Desde que chegou ao Liverpool, Roberto Firmino já tinha deixado muito claro: não é o centroavante que vai empurrar a bola para dentro em todos os jogos. Isso pode custar em números ao brasileiro, que passou por momentos de crítica em Anfield, justamente pela produtividade abaixo de muitos colegas de ofício. No entanto, se o time de Jürgen Klopp consegue ser tão avassalador no ataque, a contribuição do camisa 9 é inegável. E, entre tantos que se destacaram na vitória por 3 a 0 sobre o Manchester City na Liga dos Campeões, o alagoano também merece uma menção especial. Não balançou as redes, como Mohamed Salah ou Sadio Mané. Mas o primeiro tempo perfeito dos anfitriões, invariavelmente, passa por seu trabalho.

Se o trio de ataque do Liverpool funciona tão bem, é por sua movimentação complementar. E a saída de Philippe Coutinho parece ter contribuído neste sentido, para que os três dividissem mais a responsabilidade e tivessem mais espaço para criar. As arrancadas de Salah se potencializam com a maneira que o brasileiro puxa a marcação, da mesma forma que seus recuos permitem as investidas em diagonal de Mané. Mais do que isso, Klopp já deixou claro que a alta voltagem do camisa 9 pesa demais para que a marcação alta imposta dos Reds funcione. Virtudes que se escancararam na demolição imposta sobre o Manchester City na meia hora inicial do jogo.

Firmino teve participação nos dois primeiros gols do Liverpool. No primeiro, recebeu o passe de Salah e bateu para a defesa de Ederson. Mas ainda mais importante foi a forma como continuou atento na jogada, se aproveitando do cochilo de Walker para esticar o pé e rolar ao egípcio, que fuzilou. Já no segundo tento, em um passe que não foi dos mais redondos, também brigou, assim como fez James Milner. O brilhantismo, de qualquer maneira, foi de Alex Oxlade-Chamberlain, em sua bomba de fora da área. E no terceiro, se projetou para pedir o cruzamento de Salah, que saiu na medida para a cabeçada de Mané. Por fim, no segundo tempo não se saiu muito bem, sem dar continuidade aos contra-ataques, substituído aos 26 minutos. Já tinha feito a sua parte.

Firmino finalizou apenas duas vezes – no lance do primeiro gol e em tentativa de fora da área no final do primeiro tempo, para fora. Pode ser pouco, a quem joga em sua posição. Seu muito, todavia, se nota em outras estatísticas. O camisa 9 deu mais dois passes para que seus companheiros arrematassem, incluindo a assistência a Salah. Roubou a bola duas vezes e forçou outros quatro erros do Manchester City. E apareceu em quase todos os cantos do campo de ataque, como é possível notar por seu mapa de ações (imagem abaixo), amplo como não se vê em qualquer outro jogador dos Reds. Esta capacidade do centroavante vale demais para as associações e as triangulações do time. Nesta quarta, puxou a marcação de Vincent Kompany e flutuou às costas dos volantes, desestabilizando a defesa adversária. Melhor para quem vinha de trás, explorando os espaços.

Mesmo sem ser letal como Salah ou ter os lampejos de Coutinho, Firmino vale demais ao sucesso do Liverpool. E, que seus números não sejam tão impressionantes para um time ofensivo como o de Klopp, estão longe de ser ruins. Nesta temporada, são 23 gols e 14 assistências em 44 partidas. Já superou as suas marcas dos dois primeiros anos em Anfield – em gols, igualando a quantidade das primeiras temporadas somadas. Considerando aquilo que ainda deve vir pela frente, tem tudo para ampliar os registros.

A atuação de Firmino contra o Manchester City, por fim, também provoca Tite. Um dos maiores questionamentos sobre o treinador da seleção brasileira na última Data Fifa foi não ter usado de maneira sistemática o camisa 9 do Liverpool. Já nesta quarta, se evidenciou a diferença de momento em relação a Gabriel Jesus – que, apesar de tudo o que fez pela equipe nacional, não vem rendendo em seu clube. Obviamente, há muito de encaixe e de funcionalidade em cada sistema, com Firmino sendo perfeito ao que deseja Klopp. Mas é de se pensar que esta serventia também possa ser útil ao Brasil. De quem muitas vezes era atacado pela mera convocação, o alagoano pede passagem para ser titular às vésperas da Copa do Mundo.