Enfim, um jogador importante do futebol brasileiro resolveu quebrar o silêncio e se posicionar contra a influência das torcidas organizadas dentro dos clubes. Fred precisou ser intimidado e ameaçado para tomar posição, mas isso não desmerece sua iniciativa. Enquanto o tema tinha sido tratado apenas superficialmente pelo Bom Senso FC, o centroavante da Seleção e do Fluminense foi bem mais incisivo em suas colocações. Já é um bom começo.

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O estopim para Fred aconteceu no último final de semana, quando “um bando de marginais, travestidos de torcedores, foi para a porta das Laranjeiras ameaçar os jogadores do time”. O episódio motivou o artilheiro a publicar uma carta em sua página no Facebook, condenando a atitude e trazendo alguns pontos de questionamento. Em suma, o ataque feito pelo astro é bastante válido, embora dê alguns deslizes em alguns pontos – como, por exemplo, quando ele sugere a ameaça de “políticos comprovadamente corruptos”, como um serviço bem maior prestado à sociedade (as pessoas podem e devem protestar, podem e devem cobrar por justiça, mas não cabe a ela definir e executar as punições), ou em alguns trechos nos quais ele sugere que os torcedores não podem nem cobrar (lógico que podem, mas longe da forma exagerada como fazem).

Entretanto, algumas palavras de Fred são importantes. O atacante acerta quando traz à luz alguns questionamentos específicos sobre a situação – como o próprio papel das torcidas organizadas, que nem sempre é o de apoiar o time incondicionalmente nos jogos.  Se essa iniciativa originar um debate mais do que necessário entre os próprios personagens do futebol, não apenas na imprensa ou entre os próprios torcedores ‘comuns’, será um golaço do artilheiro.

Abaixo, dois parágrafos que eu considero mais importantes para a reflexão. A carta na íntegra pode ser conferida clicando aqui.

Quantos “Kevins” ainda terão de pagar com suas próprias vidas? Quantos centros de treinamentos terão de ser invadidos? Mais quantos inocentes terão de ser espancados até a morte? Ou será que somente quando um jogador for espancado alguma providência mais enérgica e eficaz será tomada contra esses bárbaros? Ficam as perguntas. O esvaziamento dos estádios de futebol não pode ser uma mera coincidência. As bandeiras que antes tremulavam nas arquibancadas, hoje se transformaram em armas brancas nas mãos desses bandidos.

Quando a imprensa publica tais atos de agressão e vandalismo cometidos pelas organizadas, essas matérias são exibidas entre elas como troféus e, quem os pratica, são tratados como “heróis” internamente. O enfoque deveria ser outro. É preciso questionar os prós e os contras dessas facções, que exploram de maneira ampla a imagem dos times sem pagar royalties; são as principais responsáveis pelas mortes nos dias de jogos e perdas de mandos de campo por seus times; possuem marginais infiltrados; afastam os verdadeiros torcedores dos estádios; e que, por fim, ganham ingressos e até transporte gratuito das diretorias da maioria dos clubes, que insistem em manter uma relação obscura com esse tipo de organização. 

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