Os últimos anos da carreira costumam ser claudicantes à maioria absoluta dos jogadores de futebol. Felizardos são aqueles que continuam em uma grande equipe, que disputam títulos, que desfrutam da idolatria. E no início da atual década, Fumagalli parecia apenas mais um a se misturar à multidão. Era um atleta em declínio. Pois, olhando em perspectiva, é possível dizer que os últimos seis anos foram os mais importantes de Fumagalli. São aqueles que realmente eternizam o seu nome na memória de uma torcida, grata por tudo o que proporcionou no Brinco de Ouro. O camisa 10, em tese, retornava ao Guarani para pendurar as chuteiras. Porém, não se contentou com o mero fim. Resgatou o orgulho do Bugre e, somente agora, aos 40 anos, reconhece que chegou a hora de parar. Missão cumprida com uma adoração incontestável.

Antes de sua última passagem pelo Guarani, Fumagalli talvez fosse lembrado como um “jogador folclórico”. Talvez como um meia de técnica acima da média, que não vingou nas principais oportunidades que teve. Talvez como um atleta de relativo sucesso, que conseguiu protagonizar conquistas sobretudo em sua passagem pelo Sport. Mas ainda que alguns torcedores o carregassem em boas lembranças, nada no nível de exaltação que viveu no Brinco de Ouro da Princesa. Foi uma redenção, tanto ao camisa 10 quanto ao Bugre.

Fumagalli, afinal, já tivera uma boa passagem pelo Guarani. Esteve por lá entre 2000 e 2001, com relativo sucesso individual, mesmo que coletivamente o desempenho do clube estivesse abaixo de outras campanhas históricas. Não à toa, o meia seguiu ao Corinthians depois disso. Mas, em uma carreira de andarilho que zanzou por diversos estados e mesmo por outros países, o camisa 10 acabou retornando ao Brinco de Ouro no final de 2011. Não era o seu clube formador, a Ferroviária, de onde despontou ao Santos na adolescência. Ainda assim, com os bugrinos o veterano tinha sido feliz, e não custava buscar um último lampejo por lá.

O ano de 2012 acabou histórico, ao Guarani e a Fumagalli. O Bugre chegou à decisão do Campeonato Paulista pela segunda vez, e muito graças aos gols do veterano, que acabou eleito entre os melhores da competição. Depois disso, o camisa 10 até deixaria Campinas para um breve empréstimo ao Santa Cruz do Pará, em 2013. De qualquer maneira, já tinha fincado raízes no clube e abraçado a causa de honrar a grandeza de outrora dos bugrinos. Sofreu junto com a torcida, mas, na medida do possível, a deixou extremamente satisfeita.

Em 2012, Fumagalli caiu com o Guarani para a Série C do Campeonato Brasileiro, mas perseverou. Foram três campanhas consecutivas na terceirona sem sequer avançar aos mata-matas e, pior, até flertando com o rebaixamento em 2014 – quando os atrasos salariais quase levaram o elenco à greve e culminaram na renúncia do presidente. Nem por isso o capitão abandonou o barco. Nem por isso ele deixou de se dedicar. Mais do que referência técnica, se transformou na âncora da torcida. O homem em quem podiam confiar. O homem que abdicava de uma vida mais tranquila para seguir vestindo aquelas cores.

E o ápice chegaria em 2016. Fumagalli orquestrou o Guarani naquela Série C. Gastou a bola na construção de jogo e, com frequência, balançou as redes. Já no confronto do acesso, contra o ASA de Arapiraca, o decano teve papel decisivo. Celebrou o retorno à segundona e ainda comandou uma virada colossal contra o ABC nas semifinais – quando, depois da derrota por 4 a 0 em Natal, o Bugre arrancou um inimaginável 6 a 0 com três gols do veterano. O título não veio, mas nada que diminuísse a grande história.

“Sou muito grato ao Guarani. Estourei aqui para o futebol. E sempre digo que sou um iluminado aqui. Completei 250 jogos. Então, tudo isso é motivo de orgulho. Chegar nessa idade jogando em alto nível e em um clube enorme como o Guarani é uma honra muito grande”, disse ainda o jogador, na época. Sua missão, todavia, não estava completa. Em 2013, o Guarani também foi rebaixado à Série A-2 do Campeonato Paulista. Fumagalli não sossegou enquanto não viu o Bugre de volta à elite estadual.

O roteiro, aliás, foi parecido. O Guarani atravessou quatro anos de coadjuvantismo na segundona estadual, sem passar às fases finais. Na atual campanha, entretanto, a história foi outra. Melhor na fase de classificação, o Bugre superou o “clássico” contra o XV de Piracicaba para confirmar o retorno triunfal. Fumagalli não era mais titular, mas continuou como uma liderança. E sentiu o objetivo completo em meio ao êxtase no Brinco de Ouro. Emocionado, o ídolo se ajoelhou no gramado e levantou as mãos aos céus, comemorando diante da torcida. Enfim, era hora de admitir a aposentadoria, postergada anteriormente justo por sua ambição de recolocar os campineiros na primeira divisão do Paulistão.

Neste sábado, por fim, aconteceu a festa final de Fumagalli. Ainda era um jogo oficial, com a final da Série A-2 em jogo único contra o Oeste. Quase 18 mil estiveram presentes no Brinco de Ouro, o maior público do estádio nos últimos oito anos. E o Guarani tratou de ditar o ritmo do baile. Goleou os visitantes por 4 a 0, em noite de golaços. O velho camisa 10 entrou apenas para os minutos finais. Teve o gosto de uma última ovação, assim como pôde erguer a taça. O simbolismo por tudo o que entregou ao clube que mais amou, nas alegrias e nas tristezas, depois de 307 partidas e 90 gols.

“Esse jogo foi mais marcante. Joguei menos, não fui o protagonista como em outras temporadas. Estava decidido a encerrar a minha carreira ano passado, mas uma coisinha aqui dentro falava que não era o momento. Esse momento estava guardado. Não ajudei tanto dentro de campo, mas deixo um legado para o Guarani, principalmente para os mais jovens. Era dessa forma que eu esperava fechar minha carreira”, disse, em meio à comemoração.

Distante dos gramados, Fumagalli continuará no Guarani. O projeto é que se torne o novo coordenador de futebol. De outra maneira, tentará recolocar os bugrinos também na elite do Brasileirão. E que ainda veja outros craques do passado à sua frente na lista de maiores ídolos do Bugre, até pelas glórias mais reluzentes, não se nega o seu lugar entre os grandes do Brinco de Ouro. Em um clube no qual as lendas mantêm um laço afetivo perceptível (como Careca, Evair, Amoroso, Neto, Zenon e tantos outros), o camisa 10 sustenta esta história. Dentro de suas possibilidades e da atual realidade, Fumagalli experimentou uma idolatria que fica gravada.