os preços oferecidos por Karsdorp e Kongolo foram ótimos, e me orgulho dos passos que deram. Além do mais, a saída deles abre espaço para outros jovens. Mas agora, estamos fortes e não precisamos vender mais ninguém. Claro que não se pode descartar completamente, porque nunca se sabe a grandeza do clube que deseja negociar. Mas se vier outra oferta, ela só deveria ser aceita se for mais um recorde para o clube”.

Dito e feito. Primeiro, todos os outros destaques voltaram a Varkenoord: Brad Jones, Eric Botteghin, Karim El Ahmadi, Tonny Vilhena, Jens Toornstra, Nicolai Jorgensen. Dois titulares, cujos contratos estavam no final, renovaram os compromissos: Toornstra assinou até 2021, e o zagueiro Jan-Arie van der Heijden, até 2020. E antes mesmo que esses problemas estivessem resolvidos, boas contratações já haviam começado. Se Elia deixou o Feyenoord, poucos reforços poderiam ser mais apropriados do que Jean-Paul Boëtius. Não bastasse jogar na esquerda, mesma posição de Elia, e ter estilo técnico parecido, ainda havia o fator da “volta do filho pródigo”: após dois anos de Basel (e um empréstimo ao Racing Genk), Boëtius voltou ao clube em que surgiu no futebol – até por isso, tendo carinho da torcida. Mais bons augúrios? A camisa 7 deixada por Kuyt ficou para o atacante – justamente quem a vestia até 2015, quando saiu do Feyenoord.

VEJA TAMBÉM: Abdelhak Nouri: quando tudo que um jogador prometia ser desaparece em um segundo

Mas havia as laterais. Problema que também foi resolvido com contratações elogiáveis, para o padrão técnico do Campeonato Holandês. Primeiro, a direita: sem espaço na Fiorentina, Kevin Diks foi novamente emprestado pelo clube italiano (já passara o returno da temporada passada cedido ao Vitesse, que o vendera à Viola). Com talento técnico, Diks tem até mais capacidade de marcação do que Karsdorp. Depois, o Feyenoord ainda disputou o promissor Derrick Luckassen com o PSV – e perdeu o jogador de 22 anos, que ofereceria versatilidade (Luckassen despontou no AZ, jogando na zaga e como volante).

Não era possível perder oportunidades na janela. E o Feyenoord deu o troco, trazendo nesta semana outros dois dos mais promissores jovens que a Eredivisie teve em 2016/17. De uma vez só, em contratos de cinco anos, vieram o zagueiro Jeremiah “Jerry” St. Juste, do Heerenveen, que se impôs na zaga do time da Frísia com apenas 20 anos, e outro que despontou no AZ: o lateral esquerdo Ridgeciano Haps, 24 anos, verdadeiro “turbo” nas jogadas de ataque da equipe de Alkmaar.

Tanto St. Juste quanto Haps já foram para a semana de pré-temporada na Áustria. Que tem sido tranquila. Nem mesmo a vindoura disputa de posição no gol entre Kenneth Vermeer, plenamente recuperado do rompimento no tendão de Aquiles, e Brad Jones causa problemas: reserva inicial em tese, Vermeer até comemora a “briga sadia” entre os dois arqueiros. De mais a mais, até agora, os resultados nos jogos-treino têm sido previsíveis (5 a 0 no amador Lisse, 10 a 1 no também amador SDC Putten, e amistosos contra Freiburg, neste sábado, e Real Sociedad, no próximo).

Cenário até invejável, diante da reformulação por que passa o PSV, com irregularidades nos amistosos de pré-temporada, e pelo lamentável trauma psicológico que tomará o Ajax neste princípio de temporada, após a fatalidade que colocou um ponto de interrogação na vida de Abdelhak Nouri. Se o Feyenoord perdeu jogadores importantes, os reforços foram precisos para manter o time num nível que permite, sim senhor, pensar em continuar disputando o topo na Holanda. E vai saber o que reserva o sorteio dos grupos da Liga dos Campeões…