Logo depois do filme, no banheiro, as pessoas continuavam emocionadas, mijando e falando com estranhos: “Como é que um time com essa história foi parar nessa draga?” Fazia sentido. Poucos minutos antes, algumas delas tinham umedecido a sala de cinema da Livraria Cultura, em São Paulo, com lágrimas. Marmanjos suspiravam e eram consolados pelos filhos (com graus variados de constrangimento). Algumas mulheres não conseguiam parar de chorar, e iam relembrando em voz alta do dia em que desafiaram o pai para ver aquela partida, naquele dia gelado, lá nos confins do Morumbi. Adolescentes (e, portanto, apenas projetos de gente em 1993) chacoalhavam o distintivo do clube, como se tivessem acabado de encarnar Evair. Todos comemoravam como se estivessem em campo, disputando a final mais importante do Palmeiras nas últimas duas décadas.

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Até ontem, 23 de setembro, nunca tinha visto uma interação tão grande entre filme e plateia – nem nos melhores cinemas 3D do mundo. As pessoas no conforto da sala iam se misturado às últimas cenas do filme “12 de junho de 1993 – O Dia da Paixão Palmeirense”, que entra oficialmente em cartaz nesta quinta-feira, dia 25 de setembro. Cada uma delas construía outro filme, ao vivo, enquanto assistia àquelas cenas de um tempo em que a felicidade era verde (desculpem a cafonice, mas é verdade).

Fui a uma das primeiras sessões do filme do jornalista Mauro Beting e do diretor Jaime Queiroz sobre o dia em que o Palmeiras saiu da fila contra o Corinthians, em 1993. O lado bom de escrever sobre um filme assim é que você não precisa se preocupar com spoilers. Todo mundo já sabe o final daquela partida e daquele enredo que começara a ser costurado em 1976, quando o time conquistara seu último título, e terminou em 1993. Então, por que vê-lo? Porque a graça de um filme assim não é apenas relembrar de um tempo em que o Palmeiras era um time de futebol. É conhecer algumas histórias que cercaram aquele dia épico e aqueles anos difíceis. Por exemplo:

1) O médico do Palmeiras passou tão mal durante a partida que deixou o jogo. Só voltou depois do segundo gol.

2)  Edmundo não viu Viola imitar um porco no primeiro jogo da final. Se tivesse visto, assevera Edmundo, ele não teria disputado a segunda partida – o Animal teria batido no jogador do Corinthians.

3) E uma história da fila. Num Palmeiras e Corinthians, Jorginho Putinatti sumiu num intervalo do jogo, foi ao vestiário do rival e deixou um presente em forma de fezes aos jogadores do time do Parque São Jorge.

Há várias outras como essas, entremeadas em depoimentos emocionantes e emocionados de jogadores, dirigentes e torcedores. São histórias, reflexões, choros, risos e silêncios sobre por que o Palmeiras, tão vitorioso até 1976, se transformou em uma draga de esperanças até 1993. Mas, aos poucos, as cenas do timaço de 1993 começam a aparecer na tela. A tristeza dá lugar à esperança. Os dribles de Edmundo, os passes de Zinho, as arrancadas de Edilson, os gols de Evair aparecem na sala escura. E ai, caro palmeirense, querida palmeirense, é difícil não se empolgar com aquele time que, à época, era um dos melhores do planeta. Você vê a bola passeando pelo gramado e fica pensando “como é que esses caras faziam isso?” Era zagueiro chapelando atacante e começando um contra-ataque mortal, volantes conduzindo a bola com elegância por todo o gramado, gols tão bonitos que mereciam entrar para o Museu da Imagem e do Som. A empolgação toma o lugar da reflexão, até chegar à tensa apoteose do dia 12 de junho de 1993. Só que as palmas ainda estão contidas – por pouco tempo.

Edmundo se emociona ao relembrar do título

Edmundo se emociona ao relembrar do título

No finzinho do filme, antes dos créditos e logo depois das cenas do jogo, o cinema mostra um encontro de veteranos do clube. Eles estão em um sítio para relembrar a data. Reeditam os gols, relembram as histórias. Zinho vai e chuta de direita. Tonhão mostra a chuteira a Antônio Carlos. Alexandre Rosa e Jean Carlos nos fazem relembrar daqueles incríveis coadjuvantes. Até que Evair vai e bate o pênalti entre as traves deste sítio que, por uma tarde, foi o Morumbi. Ai o cinema não aguentou e explodiu. As palmas surgem junto com os créditos finais e Evair, aquele, se levanta da plateia e vai ao palco para falar do filme, do dia e da vida. A mistura entre passado e presente, entre tela e plateia, está completa. O 12 de junho de 1993 se materializa no dia 23 de setembro de 2014, e então fica tudo claro: é um filme, mas não é bem um filme. É uma experiência coletiva de palestrinidade que só pode ser plenamente sentida se você também é palmeirense (ou, ao menos, se é solidário a essa causa de infinitas tragédias e impossíveis constantes).

E, justamente por causa disso, é impossível sair da sala sem se fazer a pergunta que o filme sugere o tempo todo, mas não faz – porque não precisa mesmo fazer. É a questão fundamental de qualquer coisa que fale do Palmeiras, e seria vulgar e redundante colocá-la em texto, na tela chapada: O que aconteceu entre 1976 e 1993? E o que aconteceu entre 2002 e 2014? Não há resposta simples para explicar por que o Palmeiras, hoje, vive de filmes maravilhosos como esses e de cenas perdidas do YouTube.  Elas nos lembram de uma época em que o Palmeiras era um time de futebol. Cada uma delas me dá saudades de coisas que nunca vivi.

PS: Sim, eu sou palmeirense. Sim, eu fiquei emocionado com o filme. E, não, o fato de eu ter me emocionado com o filme e ser palmeirense não afeta as minhas outras avaliações sobre futebol. Afinal, o futebol é social. Um time só existe e emociona porque ele se relaciona com outros tantos times que emocionam outras tantas pessoas que torcem por outros tantos clubes. A alegria e a dor de um time sempre vai afetar todo mundo que se importa com futebol, de diferentes formas.

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