Seis Copas consecutivas. Seis eliminações na mesma fase. Seis competições nas quais a seleção mexicana esteve próxima de igualar sua melhor campanha em Mundiais, mas caiu no momento derradeiro. Em 2014, como vem sendo desde 1994 e por seis edições consecutivas, a Tricolor esbarrou no estigma das oitavas de final. Uma eliminação que doeu aos mexicanos. Nem mais nem menos que nas outras cinco. Apenas diferente. Seja pelas poucas expectativas, pelo risco de ficar fora da Copa já nas Eliminatórias ou pela vitória parcial sobre os holandeses até pouco antes do fim do jogo.

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Mas até que ponto a campanha dos aztecas pode ser considerado um fracasso? De um time preparado para o pior (ficar fora de um Mundial depois de 24 anos), Miguel Herrera moldou um grupo guerreiro. Uma equipe capaz de se impor de forma categórica sobre Camarões e Croácia e enfrentar de igual para igual favoritos como Brasil e Holanda, estando em ambas as partidas bem próximo de superar os rivais. Mais do que isso: um time que soube empolgar e, pela primeira vez nos últimos anos, trouxe grandes expectativas aos mexicanos.

Não dá para desconsiderar o trabalho de “Piojo” à frente da seleção. Barrando alguns atletas antes incontestáveis (“Chicharito”) e tirando o melhor de alguns outrora tidos como fracasso (Giovani dos Santos), Herrera encontrou um estilo próprio, versátil e perigoso de ameaçar os grandes, antes uma missão impossível, e superar os adversários mais fáceis, uma dificuldade mais recente adquirida no Hexagonal decisivo da Concacaf.

Nem tudo foram flores. A derrota e a consequente eliminação vieram a partir de um resultado já praticamente garantido, uma falha constante nas últimas competições internacionais. Após o gol, os aztecas estiveram próximos de marcar o tento que praticamente selaria a classificação. Não fizeram e pagaram o preço (caro) por um recuou excessivo. Vale lembrar que antes mesmo do empate, Ochoa realizara duas defesas difíceis para manter os mexicanos como o time menos vazado do torneio.

O pênalti da derrota também foi de uma imaturidade inadmissível para um capitão com quatro Mundias e 124 convocações no currículo. Ainda que Robben tenha valorizado o lance em demasia, fica claro pela repetição das imagens a pisada de Rafa no holandês em uma posição na qual cercar e cobrir o passe talvez não fosse apenas uma, mas a única opção aos 49 da segunda etapa. Um bote a essa altura em um duelo eliminatório empatado de Copa do Mundo. É Copa do Mundo, amigo! Contudo, só que não assistiu a partida contra a Croácia (ok, era ao mesmo tempo do jogo contra o Brasil) pode criticar o capitão azteca. A vibração, raça, vontade e até mesmo técnica (que nunca foi seu forte) foram imprescindíveis para garantir a vaga nas oitavas e o bom desempenho azteca em solo brasileiro.

Além dele, um Ochoa muito menos espetaculoso e muito mais eficiente (e seguro) foi a base de um time que tem tudo para crescer para o próximo ciclo. Alguns medalhões como Rafa Márquez, Salcido e “Maza” Rodríguez dificilmente jogarão mais um Mundial, mas o setor ofensivo da Tricolor conta com um número inédito de promessas e mesmo jogadores já amadurecidos que têm margem para duas ou três Copas.

Herrera tem tudo para seguir no comando da seleção. Já manifestou interesse e é praticamente uma unanimidade entre imprensa, dirigentes e torcedores, algo raro em solo mexicano. Não só pelo que fez no América, devolvendo as águias ao topo da Liga MX, mas por ter resgatado a verdadeira paixão nacional.

“Jugamos como nunca, perdimos como siempre”. Foi a manchete que estampou praticamente a totalidade dos periódicos mexicanos no domingo e nessa segunda. Compreensível. Até mesmo pela perspectiva de mais quatro anos de domínio continental, mas distante do sonho mundial. Ainda mais em uma Copa do Mundo na qual as surpresas parecem ter dado as caras e o nível de competitividade permite sonhar longe. Fator que vem sendo muito bem aproveitado pelos arquirrivais Costa Rica e Estados Unidos. Mas só quem não acompanhou os momentos turbulentos e as incógnitas vividas nos últimos dois anos pela Tricolor pode dizer que essa Copa do Mundo foi um fracasso para o México. Não foi. E o saldo está longe de ser negativo.