Final única: Libertadores busca o dinheiro fácil sob o risco de perder a própria essência

Futebol é no estádio. Sentado na arquibancada, ombro a ombro com companheiros que compartilham da mesma paixão, sendo influenciado pela catarse coletiva que apenas este esporte consegue produzir. Como é impossível construir um estádio que abrigue dezenas de milhões de torcedores e, mesmo neste caso, nem todos conseguiriam se organizar para assistir a todas as partidas in loco, a televisão tornou-se um acessório obrigatório.

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Nenhum problema com isso, exceto quando as prioridades se invertem. A quantidade de dinheiro que as emissoras de televisão são capazes de injetar no futebol modificaram o esporte em vários aspectos, como horários, dias e calendário. Em alguns lugares, como a Europa, este processo está avançado e é praticamente irreversível, embora bravos heróis ainda tentem resistir.

Se peca em organização, faturamento e segurança em relação ao futebol europeu, o sul-americano tinha o trunfo de manter viva a cultura dos estádios, com festas particulares ao redor do continente, os famosos recebimientos e um barulho que exige lupa para ser encontrado em jogos na Europa. A atmosfera das partidas é uma das marcas registradas da Libertadores. Sua essência, sua alma.

E, então, a Conmebol teve uma idea genial: em vez de tratar dos problemas mais urgentes e críticos, resolveu atacar um dos seus principais pontos fortes ao confirmar, nesta sexta-feira, que a partir de 2019 a decisão da Libertadores será realizada em jogo único, em campo neutro a ser anunciado com antecedência, e em um sábado.

O motivo é óbvio: dinheiro. “Em termos de desenvolvimento, projetamos maiores faturamentos para o torneio e para os clubes finalistas, assim como uma projeção maior do futebol sul-americano e da Libertadores em nível global”, explicou o presidente da entidade sul-americana Alejandro Domínguez.

A cenoura foi o aumento da premiação dos finalistas. Além de US$ 6 milhões (R$ 19 milhões) para o campeão e US$ 3 milhões (R$ 9,7 milhões) para o vice, cada equipe receberá US$ 2 milhões (R$ 6,5 milhões) no lugar da arrecadação que receberia em sua partida como mandante, mais 25% do total da bilheteria. Isso sem ter que arcar com nenhum custo de organização. A matemática financeira é realmente interessante. Por exemplo, em 2013, o Atlético Mineiro teve bilheteria de R$ 14 milhões no jogo decisivo contra o Olimpia, no Mineirão, mas lucrou apenas R$ 7,2 milhões.

Foi um faturamento acima da curva. No ano anterior, o Corinthians havia lucrado R$ 1,7 milhão no jogo contra o Boca Juniors no Pacaembu. O lucro do Grêmio, em 2017, é difícil de ser calculado pela natureza do acordo do clube gaúcho com a OAS para a administração da sua arena, mas obviamente é inferior à renda bruta de R$ 6,5 milhões, exatamente o valor líquido que a Conmebol começará a garantir para os seus finalistas, sem contar a porcentagem de bilheteria.

Mas vamos observar outras declarações de Domínguez no comunicado emitido pela Conmebol:

“Mais que um jogo, este será um grande evento esportivo, cultural e turístico, que trará grandes benefícios para o futebol sul-americano, seus clubes e torcedores”.

O paralelo óbvio aqui é com a decisão da Champions League, mas ele ignora as diferenças geográficas entre os dois continentes. A América do Sul é muito maior do que a Europa, tem obstáculos físicos, estruturas aérea, viária e ferroviária deficientes, e um poder aquisitivo médio para o lazer muito menor do que o europeu. Quem aproveitará este “grande evento cultural e turístico”? Apenas quem puder pagar por ele e sabemos que não são as mesmas pessoas que acompanharão o time nos jogos anteriores. Essa exclusão já estava em marcha com o aumento do preço dos ingressos na hora do filé, mas a isso, agora, se acrescentam os custos de passagens de avião e hospedagem.

“Este emocionante duelo oferecerá um espetáculo esportivo de nível mundial e uma experiência melhor em casa no estádio”.

Discutível. A partida em jogo único certamente oferece mais emoção que jogos de ida e volta, mas não é necessariamente mais justa. Ter a possibilidade de atuar dentro e fora de casa oferece equilíbrio, e embora haja uma aparência de vantagem para quem decidir como mandante, este não é um benefício adquirido aleatoriamente: leva em consideração a campanha que levou o clube à decisão. Quanto à experiência no estádio, perde-se a ligação umbilical entre a torcida e o seu território, além de potencialmente diminuir o número de apaixonados nas arquibancadas, agora divididas entre duas equipes, com espaço para o público neutro, e potencialmente com um perfil diferente pela nova linha econômica que determina quem poderá comparecer à decisão.

Realmente, para a televisão a experiência será melhor.

“Além de gerar mais investimentos para o desenvolvimento esportivo, a final única será uma grande oportunidade para que a América do Sul dê um grande salto em infraestrutura esportiva, organização de eventos, controles de segurança, comodidade e atenção nos estádios, e na promoção regional e mundial dos nossos torneios, clubes e jogadores”.

De que maneira, exatamente, a final única tratará dos gargalos de infraestrutura, organização e segurança que existem na Libertadores? A final, evidentemente, será disputada em um estádio moderno, em uma cidade com boa estrutura, em relação ao resto da América do Sul, com todo o aparato de segurança que a Conmebol pode oferecer concentrado em um único jogo. Mas o resto do torneio, todos os outros jogos, continuarão sofrendo com esses problemas.

O que houve foi uma promessa de investir o dinheiro extra que a final única produzirá para solucioná-los, e cabe a nós acreditar que a entidade, historicamente incapaz de lidar com eles, agora será capaz de resolvê-los porque seus cofres estão mais cheios (e sempre puderam estar se somássemos o dinheiro que os dirigentes desviavam). É realmente necessário transformar a decisão da Libertadores em um único jogo para que os torcedores parem de atirar objetos em quem está se preparando para cobrar um escanteio? A final única impedirá que a Conmebol no futuro tome uma decisão intempestiva e nas coxas como foi a introdução do árbitro de vídeo no decorrer do torneio, sem treinamento adequado, sem um protocolo bem estabelecido? Esta é a  única maneira de estabelecer um critério mínimo de estrutura e segurança para os estádios? Não, mas talvez seja a mais fácil.

A final única é, no máximo, uma maquiagem por cima dos problemas crônicos do futebol sul-americano. Cria um bonito tapete persa que acoberta toda a sujeira que existe por baixo dele. Mas a maneira mais eficiente de vender a casa seria uma reforma estrutural. Um campeonato no geral mais bem organizado, não apenas o seu jogo mais importante, seria um produto ainda mais comerciável e interessante. É isso que tem que ser copiado da Europa, e não medidas pontuais principalmente as que ferem a nossa cultura.

Os dirigentes do conselho da Conmebol que aprovaram a mudança com unanimidade acreditaram nas promessas de Domínguez de que a final única fará com que o torneio seja potencializado como um todo e foram atraídos pela garantia de um grande valor de bilheteria, independente de quantas pessoas forem ao estádio. O dinheiro manda, tanto o imediato quanto o sonho de muito mais no futuro. Temos que esperar para ver se funcionará desta maneira, e a entidade pode sempre voltar atrás em caso de fracasso. No entanto, neste momento, parece um tiro nos próprios valores e qualidades que fazem da Libertadores o que ela é, com mais contras do que prós.