Se os jogadores brasileiros começaram a unir forças através do Bom Senso FC, o mesmo acontece fora do país. A FIFPro é uma entidade estabelecida, que representa o interesse dos jogadores profissionais de todos os países praticantes de futebol. E agora resolveu bater de frente com uma questão importante. A união de jogadores quer que o sistema internacional de transferências seja reformado e está lançando medidas legais em prol dessa revisão.

A intenção da FIFPro é simplificar o modelo de transferências, vigente desde 2001 e baseado na Lei Bosman. Segundo a entidade, os jogadores de futebol não têm a liberdade devida, os direitos humanos não são respeitados por todos os clubes e a Lei da Oferta e da Procura é ignorada. Além disso, a crítica também se concentra sobre a compensação pela formação de jogadores, ‘muito maior que o custo e que eleva demais os valores da contratação’, e as cláusulas de rescisão, ‘exorbitantes e inimagináveis em qualquer outra indústria’.

Outro ponto combatido pela FIFPro é a presença de empresários na negociação das transferências. A intenção da entidade é abolir a participação de terceiros nas conversas entre clubes e jogadores, como já acontece na Inglaterra e na Polônia – os únicos dois países do mundo com essa barreira. Segundo dados levantados pela entidade, 28% do total de dinheiro movimentado pelas transações (algo estimado em US$ 750 milhões anuais) são pagos a agentes ou perdidos pelo jogo.

“A FIFPro não ficará de braços cruzados assistindo aos direitos dos jogadores ao redor do mundo serem sistematicamente desrespeitados e a industria do futebol desmantelando a si mesma”, declarou Philippe Piat, presidente da FIFPro. “O sistema falha com 99% dos jogadores ao redor do planeta, com o futebol como indústria e com o jogo mais amado do mundo. Do jeito que está, os únicos beneficiados são os agentes e 1% dos clubes mais ricos”.

Neste primeiro momento, porém, a luta pelos direitos se concentrará na Europa. A FIFPro entende que no continente estão os estágios mais avançados do debate e, por isso mesmo, suas ações legais se desdobram na Comissão Europeia e na Corte Europeia de Justiça. “Centenas de jogadores ao redor do mundo não são pagos por suas transferências. Há algo de errado neste quadro. Isso facilita o envolvimento de jogadores com máfias, como as de manipulação de resultados”, analisa Bobby Barnes, presidente da divisão europeia da FIFPro.

E outra semelhança da FIFPro com o Bom Senso FC: a união quer que a Fifa e outras confederações reconheçam os jogadores como ‘uma poderosa voz coletiva’. Blatter e seus comparsas podem até serem mais abertos ao diálogo do que a CBF. O problema será mexer nos bolsos de agentes e clubes, que dificilmente farão aberturas se isso significar perda de dinheiro. A não ser que os órgãos reguladores ajam rápido, o debate será longo.