Parecia um sonho. Desde o início da temporada, o Ajax manteve-se entre os ponteiros do Campeonato Holandês, em busca do tetracampeonato inédito. Mas aos poucos, delineou-se um sonho: voltar a mostrar força na Europa. A quimera começou na vitória incrível sobre o Barcelona, em Amsterdã, na penúltima rodada da fase de grupos da Liga dos Campeões. O empate contra o Milan frustrou os sonhos de vaga nas oitavas de final, mas o Ajax chegava à Liga Europa vendo um caminho aparentemente acessível para desenvolver boa campanha nela.

Com a temporada 2013/14 já se encaminhando para o final, para sua desilusão, o Ajax vê que terá apenas a disputa do Campeonato Holandês como prêmio de consolação, após mais uma queda em competições europeias. Pelo menos, na Eredivisie, as coisas ficaram mais tranquilas após a 25ª rodada. Os resultados voltaram a fazer com que os Ajacieden sejam seus maiores aniversários: agora, estão seis pontos à frente do vice-líder Twente. No entanto, o travo da eliminação na segunda fase da Liga Europa durará um certo tempo, ainda.

Porque o Red Bull Salzburg, aparentemente um adversário acessível, já definiu a sua classificação no jogo de ida. Em plena Amsterdam Arena, a equipe austríaca fez o que muitos times já fazem contra equipes que usam e abusam do toque de bola: apelou para a eficiência nos contra-ataques e a pressão firme sobre a defesa. Do resto, cuidou a insegurança da dupla de zaga do Ajax. Principalmente – é duro dizer – de Joël Veltman, que cometeu mais uma ingenuidade, ao cometer pênalti em Alan, convertido por Jonathan Soriano – que ainda marcaria um dos mais bonitos gols da temporada europeia, aproveitando falha de colocação de Cillessen para mandar a bola às redes, do meio-campo. O clichê cabe à perfeição aqui: 3 a 0 foi pouco.

Pior foi ter perdido Lasse Schöne no aquecimento para a partida, com lesão nos ligamentos do tornozelo. Com a perda acidental do dinamarquês, o meio-campo perdeu muito em velocidade. E mesmo após já ter um placar altamente negativo, o Ajax continuou apenas com toques estéreis, sem alguém a acelerar o jogo, a transformar o que se faz perto do grande círculo em chances de gol. Além disso, Frank de Boer escalou pessimamente o time, exagerando nos experimentos. Bojan no meio do ataque e Lerin Duarte de lateral esquerdo não são as coisas mais comuns do mundo, é preciso convir.

Restava corrigir os erros de posicionamento, de escalação, de postura tática… Enfim, muita coisa foi revista para o duelo contra o AZ, pelo Campeonato Holandês. Algo necessário, já que a vantagem em relação ao Twente poderia ser encurtada. E os Godenzonen mostraram uma reação brilhante à sua torcida. Os toques em campo foram levados ao ataque e transformados na goleada por 4 a 0 graças, principalmente, a três jogadores: Siem de Jong, enfim voltando a fazer uma partida como pode; Lerin Duarte, escalado “na dele”, como um ponta recuado (e tendo uma avenida pela esquerda, é verdade); e Ricardo Kishna, cuja entrada foi necessária pela lesão de Viktor Fischer.

Kishna merece destaque: aos 19 anos, ganhou suas primeiras chances entre os profissionais nos jogos amistosos da intertemporada, na Turquia. Foi colocado em campo no intervalo, contra o AZ. E fez gol em sua primeira partida oficial pelo time adulto, entrando para uma lista com nomes como Cruyff, Van Basten e Kluivert. A impressão foi tão boa que Kishna foi garantido como titular para a volta contra o Red Bull Salzburg, embora Frank de Boer já advertisse que ele não ficaria os 90 minutos em campo.

Não ficou mesmo, mas nem importou muito. O Ajax jogou com o freio de mão puxado, como se soubesse que conquistar a vaga era dificílimo em Salzburg. Até poderia ter sido mais incisivo no primeiro tempo, mas o primeiro gol do Red Bull já enterrou as esperanças, de vez. O pior é que ainda houve tempo para que Mike van der Hoorn, outro zagueiro, ter azar, fazendo gol contra. E o 3 a 1 que ratificou a classificação do time austríaco foi, mais uma vez, motivos para desilusão.

Mas pelo menos, ainda resta a Eredivisie. E nela a situação foi melhorada pelo empate do Twente contra o Feyenoord (2 a 2, com o Twente tendo chegado a perder por 2 a 0 – e os jogadores do Stadionclub reclamaram demais da arbitragem de Serdar Gozübüyük). Agora, seis pontos à frente do segundo colocado, o Ajax vai para o clássico contra o Feyenoord procurando se aproximar do tetracampeonato inédito. E procurando recolher os cacos de um sonho que se revelou vão.