O futebol do interior enfrenta cada vez mais dificuldades. É o calendário insuficiente, os estaduais desgastados, as condições insalubres. Por isso mesmo, ainda que a situação esteja longe do ideal, bate um alento ao notar a paixão que permanece inabalável. Nesta quarta-feira, o Rio de Janeiro viveu o seu principal clássico do interior. O Goyta-Cano é disputado há mais de um século, desde 1914. Goytacaz e Americano já foram ferrenhos adversários no antigo Campeonato Fluminense, se encontraram tantas vezes no Campeonato Carioca, colecionaram histórias no Campeonato Campista. Até pelo Brasileirão já duelaram. Nos últimos anos, porém, a realidade modesta reserva apenas as divisões inferiores do estadual. Mas o embate desta quarta resgatou um bocado do gosto da rivalidade, na primeira partida por mata-matas em 14 anos. O clássico mobilizou Campos de Goytacazes.

O Goyta-Cano desta semana valia pelas semifinais da Taça Santos Dumont, o primeiro turno da segundona carioca. Em jogo único, a torcida do Goytacaz lotou o Estádio Aryzão. A massa alvianil ocupou 70% das arquibancadas, com 5,8 mil ingressos vendidos para a partida – lotação máxima, com as entradas esgotadas dias antes do confronto. E foi difícil para o Americano lidar com a pressão, por mais que as duas equipes ainda estivessem invictas na competição. Igor abriu o placar para Goytacaz, Thiago empatou no segundo tempo e Cleiton decretou a vitória dos anfitriões a 15 minutos do fim. Festa em azul e branco.

Paralelamente, houve até mesmo um “Fla-Flu” no banco de reservas durante o Goyta-Cano. O Goytacaz é comandado por Paulo Henrique, lateral que marcou época no Flamengo e disputou a Copa do Mundo de 1966. O veterano de 74 anos vestiu a camisa do clube por nove anos, somando 437 partidas pelos rubro-negros. Segundo suas próprias palavras, o trabalho no alvianil tem ajudado a superar um drama pessoal, após a morte de seu filho. Paulo Henrique Filho também jogou no Fla e foi técnico dos juniores rubro-negros na conquista da Copa São Paulo de 2011. Aos 52 anos, faleceu em fevereiro, vítima de um AVC. Do outro lado, o treinador do Americano é o ex-zagueiro Duílio, campeão brasileiro em 1984 com o Fluminense.

Com a vitória, o Goytacaz enfrentará o Audax na final do primeiro turno, em Moça Bonita. A equipe de São João do Meriti derrotou o Duque de Caxias na outra semifinal. O vencedor do confronto único estará classificado à fase final da Série B1, na qual participarão quatro times. Serão realizadas duas semifinais e os dois que avançarem à finalíssima também terão assegurado a promoção à primeira divisão do Campeonato Carioca. O alvianil não disputa a elite estadual desde 1992, e chegou a rondar as vagas do acesso na virada da década. Tamanha empolgação é totalmente compreensível.

“O Goytacaz estava adormecido e renasceu das cinzas”, declarou o presidente do Goytacaz, Dartagnan Fernandes, em entrevista ao FutRio. “Um clube que tem essa massa de torcedores não pode ficar na segunda divisão. Botar seis mil pessoas no estádio não é fácil. Diz pra mim um time, tirando os quatro grandes, que colocou pelo menos dois mil torcedores no estádio. Nenhum. Aí você vem para o interior, colocamos seis mil. E se desse mais, teria oito, dez mil”. A nota triste fica apenas para o princípio de tumulto nos arredores do Aryzão.

Abaixo, o vídeo produzido pela Ferj com os gols do Goyta-Cano. Mais do que os lances da partida, vale prestar atenção na empolgação da galera no Aryzão. Fica também a sugestão de leitura da boa matéria do Globo Esporte, relatando os causos vividos na noite especial.