Bale, o homem de € 100 milhões, marcou um gol decisivo na final da Liga dos Campeões (AP Photo/Manu Fernandez)

La décima finalmente chegou, e quem vai dizer que todo aquele dinheiro não valeu a pena?

Como dizer para algum torcedor do Real Madrid que não valeu a pena? Desde 2002, o clube mais rico e vencedor da capital espanhola perseguiu a décima taça da Liga dos Campeões obsessivamente. Gastou o que tinha e o que não tinha. Os milhões de euros que se transformaram em galáticos e muitas vezes em micos aproximam-se do PIB de um pequeno país. Talvez até superem. Mas como dizer para algum torcedor do Real Madrid que não valeu a pena? Enfim, ele pode comemorar, bater no peito e gritar com toda a força dos seus pulmões que o seu clube é dez vezes campeão europeu.

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E o auge do investimento estava ali em campo, com a camisa 11 nas costas, a velocidade de um fundista nos pés e a tranquilidade na mente para fazer o gol decisivo. Gareth Bale custou € 100 milhões e valeu o título europeu. No segundo tempo da prorrogação, colocou a cabeça na bola e a última pá de terra do enterro das esperanças do Atlético de Madrid, um verdadeiro time de guerreiros, soldados de um treinador que se considera tão parte do time quanto o lateral esquerdo. O 12º jogador colchonero.

O Atlético de Madrid brigou até a última gota de suor que tinha para escorregar pelo corpo. Parecia um polvo, cuja cabeça formava uma barreira de proteção ao goleiro Courtois e os tentáculos bloqueavam os chutes, lançavam os atacantes e ameaçavam Iker Casillas. A vontade desse time é infinita e cada ser humano que acordou neste sábado vestido de vermelho e branco gostaria que a energia também fosse. Porque a derrota não veio na bola e nem na vontade. Veio no físico.

O prêmio no topo do pau de sebo em Lisboa era o contra-ataque. As duas equipes queriam a chance de acionar as suas flechas: Cristiano Ronaldo e Bale no lado branco, e Diego Costa no listrado. Mas a capacidade de se fechar em duas linhas de quatro desse Atlético de Madrid é impressionante. O Real Madrid teve pouco espaço para sair em velocidade. Às vezes, no primeiro tempo, até recuou em busca de uma oportunidade de surpreender. Conseguiu poucas.

Para o contra-ataque do Atlético de Madrid funcionar perfeitamente, é necessário que Diego Costa esteja em forma para disparar quando o meio-campo desarma. E ele não estava. Ficou nove minutos em campo, pegou apenas seis vezes na bola e não fez nenhum esforço um pouco mais exigente para testar os músculos. Fica a dúvida sobre a real intenção de Diego Simeone. Colocá-lo em campo e rezar por um milagre? O brasileiro disse que dava e percebeu que não dava? Uma reação tática ao time armado por Ancelotti, já que Adrián tem mais velocidade? Tentar confundir o Real Madrid, como Émerson Leão, em 2002, substituindo Diego após dois minutos em campo na final do Campeonato Brasileiro?

O que sabemos como fato é que a dupla ofensiva do Atlético de Madrid virou Adrián e David Villa. Diego Costa sentou no banco de reservas, ao lado do compatriota Diego, e viu a partida se desenrolar do jeito que mais gosta: brigada, física, truncada. Muitas divididas e entradas duras, e quem simulou Simeone dentro de campo foi o capitão Gabi. Em ritmo de Libertadores, ignorou qualquer risco de ser expulso. Deu carrinho, encarou os adversários com a cabeça erguida, provocou e catimbou. O suficiente para deixar o seu técnico orgulhoso. Poderia ter levado o cartão vermelho em um contra-ataque, um dos poucos do Real Madrid, em que deu um carrinho por trás em Di María. O árbitro holandês Bjorn Kuipers mostrou apenas o amarelo.

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A partida ficou mais quente do que nunca, ainda mais nervosa e pegada. Nas arquibancadas do Estádio da Luz, a torcida do Atlético de Madrid superou a do Real no grito e evocou Luis Aragonés. Dependendo do nível de cetiscismo do leitor, podemos creditar o que aconteceu em seguida ao espírito do ex-treinador e eterno ídolo colchonero, que morreu há alguns meses e estava em campo naquela fatídica final de Liga dos Campeões de 1974.

Bale perdeu um gol inacreditável. Teve toda as condições de abrir o placar depois de um erro de passe bobo de Tiago na intermediária. Arrancou com aquela velocidade que poucos jogadores do futebol mundial possuem. Atropelou os marcadores e chegou cara a cara com Courtois antes de qualquer um em campo. O português esboçou um carrinho para corrigir o erro – seria pênalti -, mas recolheu as pernas. Miranda sabe que ninguém alcança Bale e compensou com a extensão do seu corpo. Atirou-se no chão e atrapalhou o galês, que chutou meio desequilibrado.

Sem Diego Costa para contra-atacar, o Atlético de Madrid executou a sua outra jogada preferida – e mortal. Tiago cobrou escanteio e a zaga do Real Madrid afastou. Juanfran, da entrada da área, cabeceou para o meio do pagode, e Godín escorou para encobrir Casillas. O que o goleiro do Real Madrid resolveu fazer na marca do pênalti ainda segue sem explicação. Talvez tenha derrubado uma lente de contato ou coisa parecida. Mas o camisa 1, que salvou o time tantas vezes ao longo desta Liga dos Campeões, falhou feio na partida mais importante da temporada.

Enquanto teve condição física, as pernas do Atlético de Madrid iam e vinham pelo gramado como deveriam fazer. Defendiam com a intensidade corriqueira e prendiam a bola no campo de ataque. Principalmente Adrián que, se não é letal como Diego Costa, cumpriu bem o seu papel. Incomodou a defesa do Real Madrid e foi até um pouco fominha. Em uma jogada pela esquerda, poderia ter rolado para David Villa matar o jogo. Demorou.

Embora não jogasse tão bem, o Real assumiu o controle eventualmente, à medida em que o gás do Atlético foi se esgotando. Criou as jogadas mais nos vacilos dos adversários, erros incoerentes com a concentração e a entrega dos atletas de Simeone. E Carlo Ancelotti tem méritos. Substituiu Khedira, claramente cansado, por Isco, trocou Coentrão por Marcelo e recuou Modric. Ganhou saída de bola, infiltração e qualidade na armação.

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Bale teve mais duas oportunidades: um chute de fora da área que passou perto e outra arrancada, essa ainda mais característica, pela direita, em que tentou chutar de trivela. O Atlético de Madrid abdicou do ataque em certo momento. Não por tática, mas por necessidade. Não conseguia mais correr. Os jogadores não tiveram a segurança de que conseguiriam atacar e voltar a tempo de reconstruir a muralha defensiva. Ceder um contra-ataque seria mais perigoso que tentar segurar a pressão. Foi um risco calculado, mas, ainda assim, um risco.

E nessas ironias maravilhosas do futebol, a bola parada, a arma preferida do Atlético de Madrid, levou o jogo à prorrogação. Tiago descuidou-se da marcação a Sergio Ramos, que cabeceou com muita técnica. Colocou a bola fora do alcance das mãos de Courtois e ressuscitou o fantasma da decisão da Champions de 1974, quando os colchoneros estiveram a dois minutos do título, mas Hans-Georg Schwarzenbeck empatou para o Bayern de Munique, que acabou vencendo a terceira partida de desempate.

O Real teve muito mais espaço para atacar, regido por Modric e por Di María, um monstro dentro de campo, tão técnico quanto inteligente. Percebeu que Juanfran mancava. Certamente seria substituído se Simeone não tivesse queimado uma troca com Diego Costa. Fazer o quê? Di María correu para cima do lateral direito adversário e invadiu a área. O polvo não estava mais ali. Courtois ainda desviou o chute do argentino, mas Bale apareceu na segunda trave para cabecear.

Não havia mais o que fazer. O Atlético jogou todas as bolas que conseguiu para dentro da área, na esperança mínima e vã de que uma delas passasse por Casillas. Mas a mística acompanhou o físico do time para fora do estádio, por mais que os torcedores insistissem em gritar o nome de Aragonés. Depois de tantas partidas, de meses de dedicação e coração, o sistema defensivo foi vencido, embora nunca possamos chamar esses jogadores de derrotados. O time que nunca desiste desistiu. Permitiu que Marcelo avançasse sem ser incomodado e chutasse da entrada da área. A bola passou por baixo de Courtois.

Falando em investimento, você estava sentindo falta do segundo jogador mais caro que Florentino Pérez comprou, não estava? Cristiano Ronaldo, claramente ainda sentindo os resquícios da sua última lesão, não foi o melhor jogador do mundo em Lisboa. Apareceu pouco, chutou pouco e até tropeçou dentro da área. Mas deixou a sua marca. Kuipers apitou pênalti de Juanfran, e Ronaldo marcou pela 17ª vez nessa Liga dos Campeões, recorde absoluto da competição.

Simeone invadiu o gramado duas vezes durante a final de Lisboa (Foto: AP)

Simeone invadiu o gramado duas vezes durante a final de Lisboa (Foto: AP)

Simeone resignou-se. Bateu palmas para os seus jogadores, sem conseguir esconder a tristeza e a decepção de estar a dois minutos do seu mais desejado sonho e não conseguir tocá-lo. Com os nervos à flor da pele, invadiu o gramado para peitar o zagueiro Varane e discutir com o árbitro. Se as regras permitissem, entraria em campo para exaurir as suas forças junto com  as dos seus jogadores. É o técnico que mais joga ao lado do time no mundo. 

O Real Madrid talvez não tenha atuado tão bem quanto o Atlético enquanto a partida estava em condições normais de temperatura e pressão. Mas, assim como o adversário, lutou até o final. Seja do tempo regulamentar, quando conseguiu empatar aos 47 minutos do segundo tempo, seja da prorrogação. Também se entregou, também brigou e eventualmente a sua capacidade física e técnica superior prevaleceu. Ao longo da temporada, sofreu muito menos para ganhar os seus jogos e isso faz a diferença.

Aqueles milhões de euros não significam nada para o torcedor madridista. Eles se transformaram, em suas mentes e corações, em Angel Di María, Cristiano Ronaldo, Gareth Bale, Sergio Ramos e Luka Modric, os heróis que atravessaram a península ibérica e voltaram com a honra suprema, derradeira e definitiva. Com la décima. E quem vai dizer que não valeu a pena gastar tanto?

Formações iniciais

campinho final

Destaque do jogo

O BBC do Real Madrid não esteve em sintonia nesta partida. Nem Bale, nem Benzema e nem Cristiano Ronaldo brilharam tanto quanto Angel Di María, que invariavelmente era derrubado por faltas e criou a jogada do gol do título, já na prorrogação. Alguém vai conseguir segurá-lo na Copa do Mundo?

Momento-chave

O gol de Bale decidiu o duelo, mas foi de Sergio Ramos foi quase tão importante. Porque o Atlético de Madrid não estava fisicamente preparado para 120 minutos correndo atrás do Real Madrid. A cabeçada no canto de Courtois levou o jogo à prorrogação e, nela, o Real teve mais pernas.

Os gols

36′/1T – GOL DO ATLÉTICO DE MADRID! Escanteio, e a zaga do Real Madrid desvia. Juanfran cabeceia para dentro da área e Godín desvia com a testa. Casillas estava adiantado e ainda tentou cortar, mas a bola já havia passado pela linha.

47′/2T – GOL DO REAL MADRID! Outro escanteio, desta vez para o Real Madrid. Sergio Ramos desvencilhou-se da marcação de Tiago e cabeceou no canto de Courtois.

5′/2T DA PRORROGAÇÃO – GOL DO REAL MADRID! Angel Di María fintou dois pela ponta esquerda e entrou em diagonal. Chutou cruzado e Courtois desviou. Bale estava na segunda trave para completar de cabeça.

13′/2T DA PRORROGAÇÃO – GOL DO REAL MADRID! O Atlético de Madrid não tinha mais pernas para correr atrás de Marcelo, que avançou pela intermediária, chegou à entrada da área e chutou por baixo de Courtois.

15′/2T DA PRORROGAÇÃO – GOL DO REAL MADRID! Juanfran derrubou Cristiano Ronaldo dentro da área, e o árbitro marcou pênalti. O próprio português realizou a cobrança e fez o seu 17º gol na Liga dos Campeões.

Curiosidade

Carlo Ancelotti, campeão também com o Milan, é quinto técnico a conquistar a Liga dos Campeões com duas equipes diferentes, ao lado de Ernst Happel, Ottmar Hitzfeld, José Mourinho e Jupp Heynckes.

Ficha técnica

Real Madrid 4 x 1 Atlético de Madrid

Real Madrid
Iker Casillas; Carvajal, Sergio Ramos, Raphael Varane e Fábio Coentrão (Marcelo, aos 14′/2T); Sami Khedira (Isco, aos 14′/2T), Luka Modric e Angel Di María; Cristiano Ronaldo, Gareth Bale e Karim Benzema (Isco, aos 34′/2T). Técnico: Carlo Ancelotti

Atlético de Madrid
Thibaut Courtois; Juanfran, Miranda, Diego Godín e Filipe Luis (Toby Alderwireld, aos 38′/2T); Tiago, Gabi, Koke e Raúl García (José Sosa, aos 21′/2T); David Villa e Diego Costa (Adrián, aos 9′/1T). Técnico: Diego Simeone

Local: Estádio da Luz, em Lisboa (POR)
Árbitro: Bjorn Kuipers (HOL)
Gols: Diego Godín (36′/1T); Sergio Ramos (47′/2T), Bale (5′/2T, prorrogação), Marcelo (13′/2T, prorrogação) e Cristiano Ronaldo (15′/2T, prorrogação)
Cartões amarelos: Sergio Ramos, Khedira, Marcelo, Cristiano Ronaldo e Varane (Real Madrid); Raúl García, Miranda, David Villa, Juanfran, Koke, Gabi e Diego Godín (Atlético)
Cartões vermelhos: nenhum

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