Era como se eu fosse uma pessoa especial, capaz de alguma façanha que a maioria dos mortais apenas sonha. A maioria se dirigia a mim com um misto de inveja, surpresa e admiração. Sim, era 1h da manhã deste 4 de junho e eu acabara de sair do sistema da Fifa com ingressos para duas partidas: Uruguai x Inglaterra e 1F x 2E. Isso mesmo, eu passara pelas poderosas barreiras da fila de espera virtual do site e entrara no maravilhoso mundo dos assentos vazios, em que eu podia navegar livremente, observar que jogos ainda tinham disponibilidade, definir em que cidade eu veria a Copa do Mundo in loco.

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A socialização da madrugada ficou muito mais fácil após a invenção do Twitter. Bastou uma mensagem de “eu comprei” para vir uma avalanche de perguntas. E a natureza delas expõe a fragilidade do esquema de vendas da Fifa, ainda que ele tenha sido aprimorado da primeira à última sessão de venda de ingressos para a Copa de 2014.

- Você entrou no sistema que horas?
- Você ficou quanto tempo na fila?
- Você ficou esperando na fila ou dava F5 para recarregar a página?
- Você usou que navegador?
- Você abriu dois computadores para tentar com os dois?
- Posso pagar com qualquer cartão de crédito? E com o da minha mulher?
- O sistema prioriza quem é credenciado?
- Só vi jornalista dizer que conseguiu hoje. Será que há uma prioridade a jornalistas?
- Você não acha que isso são cartas marcadas?
- Você acha que é por ordem de chegada na fila?
- Me falaram que dar cinco pulinhos e clicar ctrl + shift + vai_ter_copa_sim o faz ganhar cinco posições na fila. É verdade?
Obs.: tirando a última, todas as outras foram realmente feitas. As respostas estão no final do texto.

Em um mundo com informação correndo para todo lado e facilidade imensa de se comunicar direta e indiretamente com seu público, a Fifa não conseguiu tornar o sistema de venda de ingressos mais claro, e um processo simples virou palco para lendas urbanas e teorias de conspiração. Ninguém sabe exatamente o que acontece, e parece que sempre há algo feito apenas para privilegiar alguns secretamente.

Passar pelas barreiras é coisa de algum VIP, ou talvez de um Indiana Jones que vence as armadilhas preparadas em um templo perto de Alexandretta para esconder o Santo Graal. Quem atinge o objetivo tem obrigação de contar aos demais, dar o caminho das pedras. E, no fundo, não há nenhuma dica estupenda para dar. É apenas um relato que pode deixar a pessoa ainda esperançosa ou não de conseguir o desejado ingresso.

Toda essa sensação de que há algo que ninguém sabe tem a ver com desespero, neurose e até desinformação de parte do público. Mas é inegável que o sistema não funciona de forma linear, com pessoas que esperavam na fila em um navegador conseguindo entrar em outro ou interessados que entraram no site depois passaram na frente de quem estava esperando há horas. Isso se soma à (falta de) credibilidade que a Fifa tem no Brasil nos últimos anos. O “Padrão Fifa” virou expressão de chacota ou protesto. E, no final das contas, quem quis comprar ingressos nesta quarta viu que o Padrão Fifa é Padrão Fila. Fila de espera virtual, fila de espera nos pontos de vendas que nunca funcionaram nesta manhã porque tudo havia acabado na madrugada anterior.

Respostas das perguntas do início do texto:

- 23h55.
- 45 minutos aproximadamente.
- Fiquei esperando. Mas amigos deram F5 e também funcionou.
- Google Chrome.
- Não, fiquei só com um computador.
- Meus ingressos foram comprados com o Mastercard da minha mulher, cartão da casa que estava cadastrado no perfil do site da Fifa.
- Eu não estou credenciado para a Copa. Se fosse, não estaria precisando comprar ingressos, certo?
- Certamente não, pois o sistema não sabe quem é jornalista esportivo e quem não é.
- Se fossem cartas marcadas, eu teria de ter feito algo para receber essa preferência. Não fiz.
- Achei que fosse, mas, pelos relatos que ouvi depois, não era bem assim.
- Não tentei esse código, mas não apostaria nessa tese.