Todos os anos como jogador profissional não prepararam Iniesta para esta sexta-feira. Ao contrário da bola, sempre obediente, as palavras se rebelaram. Recusaram-se a sair. Com olhos marejados e voz embargada, Iniesta precisou dizer uma por vez. Pausas para respirar e olhar para baixo e pigarros para limpar a garganta  intercalaram-se com a declaração. A frase foi, enfim, proferida. A frase que o destemido baixinho sempre temeu que um dia tivesse que dizer: “Esta coletiva de imprensa é para tornar público à torcida que esta temporada será a última”. 

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Iniesta sempre disse que ouviria os recados do seu corpo e seria honesto consigo mesmo e com o clube. Partiria quando tivesse a certeza de que não pode mais servir ao Barcelona no nível de excelência que demonstrou desde que saiu de La Masia no começo do século. Como capitão, tem a responsabilidade pétrea de fazer o melhor para os companheiros e a torcida. E neste momento, na sua avaliação, o melhor é encerrar um casamento que durou maravilhosos 22 anos. 

“Sei o que significa ser jogador desta equipe, para mim a maior do mundo. Sei o que significa e a responsabilidade de ser capitão. Por isso, tenho que ser honesto comigo mesmo e com o clube e fazer o que é melhor para todos. Entendo que minha etapa acaba este ano”, disse. “As pessoas não precisam dizer que querem que eu fique. Sempre deixei claro para o clube que eu queria controlar os estágios da minha vida e ser o mais honesto possível. Esta é a principal razão que me fez entender que meu tempo aqui chegou ao fim”.

Enquanto Iniesta falava, a audiência chorava. Companheiros, sua mulher, funcionários do clube. Pessoas que o viram chegar ao Barcelona aos 12 anos como um garoto e assistem à sua despedida, com 33, como um homem formado e multi campeão. Campeão da Espanha oito vezes (quase nove). Campeão da Europa quatro vezes. Campeão do mundo. 

“Muitos jogadores foram embora. Iniesta irá embora e o Barça continuará vencendo. O futebol segue em frente, como a vida segue em frente”, afirmou. “Não quero enganar ninguém. Terei 34 anos em breve e dei tudo que podia ao longo do ano. Entendo que minha hora chegou pelo simples fato de que o clube que me recebeu aos 12 anos merece o melhor de mim. E em um futuro próximo, não conseguiria dá-lo. Nem física, nem mentalmente. Não me perdoaria por viver uma situação incômoda no clube que me deu tudo. Não mereço isso, e tampouco o clube”. 

A imprensa europeia afirma que o futuro de Iniesta será a China, mas o jogador disse que “ainda há coisas para fechar”. A única pista que deu é que seu próximo clube não será europeu porque, em um último ato de devoção, deseja evitar ao máximo a possibilidade de enfrentar o Barcelona. “Sempre disse que nunca competiria contra meu clube, então todos os cenários fora da Europa são possíveis. Quando a temporada acabar, saberemos o local escolhido”, afirmou.

O único objetivo de Iniesta, quando projetava sua carreira profissional, era triunfar no Barcelona. E isso ele conseguiu. Agora, preocupa-se com seu legado. Quer ser lembrado como um grande jogador de futebol e uma grande pessoa, o que não deve apresentar nenhuma dificuldade. “O futebol passa, e o que resta é o trato que tivemos com as pessoas no dia a dia. Tentei representar este clube da melhor maneira possível e espero tê-lo conseguido”, encerrou. 

Parece que deu tudo certo, Andrés.