Quando visitar o Estádio Aviva, em 14 de novembro, a Dinamarca espera reencontrar os ventos de Dublin que carregam ótimas lembranças à sua seleção. Foi na mesma cidade, quase na mesma data, que a “Dinamáquina” conquistou pela primeira vez a classificação à Copa do Mundo. Em 13 de novembro de 1985, o time comandado por Sepp Piontek entrou em campo no antigo Lansdowne Road – o estádio demolido em 2007 que daria lugar ao Aviva. Diante de 12 mil espectadores, os dinamarqueses golearam a Irlanda por 4 a 1, assegurando a vaga inédita no Mundial. Comemoração que podem repetir diante dos irlandeses, com o duelo na repescagem das Eliminatórias para a Copa de 2018.

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A Dinamarca não era exatamente um azarão no cenário europeu naquele momento. Já tinha incomodado a Itália nas Eliminatórias para a Copa de 1982, antes de se classificar à Euro 1984, interrompendo um hiato de 20 anos longe da fase final do torneio continental. A classificação se encaminhou derrotando a Inglaterra por 1 a 0 em pleno Wembley, com gol de Allan Simonsen cobrando pênalti. Deixando os ingleses pelo caminho, a Dinamite Dinamarquesa faria ótimo papel no torneio, eliminando Bélgica e Iugoslávia na fase de grupos, até cair nos pênaltis para a Espanha nas semifinais. Assim, não era devaneio colocar os escandinavos entre os favoritos no Grupo 6 das Eliminatórias para a Copa do Mundo de 1986, onde figuravam ao lado de União Soviética, Noruega, Irlanda e Suíça. Apenas os dois primeiros colocados carimbariam a classificação ao México.

A campanha da Dinamarca foi boa, mas impressionou menos do que muitos apostavam. Os escandinavos não conseguiram vencer a Suíça em seus dois encontros, com um empate e uma derrota, além de perderem para a União Soviética na visita a Moscou. Assim, chegavam à última rodada sob riscos. Folgando na rodada, os soviéticos já estavam garantidos. A Suíça recebia a Noruega em Luzerna, enquanto a Dinamarca visitava a Irlanda em Dublin. Uma derrota dos dinamarqueses, combinada com uma vitória dos suíços, colocaria tudo a perder. Assim, a pressão aumentou o senso de responsabilidade sobre o time de Sepp Piontek. No primeiro turno, vitória dos escandinavos por 3 a 0, com dois gols de Preben Elkjaer Larsen.

A grama alta de Lansdowne Road, após receber jogos de rúgbi, parecia um empecilho ao futebol intenso da Dinamarca. E o pesadelo veio à mente dos visitantes logo aos seis minutos, quando Frank Stapleton abriu o placar para a Irlanda e arrancou o rugido da multidão nas arquibancadas. Os irlandeses não tinham tanto interesse na tabela, precisando de uma impensável goleada por seis gols de diferença (além da derrota da Suíça) para se classificarem ao Mundial. Ainda assim, havia uma honra para ser mantida.

A resposta da Dinamarca, ao menos, não demoraria a vir. Logo na saída de bola, os escandinavos buscariam o empate. E, a partir de então, despontaria o protagonista daquele jogo: o lateral John Sivebaek, único dos titulares que ainda atuava no futebol dinamarquês, defendendo o VB. O defensor arrancou pela direita e cruzou para o artilheiro Elkjaer igualar. Já no início do segundo tempo, a virada aconteceria. Michael Laudrup avançou e, depois de deixar o marcador no chão, bateu no canto do goleiro.

O melhor da noite viria na sequência. Aos 14 do segundo tempo, Sivebaek anotou um dos gols mais emblemáticos da Era Piontek, demonstrando toda a voracidade da proposta de jogo do treinador. O lateral tabelou com Laudrup e partiu em velocidade ainda da defesa. Deu um pique de mais de 80 metros, cruzando o campo em diagonal e passando por dois marcadores. No bico da grande área, encerrou o movimento potente com um toque sutil, para encobrir o goleiro Jim McDonagh e encaminhar a classificação da Dinamarca à Copa do Mundo. Nos minutos finais, em mais uma jogada criada por Sivebaek, Klaus Berggreen ajeitou e Elkjaer fechou a conta para os escandinavos. A Dinamáquina encerrava a campanha com a liderança do Grupo 6, superando os soviéticos, e com um dos melhores ataques das Eliminatórias. Prévia do que viria em 1986.

Aquele foi o único gol de Sivebaek nos 87 jogos que disputou pela Dinamarca. Na comemoração, sua incredulidade notava-se de longe. E, de fato, o tento mudaria a sua carreira. Entre os presentes em Lansdowne Road estava Ron Atkinson, treinador do Manchester United, que desceu aos vestiários para abordar o astro da noite. Semanas depois, o defensor vestia também o vermelho dos Red Devils. Sua passagem não foi tão espetacular, logo depois negociado com o Saint-Étienne. Contudo, seu único gol pelo clube seria justamente o primeiro da Era Alex Ferguson em Old Trafford.

A trajetória daquela Dinamarca na Copa do Mundo de 1986 seria inesquecível. Enquanto isso, a Irlanda ascenderia a partir de então, comandada por Jack Charlton e chegando ao seu primeiro Mundial em 1990. As histórias voltariam a se cruzar nas Eliminatórias para a Copa de 1994. Sorteadas no mesmo grupo da Espanha, as duas seleções empatariam nos dois confrontos diretos entre si. Já na última rodada, os irlandeses tiveram o gosto da vingança. O empate por 1 a 1 com a Irlanda do Norte em Windsor Park, combinado com a derrota dos dinamarqueses por 1 a 0 na visita a Sevilha, premiou a Green Army com a vaga no Mundial dos Estados Unidos. Com o mesmo número de pontos e o mesmo saldo de gols, os campeões da Euro 1992 foram eliminados pelo número de gols marcados. Agora, em 2017, os dois países têm a chance de ver quem rirá por último nesta repescagem.