Que o Feyenoord está ressurgindo já há alguns anos, restam poucas dúvidas. Afinal, da equipe que alcançou um dos pontos mais baixos em sua história ao perder por 10 a 0 para o PSV, no Campeonato Holandês da temporada 2010/11, só restam alguns jogadores. O espírito é outro: destemido, forte, aguerrido como a torcida gosta. Prova disso são as boas campanhas que ocorreram desde então, na Eredivisie: o vice-campeonato de 2011/12 e o terceiro lugar da temporada passada.

Até por não ter outros compromissos além do Campeonato Holandês (o PSV tinha a fase de grupos da Liga Europa, e o Ajax, a da Liga dos Campeões – e os Godenzonen ainda têm a Liga Europa), o Stadionclub era apontado por muitos como um eventual favorito para abocanhar o Campeonato Holandês, encerrando 15 anos de jejum. Por enquanto, mostra-se capaz de sonhar com isso: é o quarto colocado, com 36 pontos, um abaixo do Twente, em terceiro, e quatro atrás dos líderes Ajax e Vitesse.

Estar nas primeiras posições já não é mais o bastante para a equipe de Roterdã. Pelo discurso ostentado a partir da intertemporada, feita em Marbella, no litoral espanhol, o objetivo é afirmar-se definitivamente como favorito. É retomar o status de time grande que o Feyenoord sempre teve, pelo menos na Holanda. Foi o que disse o técnico Ronald Koeman: “Espero muito do time. Em parte, porque não precisamos temer ninguém, mas também porque eu notei um bom desenvolvimento nas últimas partidas antes da pausa de inverno”.

De fato, Koeman tem razão. O tradicional equilíbrio entre garra e técnica que fez com que o Feyenoord se reerguesse nos últimos anos parece ter alcançado o ponto perfeito. Na defesa, Erwin Mulder deixou as lesões para trás e atualmente, é dos melhores goleiros do Campeonato Holandês. De quebra, a linha de quatro defensores é praticamente a mesma transformada em titular da seleção por Louis van Gaal, com Janmaat na lateral direita, De Vrij na quarta-zaga e Bruno Martins Indi na esquerda. O jogador restante? Joris Mathijsen, que ainda sonha em participar de sua terceira Copa do Mundo.

No meio-campo, o fôlego de Tonny Trindade de Vilhena no meio-campo, para marcar e também chegar ao ataque, facilita a tarefa de Jordy Clasie, que tem de pensar as jogadas, na maioria das vezes. Lex Immers, por sua vez, dá mais força física e capacidade de finalização ao setor. No ataque, Jean-Paul Boëtius e Ruben Schaken trazem a rapidez pelas pontas, e a contratação do sueco Samuel Armenteros (de ascendência cubana, daí o nome) trouxe uma opção a mais para ser a referência do ataque.

E há… Graziano Pellè. Embora continue sem ser observado como uma possibilidade para a seleção italiana, e até siga sendo um atacante limitado (é um finalizador acima de tudo, não sendo daqueles que só marcam gols, mas também criam jogadas), Pellè ocupou em definitivo o lugar que parecia vago no coração da torcida após a saída de John Guidetti: a estrela, o símbolo da boa fase. A tal ponto que já tem um livro publicado na Holanda, “Pellè spreekt” (Pellè fala), no qual responde a perguntas feitas pelos fãs, enviadas à revista Voetbal International.

O exemplo mais importante de Pellè, no entanto, veio em campo, na 19ª rodada, domingo passado. Contra o Utrecht, o Feyenoord saiu atrás no placar, fora de casa. Ao invés de se apequenar, todavia, o time praticamente sufocou os Utregs em seus próprios domínios. Adiantaram a marcação e atacaram incessantemente. Resultado: já ao final dos 45 minutos iniciais, vencia por 3 a 2. E terminou o jogo estampando 5 a 2 no placar do De Galgenwaard – com direito a gol de chaleira de Pellè.

Mais do que o resultado, o modo como ele foi conseguido deu início a nova onda de declarações otimistas dos jogadores do Feyenoord. Afinal de contas, vencer o Utrecht era uma coisa, mas vencer o Klassieker contra o Ajax, na quarta, pelas quartas de final da Copa da Holanda, em Amsterdã, seria um grande feito, como reconhecia Clasie: “Depende de nós mostrarmos nosso jogo fora de casa. Queremos muito fazer isso, até porque estamos procurando um título para o Feyenoord”.

E é aí que mora o problema do Feyenoord: o respeito imposto ainda é muito mais da boca para fora. O clube já consegue boas posições, já voltou a participar de fases preliminares nas competições europeias, já é visto com mais respeito… mas falta ganhar algo realmente importante. Coisa que anda difícil. Até porque a Copa da Holanda já é coisa do passado: a equipe até fez jogo equilibrado, mas caiu para o time misto do Ajax, que fez 3 a 1.

Restou a Koeman dar explicações: “Eles tiveram 70 por cento da posse de bola, mas tiveram-na no campo de defesa. Nos contra-ataques fomos mais perigosos, e deveríamos ter marcado. Só que nós possibilitamos os lançamentos longos. Essa foi a diferença”. E resta ao Feyenoord continuar ganhando dos adversários menores – mas superar Ajax, Vitesse e Twente, seus concorrentes diretos, para concretizar o favoritismo que lhe é atribuído e ganhar respeito. Afinal, ninguém vai se tornar campeão de nada apenas na boca.