Final só reforçou que única certeza da Libertadores 2014 é a imprevisibilidade

Durante as vésperas, balanças foram colocadas ao redor da taça da Libertadores. Como se Nacional e San Lorenzo não tivessem méritos para ter chegado à final, os pesos de suas camisas começaram a ser avaliados. Também falaram sobre o estilo de jogo dos times, como se houvesse uma melhor maneira de vencer, e ela precisaria ser baseada pelas tendências de outono/inverno vistas na Copa do Mundo. Paraguaios e argentinos responderam aos críticos. O San Lorenzo, se impondo como quem espera pela copa há 54 anos, mostrando sua grandeza. O Nacional, apostando em suas estratégias à risca. E o resultado foi aquilo que se espera desta Libertadores: imprevisível, com o empate por 1 a 1 no último minuto.

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O Defensores del Chaco ajudou a lembrar, sobretudo, que mesmo sem um time tradicional, a final da Libertadores se engrandece por si. As arquibancadas do estádio em Assunção estavam lotadas, completamente brancas – por mais que muitos daqueles torcedores não professem a fé pelo Nacional no dia a dia, mas sejam fãs de Olimpia, Cerro Porteño e outros clubes locais abraçados com a causa. No ambiente, bandeirões, chuva de papel picado e rolos de papel higiênico branco lançado em campo. A tradição da copa estava sendo respeitada, sempre.

Já quando a bola começou a rolar, o que se viu foi um San Lorenzo ávido para colocar a mão na taça que persegue desde 1960, e que o faz se sentir menor que os outros grandes argentinos, ou mesmo quem sequer é considerado grande. O Nacional, acuado, permitia que o Ciclón se tornasse o dono do campo. Com jogadores mais técnicos individualmente, a equipe de Edgardo Bauza foi para cima, tentando acabar com a força que os tricolores demonstraram nos jogos de ida desse mata-mata da Libertadores. E os paraguaios aceitaram essa imposição, recuados, sabendo que o encaixe coletivo poderia fazer a diferença.

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Enquanto o Nacional esperava uma bola parada ou um contra-ataque que lhe pudesse dar o gol, o San Lorenzo pressionava e aguardava sua chance. Tocava a bola despretensiosamente no meio, como é característica do time, para encontrar um mísero espaço e tentar marcar o gol na base da precisão. Foi assim que os paraguaios criaram sua melhor chance na primeira etapa, após uma cobrança de escanteio completada por Cáceres para fora. E assim que os argentinos quase abriram o placar, em uma boa infiltração de Mas pela ponta esquerda, carimbando a trave de Ignacio Don – que também fazia defesas seguras.

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O domínio de campo do San Lorenzo diminuiu no segundo tempo, mas não a quantidade de chances. Parecia só questão de tempo o gol daquele time que não se intimidou com a chuva de papeis picados ou o calor da torcida no Defensores de Chaco, porque sabe que pode (e deve) fazer melhor no Nuevo Gasómetro. A expectativa, enfim, foi desfeita aos 25 minutos do segundo tempo. Uma boa troca de passes fez a bola parar nos pés de Villalba, de excelentes participações na Libertadores. Cruzamento na medida para Mauro Matos se infiltrar em meio a zaga e completar para as redes. Poderia até ter saído antes, com as rápidas e ótimas arrancadas de Piatti pela ponta esquerda, na penúltima partida do meia pelo clube.

A partir daquele momento, a vantagem do San Lorenzo só precisava de 20 minutos para ser consolidada. E nada parecia que iria tirá-la, ainda mais pela grande atuação que os volantes cuervos, Mercier e Ortigoza, faziam no controle do meio-campo. Só que não dá para ter certeza nesta Libertadores. Ainda mais contra o Nacional, que tem revertido todas elas desde as oitavas de final. A 30 segundo do fim, no abafa que acontecia contra a área de Torrico, Júlio Santa Cruz estufou as redes a partir de um cruzamento. A incerteza voltava a imperar na decisão, logo antes do apito final.

O reencontro fica marcado para a próxima quarta, em Buenos Aires. O favoritismo é do San Lorenzo, pela qualidade técnica de seus jogadores e pela forma como se agigantou no Defensores del Chaco. A vontade, porém, não é exclusiva dos cuervos. E o Nacional já demonstrou que ela, unida ao seu plano de jogo, pode ajudá-lo a se tornar um dos campeões mais inimagináveis da história da Libertadores. É isso que faz a edição de 2014 da copa tão fantástica, tão histórica independente de quem levantar a taça – ou do peso de sua camisa.