O Sporting continua em uma situação incerta, justamente em um momento decisivo da temporada. A crise que se deflagrou entre o presidente Bruno de Carvalho e o elenco, entre críticas trocadas nas redes sociais, não impactou diretamente em campo como se indicou. Apesar da suspensão dos jogadores, anunciada pelo mandatário na última sexta-feira, as duas partes se reuniram e momentaneamente apararam as arestas, permitindo que o técnico Jorge Jesus contasse com suas principais peças no duelo contra o Paços de Ferreira neste domingo. Após a vitória por 2 a 0 no Estádio José Alvalade, entretanto, o imbróglio parece longe de uma resolução.

O jogo escancarou ainda mais as rusgas. Apesar da reunião no sábado, Bruno de Carvalho resolveu publicar outro texto polêmico em seu Facebook, três horas antes da partida. Disse que no encontro ficou clara “a total lealdade do treinador perante o presidente” e que “os grandes mentores de toda esta questão são jogadores que, há anos, exigem sair do clube de todas as maneiras e feitios”. O mandatário ressaltou também que tem toda liberdade para agir, movido pelos interesses do Sporting e pelos votos dos sócios que o elegeram. “Cheguei à conclusão que a suspensão imposta aos atletas não teria efeito de castigo, mas apenas serviria para ser mais uma desculpa para que não pudessem cumprir as suas funções e as obrigações para que são pagos”, pontuou.

Antes que o jogo começasse, nas arquibancadas do José Alvalade, ouviram-se vaias a Bruno de Carvalho e viram-se cartazes pedindo a renúncia do presidente, assim como lenços brancos em protesto. Já a torcida organizada Juventude Leonina cobrava mais empenho dos atletas, alinhando-se com o dirigente. Quando a bola rolou, os jogadores fizeram a sua parte. Bas Dost e Bryan Ruiz anotaram os gols do triunfo por 2 a 0. Na comemoração do segundo, inclusive, titulares e reservas se uniram em um abraço coletivo – escancarando a irmandade diante da queda de braço com o mandatário. Bruno de Carvalho, que assistiu à partida no banco de reservas, como tem sido seu costume, permaneceu isolado.

Já depois da vitória, o técnico Jorge Jesus preferiu se distanciar das afirmações do dirigente, garantindo a sua autonomia para comandar o time. “É para os torcedores que jogamos. É com os torcedores e com os jogadores que partilhamos o sentimento de poder levar o nome do Sporting mais alto”, declarou. “Não vi o post. Não o li. Desde o primeiro dia que o meu lado é o Sporting Clube de Portugal. E esse também é o lado dos jogadores. Dentro de toda a polêmica que houve depois do jogo de Madri, os jogadores deram uma resposta profissional: sabem que à frente deles há uma instituição. Fizeram o que tinham de fazer. Não foi fácil para ninguém. Não foi para os jogadores nem para o treinador. Mas a minha responsabilidade é defender os interesses do Sporting”.

Por fim, a segunda-feira continuou agitada para o Sporting. Durante a manhã, as ações do clube foram congeladas. Isso acontece quando o título da empresa tem uma variação de 10%, em episódio que demonstra a falta de confiança dos acionistas no momento político do clube – o que se corroborou pelas declarações de Jaime Marta Soares. O presidente da Mesa da Assembleia Geral dos leoninos indicou que não há paz no Sporting: “Os clubes ficam e as pessoas passam. Ninguém tem o direito de pensar que o clube é propriedade particular. Por isso, na minha opinião, estão esgotadas as hipóteses de manutenção da atual presidência, para o Sporting retomar a paz que se impõe e se deseja. O tempo urge e eu espero que Bruno tenha consciência disso”.

Em contrapartida, Bruno de Carvalho comprou mais uma briga. Menosprezou o poder da Mesa da Assembleia Geral e disse que ele pedirá à diretoria para realizar uma nova Assembleia Geral. O presidente ainda acusou Jaime Marta Soares de ter criado uma confusão no Sporting, ao conduzir de maneira infantil e incompetente as suas funções. “Este foco de problemas vem agora ameaçar-me. Eu tinha-o avisado que mais uma dele e quem pediria a sua saída seria eu, e não só os sócios, como o fizeram de forma esmagadora. Só o mantivemos porque eu o pedi”, declarou.

Ainda nesta segunda, ao menos, a maior fonte da balbúrdia no Sporting se silenciou. Bruno de Carvalho resolveu desativar sua conta no Facebook e, assim, deixa de polemizar suas opiniões aos quatro ventos. De qualquer forma, o problema a se resolver internamente é enorme, tanto pelas faíscas na direção quanto em relação ao elenco. Bruno de Carvalho permanece como a principal liderança dos leoninos, até pelo vazio que existe na oposição – o que fica claro pelos 90% de aprovação em sua recente proposta de mudança estatutária. Todavia, que não surja alguém para ocupar a lacuna, há uma fratura evidente. Principal imputado, o presidente é também o principal causador.

Enquanto os entraves não se resolvem, o Sporting continua buscando seus objetivos em campo. Terceiro colocado no Campeonato Português, está a seis pontos do líder Benfica, restando cinco rodadas para o fim da competição. Já na quinta-feira, o compromisso é pela Liga Europa. Depois da derrota por 2 a 0 para o Atlético de Madrid, os sportinguistas tentam reverter sua situação nas quartas de final do torneio continental. A eliminação no Estádio José Alvalade só amplificaria uma crise provocada de maneira tão banal.