Havia um fusca estacionado à frente da Arena Pernambuco, vazia depois que o calendário de partidas de Copa do Mundo terminou para ela. Qualquer carro que passasse buzinava, e Sebastião Lourenço de Morais Filho, dono do Fusca, fazia questão de cumprimentar todos eles. Um motoqueiro até parou para tirar uma foto. Chamou a atenção, mas Sebastião está acostumado. É assim desde que decidiu transformar o seu carro no Fuleco, mascote do Mundial.

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Conhecido como “Fuleco-móvel”, o Fusca 1968 foi comprado por Sebastião entre o final dos anos 1980 e começo da década seguinte. Ele não sabe especificar a data, mas lembra que foi em Osasco, na região metropolitana de São Paulo. A pintura foi ele mesmo que fez. “Tem algumas falhas, mas ninguém percebe. Depois coloquei uns adesivos para deixar mais legal”, explica.

O que levou este homem de 62 anos, com um respeitável bigode bem alinhado, uma camiseta com as cores da seleção brasileira, e um boné que combina com o automóvel, pintar o seu Fusca com as ilustrações do Fuleco? Esta é a terceira vez que transforma seu carro em alguma coisa. Na primeira, um outro Fusca ganhou o número e as linhas de Herbie: O Fusca Turbinado, um filme que fez parte da infância de Sebastião, que começou em Porto Alegre antes da família dele se mudar para o Recife. É usado pelo filho Leonardo.

Seu Sebastião e o seu Fuleco de lata (Foto: Bruno Bonsanti/Trivela)

Seu Sebastião e o seu Fuleco de lata (Foto: Bruno Bonsanti/Trivela)

Mas ele queria fazer alguma coisa relacionada à Copa do Mundo. Trabalhou nas obras da Arena Pernambuco desde o início da construção. Trata das instalações hidráulicas e hoje em dia faz a manutenção. Tentou pintar o carro como uma bola de capotão – essa, mandou fazer – antes de colocar as mãos na massa e produzir o “Fuleco-móvel”, cujo assoalho imita um campo de futebol, com grama sintética. “Ainda chama muito a atenção. As crianças principalmente adoram. Sempre tiram fotos”, conta.

Apesar do carro ser velho, Sebastião, fascinado por carros antigos, como comprova mostrando adesivos do Clube do Fusca da Bahia e de outras reuniões de aficionados por antiguidades automotivas, usa o seu Fuleco para ir ao trabalho. Infelizmente, por causa das restrições da Fifa, não pode fazer a festa dos turistas estrangeiros durante os jogos da Copa do Mundo. “Eu o estacionei longe daqui, mas nos jogos estaduais eu entro no estádio com ele”, diz.

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Sebastião é viajado. O trabalho, que exerce desde os 16 anos e aprendeu por meio de cursos profissionalizantes e técnicos, o levou a diversos lugares. Praticamente qualquer cidade mencionada pela reportagem tem um prédio cuja instalação hidráulica foi realizada por ele: shoppings centers em Angola, o Aeroporto de Guararapes, no Recife, e o Shopping Paulista, em São Paulo, são alguns exemplos.

O Fuleco-Móvel (Foto: Bruno Bonsanti/Trivela)

O Fuleco-Móvel (Foto: Bruno Bonsanti/Trivela)

E algumas vezes ele pega estrada com o Fusca-Fuleco sem nenhum medo de ser feliz. “Quando eu trabalhava na Bahia, ele ia e voltava e nunca me deixou na mão”, conta. Em outra ocasião, encarou três dias de viagem para São Paulo e voltou, sem nenhum problema. Cuida do carro como se fosse uma extensão do seu próprio corpo. “Eu troco o que tem que trocar e nunca deixo pegar chuva”, diz. “Quando ele fica na chuva, sinto como se eu mesmo estivesse tomando chuva”.

O carro anda bem, sem nenhum barulho de coisa quebrada ou de motor falhando. Não vai muito rápido porque, segundo Sebastião, o Fusca não foi construído para passar dos 80 quilômetros por hora. “Ele chega a qualquer lugar que outro carro chegue, mas chega um pouquinho depois”, justifica. E é verdade. Na estrada que liga a Arena Pernambuco a São Lourenço da Mata, andou pelo lado direito, passeando e olhando os outros carros ultrapassarem-no. Não tem ar condicionado, rádio com entrada para MP3 ou direção hidráulica, mas o “Fuleco-móvel” transborda carisma, como o seu dono.