Fim da caixa preta: licitação de direitos da Libertadores terá quatro pacotes e menos poder para TV

O contrato de TV da Libertadores para 2019 será, pela primeira vez, aberto. É o fim da caixa preta da principal competição sul-americana, que foi objeto de alguns dos processos do Fifagate, iniciado em 2015. Contratos de eventos da Conmebol eram conseguidos com o pagamento de propina e, portanto, os valores acabavam menores para os clubes, maior para os dirigentes – alguns deles presos nos Estados Unidos. Para 2019, isso deve mudar.

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A Conmebol contratou a IMG e a Perform, duas empresas especialistas em marketing esportivo, para fazer a gestão das licitações dos direitos de TV. E as duas empresas garantiram à entidade uma renda mínima de US$ 350 milhões com a venda da Libertadores e da Sul-Americana. Para isso, mudou completamente a forma como a venda é feita.

Se antes era uma caixa preta, com valores não divulgados e pacotes que permitiam às TVs montarem a tabela como quiserem, agora a licitação será aberta, com pacotes diferentes e sem que a TV decida qual jogo quer passar. Assim, nos principais mercados, Brasil e Argentina, as TVs não poderão escolher passar todos os jogos de Corinthians e Flamengo, por exemplo, ou River Plate e Boca Juniors.

Segundo informa o blog do Rodrigo Mattos, a Conmebol dividirá os direitos de TV da Libertadores em quatro pacotes no Brasil: um será de TV aberta, com direito a um jogo por rodada; outro será de TV fechada, com direito aos melhores jogos; outro, também de TV fechada, terá a segunda escolha nas rodadas; o último dos quatro pacotes será o menor, com direito apenas aos jogos disputados às quintas-feiras, para todas as plataformas.

A dúvida é quantos pacotes uma mesma emissora pode comprar. Em geral, nesse tipo de concorrência, há alguma limitação, de forma que uma mesma emissora não possa comprar todos os pacotes disponíveis.

Os compradores dos pacotes não terão garantias sobre os jogos. Ou seja: a TV aberta não sabe que jogo estará disponível na quarta à noite, por exemplo. Nem mesmo a TV fechada terá garantia que os times de maior audiência estarão disponíveis. Até para tornar os pacotes atraentes a mais emissoras, é bem possível que os times fiquem divididos em diversos horários e dias, para contemplar todos os donos de direito.

Na prática, significa que times populares não devem ter seus jogos todos nas quartas à noite, como vimos acontecer várias vezes. Emissoras argentinas donas dos direitos também não conseguirão transmitir todos os jogos de Boca e River, por exemplo. Nem a TV aberta no Brasil poderá transmitir todos os jogos do Flamengo ou do Corinthians.

Conmebol monta tabela sem a TV

Troféu da Libertadores (Photo by Marcelo Endelli/Getty Images)

O modelo atual da Conmebol define a tabela junto com a TV, logo depois de definido o sorteio. As emissoras e os dirigentes sentam e dividem os jogos de acordo com os interesses de cada uma. É o mesmo que a CBF faz com o Campeonato Brasileiro, por exemplo, com a tabela sendo montada em conjunto com a televisão, que basicamente define dias e horas dos jogos para escolher que times transmitir.

A mudança é que a Conmebol definirá a tabela sozinha. E por que isso? Porque a ideia é ter mais de uma emissora transmitindo e, portanto, cada pacote será diferente. Espalhar os times mais populares em todos os pacotes é fundamental para que o modelo tenha sucesso e se valorize. Não quer dizer que não haverá adaptações de horários para a TV. A diferença é que o poder de decisão fica para a Conmebol, que quer também um horário que pode ser 21h30 – um pouco mais cedo que o atual 21h45 que a Globo tem exercido nos jogos de TV aberta, quartas à noite.

A ideia da Conmebol é ter uma faixa de horário definida para os jogos, de forma a estabelecer uma marca, um horário que todos sabem que haverá jogos de Libertadores. Algo que acontece, por exemplo, com a Champions League. Além disso, haverá uma inserção comercial obrigatória de um patrocinador da competição. Também nos moldes da Champions League, mas com um tempo menor.

Mais emissoras

Com esse novo cenário, é bastante possível – e também muito provável – que tenhamos mais de uma emissora fechada transmitindo os jogos. Atualmente, a Globo transmite na TV aberta e SporTV e Fox Sports dividem os direitos da TV fechada. No contrato de 2019, é possível que tenhamos até três emissoras fechadas transmitindo os jogos. Além do SporTV, favorito a ficar com o maior pacote, ESPN e Esporte Interativo pintam como possíveis candidatos aos pacotes de TV fechada. Mas e o Fox Sports? Merece uma explicação detalhada.

A Disney, dona da ESPN, comprou vários setores da Fox – incluindo o Fox Sports de vários países, como o Brasil – e o Fox Sports não pode entrar em licitações por direitos de TV junto com a ESPN. É uma mudança muito significativa no mercado. Significa que a ESPN e a Fox seguem compartilhando alguns direitos, como já faziam antes da compra, mas não disputam entre si as novas licitações. Por isso, é possível que tenhamos a ESPN fazendo proposta pelos pacotes de TV fechada.

O Esporte Interativo também surge como um candidato. Atualmente a emissora tem Champions League e Copa do Nordeste como seus principais eventos. A Turner, dona do EI, também tem poder de investimento para tentar ao menos um dos pacotes.

Tudo isso parece muito positivo para a Libertadores, seja do ponto de vista esportivo, para clubes e torcedores, seja do ponto de vista de marketing. É saudável que a licitação seja transparente, que as emissoras saibam qual é o processo e possam se candidatar. A concorrência tende a fazer os valores aumentarem.

Resta saber se todas as boas ideias ganharão vida e veremos uma disputa justa. E com mais emissoras transmitindo a Libertadores, os torcedores só tendem a ganhar. Ainda mais sem as principais emissoras decidindo tudo.

Segundo Rodrigo Mattos, a Conmebol deve lançar a licitação ainda no final deste mês de fevereiro ou no início de março.