As lembranças do fiasco de Knysna contrastam com o ambiente tranquilo vivido pelos Bleus na Copa-2014. Se há quatro anos reinavam a bagunça, a guerra de egos e a falta de pulso dos comandantes, desta vez a concentração em Ribeirão Preto em nada lembra aquele clima soturno. Os franceses estão reclusos e pouco saem de sua fortaleza no interior paulista, mas ao menos transparecem uma relação bem melhor e que se reflete no comportamento e nas atitudes dos atletas em campo.

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Obviamente, ainda prevalece aquela visão estereotipada de que os franceses são esnobes e mau humorados, reforçados pelas respostas atravessadas de Didier Deschamps – ou pelo fato de o treinador odiar quando lhe fazem perguntas em inglês. Por trás desta figura aparentemente arrogante, sobressai a figura de um líder essencial para a reconstrução dos Bleus. Assim como teve papel fundamental ao ostentar a braçadeira de capitão na Copa-98, DD agora encabeça este processo de limpeza da imagem da seleção.

Esse processo de mutação já teve seus bons resultados vistos em campo no Mundial. A estreia contra Honduras poderia ser um desastre, já que a ausência de Franck Ribéry levantaria dúvidas quanto à capacidade do time. Claro que o fato de enfrentar um adversário frágil e que inda teve um jogador expulso contribuiu de forma decisiva para o sucesso dos Bleus, mas os anos anteriores também reservaram rivais bem acessíveis e a França caiu diante deles de forma vergonhosa.

As mudanças ocorreram em todos os níveis, não apenas no que se refere à comissão técnica da seleção e aos jogadores. A saída de Jean-Pierre Scalettes do comando da Federação Francesa oxigenou a entidade. Noël Le Graet, atual presidente da FFF, teve sua parcela de culpa no fiasco da Euro-2012 ao manter Raymond Domenech como treinador após o Mundial-2010. Melhor nem gastar palavras para definir o desserviço que o treinador prestou à seleção enquanto ocupou o cargo.

Patrice Evra, um dos remanescentes da greve do ônibus na África do Sul, comentou com os repórteres em Ribeirão Preto sobre o clima bacana existente no atual grupo. Há quatro anos, ele foi um dos símbolos negativos daquele lenço rachado entre os jogadores, o treinador e dirigentes. O comando era tão fragilizado que qualquer um se julgava dono da verdade e queria se impor diante dos demais. Com um Domenech sem qualquer controle sobre seus ‘comandados’ e com Escalettes sem governar seu próprio nariz, ficou fácil organizar um motim temperado com pitadas de ego elevado.

Às vésperas de completar quatro anos do vexame em Knysna, vemos uma mudança radical nos costumes da seleção. Deschamps deixa muito bem claro quem manda ali dentro. Sua obsessão quase militar pela disciplina foi muito bem compreendida por todos. O treinador não se impôs pelo medo, mas sim pela confiança e coerência em seu discurso, qualidades muito valorizadas pelos jogadores – que sentem firmeza nesta meritocracia.

O melhor exemplo destes novos tempos nos Bleus ficou por conta da ausência de Samir Nasri na lista final de convocados. Os próprios jogadores estão cansados dos ataques de estrelismo do meia do Manchester City, cuja presença semearia a discórdia e quebraria a lógica do discurso de Deschamps sobre sua ‘família’. Nasri ficou fora e Deschamps mostrou que está com o grupo na mão. Em campo, os atletas também demonstraram estar fechados com seu técnico.

Ataque em alta

Há um tempo nem tão remoto assim, a França vivia uma anemia crônica em seu ataque. Em setembro, os Bleus amargaram um empate sem gols contra a frágil Geórgia e completaram cinco partidas sem balançar as redes. Deschamps via o time exibir uma péssima marca: desde que ele havia assumido o cargo de treinador, a seleção havia marcado parcos onze gols em treze partidas. Karim Benzema se tornou o símbolo desta seca, com intermináveis 1222 minutos sem marcar pela equipe nacional.

Os tempos mudaram e de forma radical. Em seus dez últimos jogos, os franceses marcaram nada menos do que 34 gols. Alguns motivos levaram a esta mudança completa. A primeira, e mais notória, está no próprio Benzema. O duelo contra Honduras provou como o atacante está em plena forma e confiante. E Deschamps teve influência direta nisto, ao colocar Benzema no banco de reservas em algumas oportunidades como forma de mandar um recado ao jogador.

A seleção francesa também conseguiu sobreviver sem Franck Ribéry. Não se trata de esquecer todas as boas partidas disputadas pelo meia-atacante do Bayern de Munique. Os Bleus reduziram bastante a dependência em torno do jogador, que por muito tempo era a única válvula de escape do time. Bastava alguma dificuldade em enfrentar uma defesa mais fechada, lá ia a bola para os pés de Ribéry como se apenas ele fosse o salvador da pátria. Isto facilitava a marcação adversária e minava de vez qualquer chance ofensiva da equipe.

Mesmo se Ribéry viesse ao Brasil no melhor de sua forma, ele teria papel fundamental para o sucesso dos Bleus, mas não seria a única alternativa ofensiva. Antoine Griezmann entrou muito bem no time contra Honduras. Seu estilo de jogo não é tão veloz e insinuante quanto o de Ribéry, mas seu toque de bola traz maior cadência ao ataque tricolor – o que compensa a inexperiência em grandes competições.

Outro destaque contra Honduras, Mathieu Valbuena também cresce quando veste a camisa azul. Após uma temporada de pouco brilho no Olympique de Marselha, ele consegue se destacar nos Bleus por um fator: Deschamps o deixa completamente livre para jogar. A tarefa ainda é facilitada pela intensa movimentação de Benzema e Griezmann, que voltam para buscar o jogo e não deixam o meia tão isolado ou sobrecarregado.

E, claro, esta liberdade só pode dar certo quando o sistema defensivo funciona bem. A se julgar pela dupla Matuidi e Pogba, Valbuena terá poucas preocupações se deve voltar tanto para ajudar na marcação. O próprio Pogba tem sido essencial no apoio ao ataque, com suas subidas constantes e equilibradas. Isso sem contar com os passes longos de Cabaye, outra alternativa para abrir defesas muito fechadas. Com tantas opções, a França está muito bem servida no ataque.