A Fifa abriu uma investigação nesta quarta-feira, após relatos de insultos racistas a Paul Pogba e Ousmane Dembélé. O episódio, repulsivo em todas as instâncias, se torna ainda mais sonoro por ter acontecido na Rússia, país que receberá a Copa do Mundo dentro de dois meses e meio. Os franceses defendiam a seleção de seu país contra os russos em amistoso realizado em São Petersburgo – cidade que receberá sete jogos da competição, incluindo uma semifinal, bem como o Brasil x Costa Rica. Os Bleus venceram a partida por 3 a 0, com um gol de Pogba e dois de Kylian Mbappé.

“A Fifa está coletando diferente relatórios da partida e potenciais evidências sobre o incidente discriminatório reportados na imprensa, incluindo o de um observador da FARE (a organização Futebol Contra o Racismo na Europa) presente no jogo. Por favor, entendam que até avaliarmos tudo, não podemos fazer novos comentários”, declarou um porta-voz da Fifa, nesta quarta-feira. Segundo a imprensa francesa, os agressores presentes nas arquibancadas imitaram macacos em momentos nos quais Pogba e Dembélé pegaram na bola.

O episódio lamentável se tornou até mesmo assunto de estado na França. Laura Flessel, Ministra dos Esportes, pediu uma ação unificada para combater o racismo nos esportes. “O racismo não tem lugar nos estádios de futebol. Temos que agir de maneira uníssona no nível europeu e internacional, para brecar este comportamento inadmissível”, escreveu, em suas redes sociais.

A FARE, que monitora episódios de racismo na Europa, registrou 89 incidentes relacionados à intolerância em estádios russos durante a temporada 2016/17 – número próximo da média registrada em temporadas anteriores. No início do mês, torcedores do Spartak Moscou insultaram o goleiro Guilherme, do Lokomotiv, brasileiro que defende a seleção local. Além do mais, não são raras as investigações da Uefa sobre as atitudes da torcida do Zenit. O clube de São Petersburgo foi indiciado duas vezes apenas nesta edição da Liga Europa. Nas oitavas de final, os torcedores atacaram verbalmente um jogador negro do RB Leipzig. O caso será julgado no final de maio.

A Fifa chegou a criar uma força-tarefa em 2013 para combater ao racismo na Copa, mas ela acabou dissolvida em setembro de 2016. Em cartas enviadas aos membros, a entidade internacional anunciou que havia “cumprido completamente a sua missão temporária”. Um escárnio que se torna ainda mais gritante diante do que ocorreu em São Petersburgo. Segundo Osasu Obayiuwana, jornalista e advogado que trabalhava com o grupo, a situação degringolou por causa do Fifagate. O chefe da missão era Jeffrey Webb, um dos cartolas presos. A partir de 2015, quem assumiu a coordenação foi Constant Omari, presidente da federação congolesa. Depois disso, não aconteceram mais reuniões e, segundo Obayiuwana, a chefia sequer respondia as suas mensagens.

“Eu gostaria de dizer que estou chocado com a decisão, mas, infelizmente, não estou. O problema do racismo no futebol continua a pegar fogo, é um tópico muito sério, que precisa de atenção contínua. Eu pessoalmente penso que ainda há muito trabalho sério para a força-tarefa fazer. A Copa do Mundo de 2018 na Rússia é apenas um dos assuntos. Mas é evidente que a administração da Fifa tem uma posição diferente quanto a isso”, declarou Obayiuwana, em entrevista à Associated Press.

A Fifa, em contrapartida, apontava que todas as recomendações dadas pela força-tarefa foram implementadas e os projetos seguiam em frente. A entidade introduziu um sistema de monitoramento nas partidas, lançou um guia de ‘boas práticas’, montou um ‘time de estrelas’ para realizar a conscientização e criou um prêmio à diversidade. Por isso, deu-se por satisfeita.

Yaya Touré também levantou sua voz na época. Quando foi vítima de racismo na Rússia em outubro de 2013, durante jogo contra o CSKA Moscou, o meio-campista chegou a dizer que os jogadores negros deveriam boicotar a Copa de 2018. Pouco depois, seria convidado a participar da força-tarefa. “A Fifa está sendo complacente pela Copa do Mundo na Rússia? Os torcedores e jogadores que irão sofrer se a Fifa não fizer isso certo. Quando eu recebi a carta me dizendo que a força-tarefa da Fifa foi descontinuada, eu fiquei muito decepcionado. A carta listava o bom trabalho que foi feito como resultado dos conselhos e recomendações da força-tarefa. Então, a minha pergunta é: depois de falhar em combater o racismo por décadas, por que parar quando algo começou a funcionar?”.

Além do racismo em si, há a preocupação da intolerância com outros grupos étnicos e minoritários durante a Copa do Mundo. Mas depois que a Fifa menosprezou a questão e lavou as mãos diante de um tema fundamental, parece um pouco tarde para tentar agir. O caso envolvendo Pogba e Mbappé talvez seja apenas uma pequena amostra do que pode se repetir a partir de junho. E há exemplos, inclusive na própria Rússia, que as brandas punições anunciadas pela entidade internacional não sai mais que paliativos.