A candidatura de Marrocos para sediar a Copa do Mundo de 2026 deveria ter permissão de concorrer com a candidatura tripla de Estados Unidos, México e Canadá, mesmo com todos os problemas apresentados até aqui. A opinião é de Reinhard Grindel, membro do Conselho da Fifa e presidente da DFB, a federação de futebol alemão, e vem depois da inspiração da entidade sobre a candidatura do país africano, que encontrou problemas.

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Marrocos é considerada azarão na disputa contra os norte-americanos para sediar a Copa de 2026. Será a primeira escolha de uma sede de Copa desde a polêmica reunião do agora extinto Comitê Executivo que deu as Copas de 2018 e 2022 para Rússia e Catar, respectivamente. A reunião aconteceu em dezembro de 2010 e os 22 membros que tinham poder de voto naquele dia já deixaram o poder. Muitos deles sob investigações, outros como réus e alguns como condenados.

Depois do furacão Fifagate que assolou a entidade que dirige o futebol mundial, foram feitas diversas mudanças nas exigências aos países que querem sediar a Copa do Mundo. Foram incluídos itens sobre direitos humanos, além de mudar as exigências com infraestrutura. Se antes a Fifa só queria que o país tivesse cheques em branco para gastar, agora exige que a infraestrutura esteja mais avançada, assim como os estádios. Novos estádios, grandes e inúteis, se tornaram um problema tanto na África do Sul quanto no Brasil. Possivelmente veremos o mesmo na Rússia e, mais ainda, no Catar.

A inspeção da Fifa sobre Marrocos terminou na última semana e ficaram diversas questões sobre infraestrutura. Nesta semana, os inspetores da Fifa voltaram ao país da África depois de encontrarem deficiências na candidatura do país. As inspeções resultaram em recomendações que o país precisará melhorar na sua proposta.

Um dos itens considerados um problema, como revelado na última semana, é que Marrocos pode não cumprir os requisitos de direitos humanos. O país não declarou na candidatura ter uma lei anti-LGBT, nem medidas para lidar com essa questão para a Copa do Mundo. “Esse processo envolve uma avaliação terceirizada da robustez do conteúdo de direitos humanas de ambas candidaturas que informará diretamente a própria avaliação da administração, afirmou Rachel Davis, diretora da Shift, empresa que faz o conselho consultivo de direitos humanos da Fifa, à agência AP.

“Nós estamos confiantes que o processo resultará em uma avaliação justa da situação dos direitos humanos em todos os quatro países envolvidos nas licitações e um roteiro sobre como lidar com quaisquer deficiências que a Fifa exigirá que o candidato vencedor se comprometa”, disse ainda Davis. Será montado um relatório com relação a direitos humanos para ser entregue ao Conselho da Fifa para avaliação.

Há um temor que a candidatura de Marrocos seja considerada inapta para sequer chegar à eleição em junho, no Congresso da Fifa. Todos os 211 países poderão votar para escolher quem será a sede da Copa 2026. E para Reinhard Grindel, membro do Conselho da Fifa, os inspetores deveriam evitar desqualificar Marrocos da eleição para prevenir que surjam teorias conspiratórias novamente na escolha da sede do Mundial.

“Se há apenas dois candidatos, o congresso deveria ter a chance de votar”, afirmou Grindel à agência AP. “Não precisamos de nenhum rumor nesse processo”, declarou o dirigente. Para Grindel, desclassificar um dos candidatos faria com que “sempre houvesse um rumor sobre as razões de bastidores que levaram a essa decisão”.

A candidatura de Marrocos precisa construir ou renovar 14 estádios e mais de 100 campos de treinamentos, enquanto a candidatura norte-americana selecionou 16 sedes que já estão prontas com seus estádios e campos de treinamento. Ainda assim, Marrocos tem um forte apoio da África, mas a sua previsão de venda de ingressos é menor que a norte-americana, com projeção de US$ 1,3 bilhão a menos que os concorrentes.

Segundo Grindel, que votará na eleição como presidente da DFB, afirmou que a Alemanha irá decidir o voto só depois de avaliar os relatórios da força-tarefa. “Eu acho que a força-tarefa deve oferecer um claro relatório e dar a todos os votantes uma declaração clara sobre qual candidatura é, talvez, a melhor”, afirmou ainda o dirigente alemão. Para ele, todas as federações que irão votar deveriam “explicar por que eles estão votando por uma candidatura que não é capaz de sediar uma Copa do Mundo na visão dos especialistas”.

O dirigente alemão se mostra muito otimista quanto à capacidade dos eleitores em escolher a sede, com todas as informações disponíveis em relação às duas candidaturas. “Eu não acredito que o resultado de uma votação assim seria que a candidatura não qualificada venceria”, afirma Grindel.

Uma visão que, parece, desconsidera o fator político da votação aberta. Como, por exemplo, os países africanos que são aliados de Marrocos no âmbito local irão justificar um voto nos norte-americanos? Este, talvez, seja o principal fator na eleição da sede da Copa 2026. O voto aberto implica em questões políticas sendo mostradas. Veremos como será o resultado, mas parece difícil de acreditar que nesse cenário, a votação se baseie apenas em aspectos técnicos. Aliás, é difícil imaginar um  sistema de votação que privilegie isso, de fato.