A façanha ficou por um triz. Em toda a história das Copas, somente duas seleções de fora da América do Sul e da Europa conseguiram chegar às semifinais: os Estados Unidos, ainda em 1930, em um Mundial no qual praticamente só participaram times das Américas, e a Coreia do Sul, que jogava em casa e contou com a clara ajuda da arbitragem em 2002. A Costa Rica ficou a alguns pênaltis de entrar para esse grupo, de se confirmar a maior surpresa dos Mundiais. Não foram as defesas de Tim Krul, porém, que impediram os Ticos de entrar para a história com sua campanha invicta.

A equipe que se classificou com certa tranquilidade nas Eliminatórias contava com seu trunfo: o Estádio Nacional de San José, o alçapão onde os costarriquenhos conquistaram todas as suas vitórias no hexagonal final. Mesmo depois de confirmada a vaga, havia a dúvida da capacidade da equipe na Copa, sem poder trazer o caldeirão ao Brasil. Um temor que pareceu menor quando o sorteio dos grupos saiu, colocando três ex-campeões do mundo no caminho da Costa Rica. Pior na preparação, quando dois de seus principais jogadores, Brian Oviedo e Álvaro Saborío, se lesionaram e ficaram ausentes da convocação final.

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Pois os Ticos se superaram. Sem um estádio que intimidasse os adversários ou um jogador que resolvesse as coisas no ataque. Por mais que Keylor Navas tenha sido o grande destaque individual, a principal força da Costa Rica foi o coletivo. O time armado por Jorge Luis Pinto, que derrubou o Uruguai de Óscar Tabárez e a Itália de Cesare Prandelli na base da inteligência, que quase eliminou a Holanda de Louis van Gaal ao anular suas principais forças. O goleiro costarriquenho é candidato fortíssimo a ganhar a Luva de Ouro. Mas, se também houvesse uma “Prancheta de Ouro”, o técnico também estaria entre os favoritos.

A Costa Rica não tinha craques na linha, mas teve tática. E ela foi bem mais importante do que qualquer Cavani, Pirlo, Gerrard ou Robben do outro lado do campo. A forma como Jorge Luis Pinto montou a equipe foi precisa para que os Ticos soubessem suportar a pressão dos mais fortes e tentasse vencê-los em um contragolpe mortal, um erro. Foi assim contra uruguaios e italianos. Diante da Grécia, quando tinha um pouco mais de responsabilidade de atacar, os costarriquenhos fizeram sua pior partida no Mundial. E contra a Holanda, o pé de Cillessen evitou aquele que poderia ser o gol da classificação – embora Navas e as traves da Fonte Nova tenham sido bem mais decisivos na partida.

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Em seu esquema com cinco defensores, a Costa Rica pode até ter se fechado demais na partida. Mas qual a melhor arma para um time inferior tecnicamente do que a obediência tática? Foi a chave. Foi a terceira seleção que mais desarmou e também a terceira que mais interceptou bolas neste Mundial. E o que mais deixou os adversários em posição irregular – foram 41 impedimentos contra os costarriquenhos, 13 só da Holanda, enquanto a Alemanha, segunda no quesito, teve 17 impedimentos a seu favor. Mostra uma seleção que joga no seu limite, no limite da regra. E que chegou ao limite na Copa do Mundo.

Não dá para dizer que o acadêmico Jorge Luis Pinto, ex-estudante da USP, é um gênio da bola. O técnico rodado por equipes da América do Sul já tinha passado pela Costa Rica em meados dos anos 2000, quando foi demitido depois de poucos jogos por causa da falta de resultados. Desta vez, porém, tinha um plano. E um elenco empenhado a cumpri-lo, através de muito esforço. Keylor Navas foi o protagonista, Bryan Ruiz e Joel Campbell definiram no ataque, mas não dá para diminuir os méritos de Gonzalez, Umaña, Tejeda e outros que suaram muito. Tomar só dois gols em cinco jogos, sendo um de pênalti e outro no rebote do goleiro, comprova a eficiência, por mais que também tenha havido um pouco de sorte nessa mistura.

No sonho mais louco dos costarriquenhos em meio a essa maré de confiança, quem sabe, alguém acreditou mesmo que a seleção pudesse ficar com a taça. Não deu. Ainda assim, a Costa Rica saiu dessa Copa como uma verdadeira campeã.