Bola alçada pelo ataque do Independiente. César saltou mais que todos e a segura, mas acabou desequilibrado por Réver (que havia sido empurrado) e caiu de cabeça no chão. A pancada tirou seus sentidos e, por alguns minutos, surgiu a dúvida sobre o que aconteceria. O Flamengo ainda tinha uma substituição na mão, mas teria de recorrer a Thiago, inexperiente e voltando de contusão. Por isso, muitos rubro-negros respiraram aliviados quando César levantou e disse que ficaria em campo. A questão é: ele deveria ter ficado?

Depois de semanas discutindo a situação do gol do Flamengo, é evidente que a torcida gostou de ver César indo para o sacrifício na final da Copa Sul-Americana. Assim como Réver e Tagliafico haviam feito no primeiro tempo do mesmo jogo, após baterem cabeça em uma disputa pelo alto (vídeo abaixo). Da mesma forma como o atacante Marinho, então no Vitória, voltou a campo e fez o gol de empate de sua equipe contra o Cruzeiro, mas deixou o Mineirão sem se lembrar do lance. E podíamos usar vários outros exemplos.

A Fifa já lançou diversas recomendações de como os árbitros precisam lidar com jogadas violentas em campo, sobretudo quando envolvem riscos de contusão grave às pernas dos atletas. Mas ainda é muito passiva em relação a choques de cabeça, lances que impressionam menos e nem sempre trazem prejuízo imediato ao jogador, mas podem ter consequências muito piores.

Uma pesquisa mostrou que, na Copa de 2014, dois terços dos impactos na cabeça não receberam cuidados médicos. Para piorar, os poucos cuidados que ocorreram foram inadequados. Dois desses casos foram bastante discutidos na época: o uruguaio Álvaro Pereira se negando a deixar o campo depois de perder os sentidos na partida contra a Inglaterra e o alemão Kramer declarando que não se lembra do primeiro tempo da final do Mundial após se chocar com o argentino Garay aos 14 minutos de jogo.

Por sorte, nenhum desses casos trouxe efeitos negativos imediatos aos jogadores. Mas o risco existe. Em 1990, o zagueiro Vágner Bacharel, ídolo do Palmeiras nos anos 80, morreu devido a lesões cerebrais causadas por uma cabeçada em uma partida do seu time, o Paraná, contra o Campo Mourão realizada dias antes. Nove anos depois, o zagueiro Régis, do Caxias, entrou em coma após receber um soco na cabeça do atacante Darzone, do Santo Ângelo. E, em 2006, Peter Cech que teve fratura de crânio após uma joelhada de Stephen Hunt em um Chelsea x Reading em 2006.

Esses três casos foram extremos e suas vítimas foram retiradas do campo imediatamente. Mas o problema nem são os casos menos chamativos, e a grande vilã dessa história é a encefalopatia traumática crônica. Trata-se de uma doença degenerativa do cérebro causada por golpes repetidos na cabeça. As pequenas pancadas causam microlesões, que se acumulam ao longo dos anos e levam o paciente a perda de capacidade cognitiva, alterações de comportamento e demência. É mais comum em ex-boxeadores, mas foi identificada em vários ex-jogadores de futebol americano que apresentaram esses sintomas antes de morrer nos últimos anos.

O problema da ETC é que ela não pode ser diagnosticada em vida, apenas com análise do cérebro da pessoa após sua morte. Por isso, não há como identificar seu desenvolvimento em cada indivíduo, apenas prevenir que atletas sofram impactos recorrentes na cabeça. O fato de ter, por anos, escondido dos atletas os riscos que eles sofriam na prática do esporte fez a NFL (liga de futebol americano) a sofrer um processo bilionário de ex-jogadores e familiares.

A chance de um jogador de futebol sofrer com isso é menor, pois os impactos são mais raros. Ainda assim, não se pode ignorar que jogadores chocam suas cabeças ou caem de forma violenta várias vezes em um jogo. Nos Estados Unidos, houve propostas para que crianças não pudessem cabecear a bola até uma determinada idade, evitando que os impactos causassem danos em cérebros ainda em formação.

Talvez a ideia dos norte-americanos seja radical, mas é preciso lembrar que ainda há pouca informação sobre a ETC. Por isso, é recomendável mais atenção nos impactos sabidamente fortes, como as pancadas sofridas por César, Réver, Tagliafico, Marinho, Kramer e Álvaro Pereira. Por exemplo, seguir protocolo de atendimento mais cuidadoso para verificar se há suspeita de concussão e, em caso positivo, proibir o atleta de voltar ao gramado.

A retirada compulsória não deve ser vista como algo radical. O jogador pode até querer voltar, é o normal dentro do espírito de competição de qualquer profissional, ainda mais se sua saída pode ser vista como fraqueza aos olhos de colegas, comissão técnica, torcida e imprensa. Mas ele não pode ter essa escolha, pois talvez não tenha informação suficiente para tomar uma decisão. O time ficaria com um jogador a menos? Bem, a Fifa pode criar uma substituição extra para esses casos. Mas, se não aprovar, paciência. Se o jogador tivesse sofrido uma distensão muscular, ele não ficaria. É uma lesão do mesmo jeito.

Mas como aplicar a medida é uma questão que a Fifa precisa ver com médicos. Ela pode trabalhar também na prevenção e incentivar o uso de protetores como os utilizados por Cech desde a joelhada de Hunt. O importante é que uma regra seja estabelecida e, principalmente, que sua aplicação seja levada com seriedade. Já há evidências suficientes para justificar qualquer ação, não precisamos esperar uma tragédia acontecer para isso.