O time do Flamengo que conquistou a Copa São Paulo em 1990 costuma ser bastante exaltado. O esquadrão rubro-negro contava com Djalminha, Piá, Júnior Baiano, Fabinho, Fábio Augusto, Nélio e outros jogadores que sublinharam seus nomes em grandes clubes, não à toa considerado por muitos a melhor equipe de base já visto na Gávea, bem como uma das melhores da Copinha em todos os tempos. Por anos, porém, aquela glória foi uma exceção ao Fla, que demorou 21 anos para retornar à final. Mas, nesta década, o clube se firmou como uma potência na competição. São três títulos desde 2011, tantos quanto o dominante Corinthians. E nesta quinta, data do aniversário da cidade de São Paulo, os garotos flamenguistas tiveram muito o que comemorar. Bateram o São Paulo por 1 a 0 no Pacaembu e celebraram mais uma conquista no principal torneio de base do Brasil.

Em tempos nos quais o Flamengo injeta dinheiro em seu elenco, a base se destaca de maneira importante – reflexos de um trabalho que se consolida na base, unindo captação competente, capacidade de desenvolvimento, bons resultados e talentos em ascensão.. O time de 2011 pode ter ficado aquém das expectativas, no qual o goleiro César se tornou justamente a esperança tardia. No último triênio, entretanto, muito do que se viu no elenco principal já havia se antecipado na Copinha. Lucas Paquetá, Felipe Vizeu e Ronaldo foram três que surgiram com o time campeão em 2016. Vinícius Júnior e Lincoln não chegaram ao mesmo sucesso no certame, mas também participaram da competição em 2017. E neste ano, o trânsito entre os juniores e os profissionais aconteceu durante a própria disputa, auxiliando o início do trabalho de Paulo César Carpegiani na Gávea.

A campanha do Flamengo, por isso mesmo, merece aplausos pela maneira como se manteve firme. O intercâmbio de jogadores e a ponte aérea não interromperam a caminhada. Os rubro-negros se mantiveram invictos. Eliminaram adversários também com tradição na base, a se destacar o movimentado jogo contra a Portuguesa na semifinal. Já na decisão, o embate decisivo contra o São Paulo, coletivamente bastante qualificado, sob as ordens de André Jardine. Contudo, os comandados por Maurício Souza se deram melhor. Mesmo afastando a pecha de favorito desde o início da competição, o Fla se afirmou passo a passo até se consagrar no Pacaembu, contra um adversário fortíssimo.

O gol precoce de Wendel ajudou bastante. Logo aos dois minutos, após cobrança de escanteio de Pepê, o camisa 9 apareceu na área para emendar de cabeça. O resultado dava segurança ao Flamengo, até para encarar o estilo de jogo propositivo do São Paulo, controlando mais a posse de bola. Os tricolores chegaram a acertar a trave pouco depois e partiram para cima, mas o Fla conseguia se fechar. No segundo tempo, os rubro-negros iam travando os são-paulinos da maneira como podiam – pela combatividade, mas também por um excesso de cera. Já a partir dos 30, o que se viu foi uma verdadeira blitz do São Paulo. Foram várias chances, buscando os lados do campo, mas parando no goleiro Yago e na falta de pontaria. Ao final, os flamenguistas suportaram a pressão e, com muita emoção, extravasaram a alegria ao apito final.

A solidez defensiva do Flamengo, sobretudo da dupla de zaga formada por Patrick e Matheus Dantas, foi um grande trunfo para esta conquista. A ausência de Vitor Gabriel na decisão não pesou em relação ao resultado, mas outros destaques puderam aparecer, como Pepê e Hugo Moura. Os espaços no elenco principal talvez não sejam tão numerosos quando a temporada “começar para valer”, após os estaduais. Ainda assim, é possível pinçar alguns para compor elenco e ganhar cancha rumo aos próximos anos. O que se vê neste início de Carioca, com vários garotos participando das duas frentes, não deixa de animar os flamenguistas. Há qualidade a se desenvolver.

O São Paulo, por sua vez, não deve sair da final de cabeça baixa. Como time, ofensivamente, exibiu o melhor futebol da Copa São Paulo. Alguns protagonistas são mais comentados, com razão, especialmente Igor Liziero e Jonas Toró. De qualquer maneira, a integração dos garotos ao sistema tático é importante à própria formação deles rumo ao profissional. Há um amadurecimento neste processo. E podem auxiliar no time de cima, por mais que a fase atual dos tricolores não ajude tanto. Se a questão é a falta de referências na equipe de Dorival Júnior, dá para aproveitar essa ascensão vivida pelos juniores.

A Copa São Paulo deste ano, aliás, apresentou um nível técnico satisfatório. Vários times saem com saldo positivo da competição e com destaques mirando uma chance no nível de cima. Em um momento no qual se questiona a postura de muitas equipes, após um Campeonato Brasileiro travado, a Copinha oferece uma injeção de vigor. O futebol na base, de fato, é bastante diferente – com mais espaço e as diferenças físicas se acentuando. Ainda assim, se observou coletivos bem montados, que valorizaram os talentos individuais e ajudaram a costumeiramente alta média de gols. E cabe destacar a vontade que se viu nesses garotos em busca do triunfo, algo que qualquer torcedor cobra de seu time. Se há uma certa predileção aos pratas da casa, é também por essa energia. A partir de uma transição sem sobressaltos e investimento no desenvolvimento, dá para ficar otimista.