Torcedor visita o túmulo de Senna no décimo aniversário da morte do piloto (AP Photo/Victor R. Caivano)

O futebol é maior que tudo, mas não tem (e dificilmente terá) um Senna

“Pelé sempre será lembrado como o segundo melhor jogador de futebol. Ele está atrás de Maradona. Ele não é nem o melhor esportista de seu país. Esse posto é do Ayrton Senna.”

Maradona é uma pessoa bastante suspeita para falar de Pelé. A rixa entre os dois maiores camisas 10 da história é antiga, e o argentino, sempre que pode, cutuca o brasileiro e se coloca como o melhor jogador da história do futebol. Por isso, essa declaração, dada em janeiro deste ano, não teve grande impacto. Mas sua menção a Senna merece uma reflexão.

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Pelé é o maior jogador do maior esporte do mundo, do único esporte realmente global. Ou o segundo maior jogador do maior esporte do mundo, se você acha que Maradona está acima dele. Por isso, é fácil argumentar que Pelé é o maior atleta que o Brasil já teve. E é. Mesmo com o tempo e suas declarações atrapalhadas apagando um pouco a imagem do craque, nenhum esportista brasileiro misturou desempenho espetacular, reconhecimento mundial e repercussão quanto o Rei. Mas Ayrton Senna tem algo que nem os grandes nomes dos gramados têm: a idolatria incondicional, a aura de mito.

A questão é que, por mais dominante que seja o futebol para o público e a mídia, o grande ídolo do esporte brasileiro será um piloto de Fórmula 1. E isso tem ligação com o modo como se construiu a imagem de Senna e também com o futebol em si.

O brasileiro tem uma forma desconfiada de lidar com tudo, sobretudo o que exija sua dedicação, sua entrega, sua crença. Uma pessoa, para merecer idolatria, precisa ser perfeita. E não é fácil chegar a essa perfeição, porque até as virtudes viram defeitos se não parecerem sinceras (já percebeu como, muitas vezes, a hipocrisia parece ser o pior defeito que um ser humano pode ter no Brasil?).

Obs.: é o contrário do argentino, que parece incorporar o clima do tango e prefere idolatrar figuras humanas, com histórias dramáticas e uma trajetória cheia de percalços. Como Maradona.

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Pelé é uma figura imensa no esporte, mas paga desde o fim de sua carreira por se mostrar falível. Piquet – tão tricampeão mundial quanto Senna – também nunca escondeu suas características que podem se tornar críticas: falastrão, malandro, debochado. Ayrton Senna não teve esse processo. Mesmo durante sua carreira, ele parecia uma pessoa acima do comum.

“Ele não apenas ganhava uma corrida. Tudo era grandioso, épico, patriótico, quase uma experiência religiosa”, comenta Flávio Gomes, comentarista de Fox Sports e diretor do site Grande Prêmio. “Ele vendia uma imagem de detentor exclusivo de virtudes. Se ele fizesse isso e terminasse as corridas em oitavo, todo mundo ia malhar. Mas ele era muito bom e ganhava.”

A natureza da temporada de cada esporte também contribuiu para tornar o potencial de mitificação de Senna maior que a de um futebolista. A F-1 tem de 16 a 20 competições (corridas) por ano. O atleta aparece só nesses momentos. No resto do ano, a cobertura é muito mais limitada que a do futebol. Na bola, cada jogador de grande clube compete (joga) cerca de 70 vezes em um ano. Somando isso à cobertura dos treinos da equipe, ele é exposto quase todos os dias do ano. A banalização ou a chance de expor algum “defeito” é muito maior.

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Essa exposição poderia vir na aposentadoria, quando o atleta tem tempo de arranhar sua imagem ao dizer bobagens, tomar decisões polêmicas ou cometer erros por atuar em uma área para a qual ele não tem necessariamente talento. Mas Senna, por morrer em ação, como um herói dos livros, não passou por essa desconstrução. Pelé era tão idolatrado quanto o piloto na época de jogador, mas as ações do empresário/garoto-propaganda abalaram sua imagem. “Se Pelé morresse em campo, no auge, seria um Deus como é Senna. Mas ele ficou aí”, compara Fábio Seixas, comentarista de automobilismo do Sportv.

Por isso, a conjunção de fatores que criaram a aura de mito de Ayrton Senna é quase impossível de reproduzir. Seria preciso unir um universo em que o atleta pode morrer heroicamente em ação, não desperte ódio de torcedores rivais (ou alguém se sentiu traído quando o tricampeão trocou a McLaren pela Williams em 1994?) e em que o público tem acesso a uma quantidade determinada de informação. Isso é praticamente impossível com o futebol. E, mesmo sendo o maior esporte do País, provavelmente nunca terá uma figura que desperte tanta idolatria quanto Senna, mesmo que, como atleta, seja maior que o piloto morto há 20 anos.

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