Falou-se bastante sobre despedidas na imprensa espanhola durante os últimos dias. Uma das principais, porém, não recebeu o destaque que merecia. Porque, afinal, não é sempre que se vê um jogador que representa a essência de um clube dizendo adeus à camisa que tanto amou. O Atlético de Madrid não foi o único time da carreira de Gabi e seus predicados nunca foram devidamente reconhecidos pela seleção espanhola. Ainda assim, o meio-campista é a face que melhor resume o que foi ser colchonero ao longo desta década. O time experimentou uma transformação, de tempos como coadjuvante ao protagonismo de sonhar e buscar as maiores taças. O capitão, sempre presente, encabeçava este espírito. Aos 34 anos, preferiu dizer adeus aos rojiblancos nos últimos dias, rumando ao Al Sadd. Nada que diminua a sua grandeza. Pelo contrário, a sensação é a de que a história escrita por Gabi terá novos capítulos no futuro.

Nascido em Madri, Gabi é um legítimo colchonero. Iniciou a sua carreira nas categorias de base do clube e aprendeu desde cedo o peso daquela camisa. A jovem promessa se profissionalizou em um dos momentos mais difíceis da instituição, quando retornava da segunda à primeira divisão em meados da década passada. Foi titular por uma temporada, mas não permaneceu no Vicente Calderón, com um empréstimo ao Getafe e a venda ao Zaragoza. Fundamental em uma equipe modesta, teve um desempenho fantástico em 2010/11, o momento em que chamou a atenção dos colchoneros novamente. Aos 28 anos, não recusou a oportunidade de retornar a velha casa.

A temporada de 2011/12 foi transformadora ao Atleti. Não apenas pelo retorno de Gabi, mas também pelo impacto causado por Diego Simeone no ambiente do clube, contratado para conduzir uma equipe que cambaleava na virada do ano. O novo comandante logo deixou sua identidade latente entre os rojiblancos. E entre os seus principais representantes em campo, podia contar com Gabi. O volante sabia incorporar a ambição e a garra pedidas pelo treinador. Era ele um de seus mais fiéis herdeiros. Além do mais, oferecia diversas virtudes à faixa central do time, entre a combatividade, a segurança nos passes, a visão de jogo, a luta incansável. O ciclo vitorioso dos colchoneros se inicia naquele momento.

Gabi assumiu a braçadeira de capitão e ergueu algumas das taças mais importantes da história do Atlético de Madrid. Capitão na Liga Europa de 2012, capitão na Supercopa Europeia de 2012, capitão na Copa do Rei de 2013, capitão na Liga de 2014. A ânsia de conquistas dos colchoneros se materializava na face do veterano de mãos calejadas. E que a mais esperada não tenha vindo, a Liga dos Campeões, não se nega que o volante a desejou demais. Sua atuação na decisão de 2016 é estupenda. Talvez tenha sido o melhor jogo de sua vida e, apesar disso, não contou com o resultado que desejava.

Em uma partida de futebol pouco exuberante, valeu o empenho do camisa 14, conduzindo o jogo com tranquilidade e criando a jogada do gol de sua equipe. Correu, pensou, lutou. Seus desarmes eram precisos. E mesmo aos 32 anos, percorreu mais de 14 quilômetros ao longo dos 120 minutos, entregue à ambição pela maior taça do continente. Pois nem o cansaço sobre as pernas o fez se esconder diante da responsabilidade, cobrando um dos pênaltis na disputa derradeira da decisão. Infelizmente, o seu tento não foi suficiente. Diante da derrota, desabou em prantos, ganhando o abraço que não queria, o de consolo. Entre suor e lágrimas, permanecia como um herói, que aumentou sua consideração no Calderón por aquele jogo.

As duas últimas temporadas não foram tão prodigiosas a Gabi quanto a final da Liga dos Campeões poderia fazer imaginar. A idade começava a atrapalhar um pouco mais o rendimento do meio-campista. Ainda assim, permaneceu como o cérebro e o coração do Atleti. Ainda teria mais uma taça a levantar, em nova Liga Europa. No início da competição, o capitão chegou a menosprezar o valor do torneio. Pediu desculpas pela besteira que falou e redimiu-se em campo. Em mais uma final continental, brilhou com jogadas decisivas. Recebeu o troféu ao lado de Fernando Torres, outro ídolo forjado desde as categorias de base. Juntos, deixaram uma imagem à posteridade, dos garotos que cresceram nos corredores do clube e se tornaram símbolos, de maneiras distintas.

Aos 34 anos, Gabi tinha bola para um pouco mais, e sua saída pegou muita gente de surpresa. Se quisesse, poderia encerrar sua carreira no Atlético de Madrid. Preferiu sair em alta, com boas lembranças e gratidão dos torcedores. Vai jogar em uma competição de menor nível técnico a partir de agora, aproveitar o ocaso da carreira com em uma realidade mais cômoda. Nada que apague a idolatria que construiu. É compreensível que a seleção espanhola tenha prescindido de Gabi, até pelo estilo de jogo e pelas opções, embora a energia do volante fosse útil a qualquer time. Melhor aos rojiblancos, que são os únicos a saber qual o valor real daquela camisa 14.

“Com a minha idade, ir ao Al Sadd seguramente não é uma oportunidade que terei novamente. Não é a primeira vez que tenho opções para sair, mas queria ir como agora, depois de ganhar. Nas vezes anteriores, havíamos perdido uma final e essa não era a maneira de deixar a minha casa. Simeone não acreditou quando eu disse, mas depois expliquei a situação, o que significava à minha família, e ele entendeu”, afirmou o veterano, sob lágrimas, dando a entender que este é mais um adeus do que um até logo. Afinal, Koke e outros membros do clube pediram, durante a última coletiva do capitão, para que estude e volte como treinador no futuro. Gabi também indicou que há questões pessoais envolvidas na mudança. Colegas e membros da diretoria, que sentiam a despedida de alguém insubstituível, de qualquer maneira, o auxiliaram no final repentino.

O ponto final na trajetória de Gabi como jogador do Atlético de Madrid, afinal, é um espelho do que representa. Uma despedida discreta, mas extremamente carinhosa e apegada ao clube. Pode não ser o primeiro nome lembrado quando se falar de meio-campistas espanhóis neste século. No entanto, sua imagem se torna inerente ao falar deste período glorioso dos colchoneros. Não dá para recontar as conquistas, falar dos jogos épicos ou analisar a postura aguerrida em campo sem se exaltar o que protagonizou o camisa 14. Vai-se como uma lenda rojiblanca.