Marcelinho Paraíba deu um susto nesta quinta-feira. O meia-atacante de 42 anos, que segue na ativa vestindo a camisa do Treze, precisou ser internado às pressas. Apesar das notícias preocupantes, o veterano já veio a público declarar que está bem, após sofrer uma isquemia – um Acidente Vascular Cerebral de menor intensidade. Seu estado é estável e ele permanece internado no hospital. Mas, em vídeo, prometeu até mesmo ir ao Estádio Amigão, onde seus companheiros farão clássico contra o Campinense pelo Campeonato Paraibano no final de semana. Ficam os desejos para que o velho ídolo se recupere bem.

E, diante dos votos de melhoras, vale relembrar um dos momentos mais marcantes da trajetória de Marcelinho. O meia-atacante desfrutou da idolatria de muitas torcidas, afinal. Em seu auge, brilhou no São Paulo e no Grêmio, campeão da Copa do Brasil de 2001. A conquista o evidenciou rumo ao futebol europeu, assinando com o Hertha Berlim. Foram cinco anos mágicos na capital alemã – colecionando gols, participando de boas campanhas na Bundesliga e disputando as competições europeias. Não à toa, é considerado um dos maiores ídolos alviazuis e recebeu uma massiva homenagem há um ano, com 25 mil torcedores aplaudindo o paraibano em partida de estrelas no mítico Estádio Olímpico.

Pois foi também na transição entre o Rio Grande do Sul e a Alemanha que Marcelinho experimentou o gosto de se destacar pela Seleção. Sua passagem pela equipe nacional foi curta, acumulando apenas cinco partidas. Mas fica na memória por sua contribuição ao penta. Não fosse o brilho do atacante nas Eliminatórias, o Brasil corria riscos de não seguir à Coreia do Sul e ao Japão. Sua estreia no time de Felipão aconteceu em agosto de 2001, quando já tinha se transferido ao Hertha. Participou da goleada por 5 a 0 em amistoso contra o Panamá. Mas nada se compara à noite especial do Olímpico, decidindo contra o Paraguai.

A Seleção vinha em um momento de extrema pressão. Aqueles eram os primeiros compromissos desde a vexatória eliminação para Honduras na Copa América de 2001. Além do mais, o time estava sendo sistematicamente vaiado nas Eliminatórias. Inicialmente, a campanha se desenrolaria apenas no Maracanã e no Morumbi, mas a revolta da torcida paulista pelas atuações ruins contra Colômbia e Peru fez a CBF mudar de ideia. Bandeiras entregues à galera eram atiradas com raiva em direção ao gramado, enquanto gritos de “burro” ecoavam contra Emerson Leão – demitido pouco depois, na volta da Copa das Confederações. Assim, na estreia de Felipão em casa no qualificatório, ele recorreu aos seus. Jogaria diante dos conterrâneos e antigos torcedores em Porto Alegre, no mesmo Olímpico onde havia conquistado tantas glórias com o Grêmio.

Diante do cenário, a escolha de Marcelinho Paraíba tinha a sua razão. Sim, a boa fase referendava o jogador. Mas o treinador também jogava para a torcida tricolor, levando ao estádio aquele que era aplaudido por lá até poucas semanas antes. Era uma alternativa ao ataque, especialmente depois de Romário entrar na lista negra de Felipão, ao negar a convocação à Copa América. Sem que Jardel, Geovanni, Guilherme e Ewerthon agradassem na competição realizada na Colômbia, o Brasil testava nova linha de frente. Marcelinho vestia a camisa 9, acompanhado por Edílson e municiado por Rivaldo. Mais atrás, o comandante escalou seu 3-5-2 com: Marcos, Cris, Juan e Roque Júnior; Belletti, Eduardo Costa, Tinga e Roberto Carlos.

O Paraguai, ainda, estava entalado na garganta da Seleção. No primeiro turno das Eliminatórias, a Albirroja havia vencido por 2 a 1 no Defensores del Chaco, naquela que foi apenas a segunda derrota brasileira na história da competição. O treinador Sergio Markarian contava com um time forte – de Chilavert, Arce, Cardozo e Santa Cruz, todos utilizados em Porto Alegre. Além disso, os paraguaios faziam uma campanha firme rumo a sua segunda Copa do Mundo consecutiva. Ocupavam a segunda colocação no qualificatório, com 26 pontos, tentando perseguir a Argentina. O Brasil tinha cinco pontos a menos, 21, atrás ainda do Equador, e se engalfinhando com Uruguai e Colômbia para fugir do risco.

Com apenas cinco minutos de jogo em Porto Alegre, Marcelinho apareceu. Foi decisivo à vitória brasileira. Após boa jogada de Edílson pela direita, Belletti chegou à linha de fundo e cruzou. Chilavert não achou nada e, nas costas de Cáceres e Sarabia (que compunham a dupla de zaga paraguaia naquela noite, substituindo Ayala e Gamarra), o Paraíba cabeceou às redes vazias. A comemoração marcou. Depois dos tempos de “Paraúcho” no Grêmio, ele ergueu a camisa e, com sua irreverência, indicou qual seria a nova alcunha: Marcelinho Brasil.

Não foi uma partida fácil à Seleção, de qualquer forma. O Paraguai assustou em diversos momentos a meta de Marcos, enquanto os brasileiros não conseguiam concluir da melhor maneira do outro lado. Marcelinho deixou o campo no segundo tempo, substituído por Denílson – o que gerou vaias da torcida gaúcha, insatisfeita com a troca de Felipão. Mas, no fim das contas, o atacante do Betis ajudou a sacramentar o triunfo, iniciando a jogada para Rivaldo determinar os 2 a 0 no placar. Na saída de campo, outra cena notável, com a cusparada de Chilavert no olho de Roberto Carlos. Mas quem riu por último, riu bem melhor.

Mantido por Felipão, Marcelinho participou das partidas seguintes nas Eliminatórias. Ocupou a linha ofensiva com Rivaldo e Élber na derrota por 2 a 1 para a Argentina em Buenos Aires e seguiria com a titularidade contra o Chile, na vitória por 2 a 0 em Curitiba. Por fim, esquentou o banco contra a Bolívia nos 3 a 1 rarefeitos de La Paz, até celebrar a classificação à Copa do Mundo no Maranhão. Edilson, Luizão e Rivaldo resolveram a partida contra a Venezuela no Castelão. O Paraíba participou da festa saindo do banco, com direito a uma caneta em Rafael Dudamel, mas não ajudou a ampliar o triunfo por 3 a 0.

Depois disso, Marcelinho não voltaria a vestir a camisa da Seleção outra vez, nem mesmo nos amistosos preparatórios antes da Copa do Mundo. Felipão seria fiel à maioria dos atacantes que o ajudaram nas Eliminatórias, mas não a ele. Então, o Paraíba viraria Berlinense e aproveitaria sua vida de rei na Alemanha, desfrutando de um moral imenso na Bundesliga. Em sua caminhada de andarilho da bola, pode recontar a grande história protagonizada no Olímpico. O penta também é seu, campeão.