A Taça da Liga é a terceira competição em importância em Portugal. Perde para o campeonato nacional e a Copa de Portugal. Não dá vaga para campeonatos europeus e costuma ser preterida pelos grandes clubes, que têm outras prioridades, como a Liga dos Campeões, a Liga Europa e os próprios torneios já citados. Mas, nesta temporada, uma grande polêmica (mais uma) fez com que a menor das competições ganhasse o maior espaço no noticiário.

O problema está em saber quem enfrentará o Benfica numa das semifinais: Porto ou Sporting. Os dois times dividiam, na terceira fase, o mesmo grupo com Marítimo e Penafiel. O regulamento é simples: todos contra todos, em turno único, com o primeiro colocado classificando-se à semifinal. Na rodada final, o Porto bateu o Marítimo por 3 a 2 e o Sporting ganhou do Penafiel por 3 a 1. Ambos terminaram com sete pontos ganhos, mas os dragões marcaram um gol a mais e por isso ficaram com a vaga. Fácil de entender, não?

Nem tanto. No futebol português, muitas vezes as coisas não são tão simples como parecem. Ocorre que o gol salvador do Porto, marcado de pênalti por Josué, saiu aos 50 minutos do segundo tempo. Até então, o Sporting (cuja partida já havia acabado) era quem se classificava para as semis. O fato gerou protesto dos leões, que alegam que o rival atrasou seu jogo deliberadamente. Nos dias seguintes, houve muita polêmica e falatório dos dois lados. E nesta sexta-feira, um processo disciplinar instaurado pela Comissão de Instrução e Inquéritos fez com que a Liga Portuguesa de Futebol Profissional anunciasse que uma das semifinais está adiada até a resolução do imbróglio. A entidade entende que não é possível confirmar o adversário do Benfica porque, por causa do processo, o resultado de Porto x Marítimo “não se pode considerar homologado”. A outra semifinal, entre Rio Ave e Braga, será disputada normalmente em 13 de fevereiro.

Este caso é mais um daqueles que colaboram para o futebol lusitano estar longe de se tornar uma das principais ligas do mundo. A proximidade geográfica do país com centros importantes, como Espanha, Alemanha, Inglaterra, Itália e França é inversamente proporcional à distância em termos de organização, rentabilidade e postura dos dirigentes.

Juridicamente, o Sporting tem lá seus direitos para reclamar. O regulamento da Taça da Liga diz que um time que atrasar sua entrada em campo de propósito deve ser punido com a pena de derrota na partida, além de pagar multa. O problema é como os leões farão para provar que o rival realmente se atrasou por gosto, ou seja,que o Porto teve uma atitude dolosa no caso.

Vale lembrar que a briga toda é por causa de três minutos. Apenas três minutos. Foi esse o tempo que, por causa do suposto atraso deliberado, o jogo do Porto começou depois do compromisso dos leões. E que, na cabeça dos exaltados sportinguistas, causou a eliminação do time na Taça da Liga. O presidente do Sporting, Bruno de Carvalho (que costuma agir mais como torcedor do que como dirigente, como a coluna já citou em várias oportunidades), foi duro nas suas palavras. “Isso faz com que as pessoas comentem que o futebol é algo que não é jogado somente dentro das quatro linhas”, disse, sugerindo que uma eventual “vitória” nos bastidores fez com que o Porto também saísse vitorioso dentro de campo. Se não obtiver sucesso em seu recurso, o Sporting ameaça jogar a Taça da Liga da próxima temporada com sua equipe de juniores.

Com exceção do técnico Leonardo Jardim, ninguém do lado verde e branco teve a sensatez de lembrar publicamente que bastaria mais um gol (em qualquer dos três jogos da fase) para a equipe passar às semifinais. É mais fácil, sempre, jogar nos outros a culpa pelo insucesso.

A defesa do Porto na opinião pública foi feita pelo técnico Paulo Fonseca, que não ficou atrás do rival no quesito elegância. “Já havia muita gente fazendo festa pela classificação do Sporting (quando saiu o gol de Josué)”, afirmou. Pode até ser verdade, mas é uma maneira de apagar a fogueira com gasolina.

Enquanto o caso não chega a uma solução, pode-se dizer que pelo menos uma pessoa já sofreu seriamente com tudo isso. O árbitro Manuel Mota, que apitou Porto x Marítimo, teve um de seus açougues (ele é dono de uma rede deles) depredado supostamente por torcedores do Sporting. Os vândalos picharam a frase “Mota lampião, não prejudiques o leão” – lampião é uma espécie de gíria para se referir a um torcedor do Benfica.

Enquanto o exemplo não vier de cima, com os dirigentes aprendendo a perder – e a ganhar – o futebol português seguirá longe de seus vizinhos europeus.