Xavi é um dos grandes jogadores da sua geração. Aos 37 anos, o meia ainda atua pelo Al Sadd, do Catar, e é um consultor do Comitê Organizador da Copa 2022. Sua ligação com o Catar já foi muito questionada, assim como a ligação do Barcelona com o país, por tantas acusações sobre trabalho escravo e tudo mais. Em entrevista ao jornal El País, um dos mais importantes da Espanha, Xavi falou sobre seus conceitos de futebol, sobre a ideia de jogo que acredita, a influência de Guardiola e grandes jogadores como Lionel Messi e Neymar. Também comentou sobre o preparo físico atual e sobre a Copa do Mundo, especialmente a Espanha.

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É preciso levar em consideração que a sua formação de futebol no Barcelona e a ligação próxima a Guardiola o colocam como um representante de um estilo de jogo. Um estilo que é totalmente de Guardiola, embora ele elogia Luis Enrique também, mas tem algumas discordâncias com o ex-treinador do Barcelona. Este é um estilo de jogo, não é o único, mas é sempre interessante ver a visão de futebol de um jogador que se interessa tanto pelo jogo. Veja alguns dos principais trechos da entrevista.

Explosão do prepare físico

“Penso que o papel do treinador às vezes é excessivo. Melhoramos tanto o nível físico que hoje em dia é muito difícil driblar as defesas. Exceto Messi ou Neymar, Suárez às vezes, mesmo Cristiano Ronaldo ou Bale, custa-lhes driblar o adversário porque fisicamente estamos em um nível insuperável. Treinamos com um chip no peito, ajustamos as distâncias, os quilômetros percorridos, a velocidade máxima… É impossível estarmos melhor preparados fisicamente”, afirmou o meia.

O papel de Guardiola

“O nível tático também explodiu. Guardiola focava em todos os detalhes. Tinha tudo sob controle. Eu nunca tinha trabalhado a saída de bola. Ele te comandava até para isso: saíam jogando com tiro de meta do adversário e todo mundo estava posicionado. Às vezes o adversário dizia: “O que aconteceu? ‘Não temos espaço para sair jogando’. Guardiola tinha tudo controlado. O que aconteceu? Que todo mundo quis copiar um pouco o estilo de Guardiola, como [Joachim] Löw, que nos olhou e chegou onde chegou”, analisou o ex-jogador do Barcelona.

“Uns copiaram isso e outros foram a antítese, que é [Diego] Simeone. Aqui estão jogadores com talento como Koke que ficam fechados atrás, reduzindo espaços, tentando bloquear as superioridades. O futebol explodiu no físico e na tática. Agora o que falta é explorar a técnica, por que as coisas acontecem, como atacar. Esse é o talento! E não está suficientemente desenvolvido. Porque no futebol do mais alto nível há mais Simeones que Guardiolas. Você vê isso na Premier League: que equipes jogam como Guardiola? Três? Quatro? E que times jogam como Simeone ou te deixar o domínio do jogo? Uns 70%. Em La Liga é o mesmo. A desculpa destes treinadores é: ‘É que eu não posso competir contra o City ou o Barcelona’. Mas é o mesmo que fazem contra o Leganés!”, afirmou ainda Xavi.

Onde os times mais fazem isso?

“Na Premier League este ano mais. Porque Guardiola passou a dominar os jogos e disseram: ‘Eu vou me esquecer da bola, ficar atrás’. E falta explorar o domínio do jogo. Se atrever mais. Eu estou em um time pequeno e se eu jogar contra o Barcelona, quero tirar a bola do Barcelona. A questão é: como me defendo do Barcelona? Como Paco Jémez: vou pressionar. Se você lhes der o campo, Ter Stegen joga como Piqué, Piqué sobe para o meio-campo e para mim é uma morte anunciada”, analisou.

Como aumentar a criatividade?

“Com roda de bobinho! As pessoas pensam que é para se divertir. Não! É um exercício incrível: as duas peronas, olhar a sua segunda linha, fazer o passe por dentro, atrair, atrair e quando vem um defensor, você dá um passe para o outro lado. Não se esgota. É um exercício que permite desenvolvimento infinito. Por exemplo: sete contra dois, cinco contra dois, que já é mais difícil encontrar uma solução. Um nove contra dois é mais lúdico. Ou pode fazer uma roda grande com três no meio: dois que apertam e outro que fica na sobra, tem que ver onde está o espaço, por onde pode passar a bola… Te obriga a olhar o que aconteceu ao se redor, onde está o jogador livre”.

Futebol como espaço-tempo

“No Barcelona, entendemos o futebol como espaço-tempo. Quem domina isso? Busquets, Messi, Iniesta: são maestros do espaço-tempo. Sempre sabem o que fazer, se estiverem sozinhos ou marcados. Isto há meio-campistas como Casemiro que não entendem. Mas, por sua vez, Busquets não poderia nunca fazer as coberturas que Casemiro faz quando se joga cara ou coroa”.

“O Real Madrid avança, vão sete ao ataque e Casemiro fica sozinho no meio para cobrir. Isso é cara ou coroa. Isto Busquets não pode fazer porque até eu sou mais rápido que ele. Casemiro é rapidíssimo. Mas isso custa todo o resto que não trabalha: tem outras características, é mais defensivo, rouba mais a bola, chega, cobre mais campo. Mas não domina o espaço-tempo. Se estimula Casemiro com 12, 13, 15 anos, ele teria isso. Por que Kroos tem? Porque a Alemanha trabalha isso. Por que Thiago Alcântara tem isso? Porque esteve na escola do Barcelona”.

Talento x físico

“O talento sempre ganha do físico. O dia que isso não acontecer, vamos perder muito porque este jogo ficará muito chato. Eu acredito de verdade que o talento sempre acaba se impondo, o que precisa ser explorada é isso: que o jogador pense por que. Por que se posiciona aqui? Por que você vira no momento certo? Por que o seu companheiro está puxando os zagueiros para que você receba sozinho? As coisas não acontecem porque sim”, afirmou Xavi.

“Lembremos do 2-6 [goleada do Barcelona sobre o Real Madrid, maio de 2009]. Por que Messi recebia sozinho entre as linhas? Por que Henry e Eto’o jogavam abertos entre o zagueiro e o lateral. O zagueiro não podia sair porque tinha um. Dizia: se eu sair, caem nas minhas costas. Gago e Lass marcavam individualmente Iniesta e eu e Messi recebia sozinho. Estas são as superioridades. Isto é o que analisa muito bem Guardiola e seus assistentes. E também Luis Enrique. Analisam o adversário:  onde se podem criar superioridades, onde os passes se encaixam”.

Importância dos técnicos

“O futebol se tornou algo parecido com o futebol americano. Nada é azar. Mas também chegou um momento que se Guardiola saía de férias, a equipe já sabia o que fazer. A única coisa que não faríamos é analisar o adversário. Bom, eu sim. Eu pensava: Villarreal? O que faz? Faz um rombo no meio, sempre buscam ter um a mais no meio. Como joga com dois atacantes, vamos ter que dizer a Dani Alves que vá ao meio-campo porque com três nos basta na defesa para marcar Bakambu e Bacca. Para que quatro defensores atrás? Como mínimo, já estamos em igualdade numérica. Eu dizia a Messi: Leo, venha para o meio, venha para o meio…”.

Messi

“Taticamente, ele entende tudo. É uma vergonha que o comparem a qualquer outro. Messi domina tudo. O espaço-tempo, o tempo, onde está o companheiro e o adversário. Antes, só desequilibrava por habilidade e força. Agora te dribla: te atrai. Vê que tem um marcador e como sabe que eles têm medo, espera que venha e quando tem um 3 a 1, no momento certo ele passa.

Messi como Lebron James

“Eu vi isto em LeBron James. Na final Cavaliers-Miami de 2014. Lebron não é só um jogador individual. Quando Lebron tinha dois em cima dele, tirava algo da cartola e passava ao companheiro que estava livre e podia arremessar triplamente livre. Isto é o que fazem Messi e Iniesta. Te atraem até que haja alguém livre. O que ninguém faz? Vamos jogar. Nós temos trabalhado desde pequenos. Saber onde está o espaço e onde está o jogador livre. Até Ter Stegen sabe. Ter Stegen treina para isso. Esse chute longo bombeado que faz e dizem que ele deu um chutão. Não deu. Quando o Bayern veio ao Camp Nou, fez marcação individual e deixou Ter Stegen sozinho. E Ter Stegen dava um passe para Luis Suárez e eram tr6es contra três”, contou Xavi.

“Acredito que a maioria dos jogadores quando saem de campo não ficam fazendo corridas. O que fazem? Passes. A bola é um vício. Jogamos futebol para o vício da bola”.

Copa do Mundo

“Vejo que o Brasil se recuperou. Tem uma grande equipe. E têm as duas coisas: talento e físico. Isso é difícil. Por isso que a Espanha tem tanto mérito. Porque ganhou praticamente sem físico. Tirando [Sergio] Ramos, veja o que temos nos demais: Arbeloa e Puyol, um pouco mais. Mas sobretudo, temos talento. Não existe um meio-campo como o da Espanha. Não existe um [David] Silva. Que jogador é melhor que Silva? Não há. Que jogador é melhor que Iniesta? Não há. Que jogador é melhor que Busquets? Aí está, estes são os jogadores que levam o peso da equipe. Mais a velha guarda atrás. Alba, Piqué, Ramos, Carvajal. Certamente a Espanha ganhou mais físico, mas a Espanha não pode competir com a Alemanha nisso. A Espanha deve competir no talento”.

“A França tem o melhor elenco, ao nível de Brasil e Alemanha. E não nos esqueçamos da Argentina. Argentina está ao nível da Espanha. O que acontece é que jogam tão tensos que não conseguem jogar. É falso que não têm meio-campistas. A mim, Banega parece um meio-campistas para estar no Barcelona. E Mascherano não pode jogar de volante? Evidentemente não têm o nível técnico de Busquets, mas melhorou. Quando chegou ao Barcelona, tinha dificuldade de jogar de lado, porque no Liverpool não precisava. Dava passes longos e era suficiente com o que fazia Gerrard”

“Mas no Barcelona precisa fazer mais coisas. Precisa olhar, visualizar, entender que jogador está livre para que tenha espaço e tempo suficiente para manobrar. O Barcelona é um exame final para um jogador. É o futebol mais difícil e mais exigente do mundo. O Real Madrid não joga tão bem. No Bernabéu, se um defensor der um chutão para a arquibancada, está bem. Está na cultura. As pessoas aplaudem. No Camp Nou, se tirar a bola para a arquibancada, há um murmurinho negativo. Desde a época de Cruyff”.

Diferença de cultura de Real Madrid e Barcelona

“[Barecelona e Real Madrid] São dois públicos exigente, mas a diferença é que no Bernabéu exigem que d6e tudo. Não suportam preguiça. A referência é o espirito Juanito. O que acontece É que o espírito Juanito ou o espírito Camacho é a cultura do Real Madrid. Qual é a cutlura do Barcelona? Não é a cultura de Victor Muñoz, nem de Calderé. A cultura de Barcelona é a de Cruyff. Cruyff se girava, olhava, entendia o jogo, não se perdia”.

Neymar

“Neymar é um líder incrível. Em campo, é brutal. Tem uma personalidade que nada o assusta. Esta é uma virtude. O que difere um grande jogador é isso. Que nos momentos mais difíceis, te diz: ‘Me dê a bola’. O que acontecia no Barcelona? Quando o jogo pegava fogo, todo mundo queria a bola. Todo mundo tinha personalidade. O que aconteceu no PSG e no Manchester City nas últimas temporadas? Competiu com jogadores que não estavam acostumados a carregar este peso. Agora, você ve Dani Alves, v6e Cavani, Di María, Neymar, Verratti… Eles conquistaram títulos. Estão ali. Neymar se chateia quando não lhe dão a bola. Isso é passado”.

Mbappé

“Creio que haverá uma época depois de Messi e Cristiano e onde Neymar será referência. Porque além de tudo é brasileiro e o Brasil tem todos os números para estar na final da Copa. Vai ser uma era de Neymar de três ou quatro anos. Depois virá Mbappé. Tem um potencial brutal. É muito jovem. Só 19 anos. É um animal. Mas não o vejo… Acredito que o talento se impõe ao físico. Neymar é como Messi: talento e físico. E acredito que Mbappé tem mais físico que talento. E como eu não entendo o jogo, os jogadores que fazem a diferença o fazem por talento mais que por físico. Nem eu, nem Iniesta fomos físicos. Temos talento e nada mais”.

“Os tocados pela carinha mágica possuem as duas coisas: Maradona, Pelé, Ronaldo Nazário, Messi, Neymar e Mbappé também tem talento. Mas vejo Mbappé mais como um Henry. Com Emery, melhorará, certamente. Emery trabalha bem. É muito bom treinador. Mas se chega ao Barcelona, ele melhoraria muito. Entenderia tudo. Se Mbappé passa por um Guardiola, passa de um 8,5 a 9,5. Neymar já é um 9,5. Dificilmente pode melhorar. Mbappé tem que melhorar muitas coisas, sobretudo ao nível de entender o jogo. Porque quando ele era da base, não tinha que pensar. Ele só fazia a jogada. Por força e velocidade. Mas por quê? Eu quero ver Mbappé contra uma defesa como a do Atlético de Madrid. Ao meu modo de ver o jogo, hoje, Neymar é melhor”.