Poucos personagens da Copa do Mundo são tão intrigantes quanto Joe Gaetjens. O herói da seleção americana será eternamente lembrado pelo gol que fez no Estádio Independência, em 29 de junho de 1950. Naquele dia, foi um dos principais responsáveis pela maior surpresa da história dos Mundiais, a vitória sobre a poderosa Inglaterra por 1 a 0. Mas este é apenas o episódio mais reluzente de uma biografia cheia de mistérios, que completaria 90 anos nesta quarta-feira – não fosse ainda a morte mal explicada de Gaetjens há 50 anos.

Ao contrário do que sua maior glória possa sugerir, Joe Gaetjens não nasceu nos Estados Unidos. O atacante era haitiano, filho de um alemão, a quarta geração de mercadores enviada pelo Reino da Prússia à ilha caribenha. E a trajetória do veterano no futebol começou justamente em Porto Príncipe, com o Etoile Haitienne, pelo qual foi bicampeão nacional antes dos 20 anos. Porém, o herdeiro de uma família da elite local não permaneceria naqueles torneios amadores por muito tempo. No final da década de 1940, Gaetjens recebeu uma bolsa de estudos na Universidade de Columbia, em Nova York. O início de sua história nos EUA.

Mesmo se mudando para estudar e tendo que trabalhar como lavador de pratos em um restaurante do Harlem, Gaetjens não conseguiu se afastar da bola por muito tempo. O atacante se juntou ao Brookhattan, fazendo sucesso pela American Soccer League. Artilheiro da competição, atraiu o interesse da seleção americana, que o convocou para a Copa de 1950. Aqueles seriam os únicos três jogos do haitiano pelo US Team. E contra a Inglaterra anotou seu solitário gol, desviando o chute de Walter Bahr para vencer o goleiro Bert Williams. Saiu de campo carregado nos braços de brasileiros fascinados com aquela façanha. Uma seleção pouquíssimo organizada, acostumada a sofrer goleadas nos meses anteriores, desbancou os inventores do futebol, tidos entre os favoritos daquela Copa.

Embora tenha se tornado símbolo americano, Gaetjens nunca teve cidadania no país – e chegou mesmo a ser sancionado pela Fifa, junto com outros estrangeiros ‘recrutados’ pelos EUA na Copa. Ao menos o sucesso no Mundial o levou a tentar a sorte no futebol francês, passando pelo Racing de Paris e pelo Olympique Alès. No entanto, o atacante nunca engrenou e voltou ao Haiti quando tinha 29 anos. Recebido como um rei no país, passou a trabalhar como porta-voz da Palmolive e da Colgate, mas não se afastou do futebol. Tentou retornar ao Etoile Haitienne, mas as seguidas lesões não lhe garantiram vida longa nos gramados. Também chegou a ser convocado para a seleção haitiana, disputando um jogo pelas Eliminatórias da Copa de 1954, após o qual pendurou de vez as chuteiras.

Se o script fosse hollywoodiano, Gaetjens encerraria a carreira no Haiti e voltaria para desfrutar as honras nos Estados Unidos. Mas o craque esteve longe de um final feliz. Seus irmãos estiveram envolvidos com a oposição política a François Duvalier, o ‘Papa Doc’, e chegaram a participar de uma tentativa de golpe junto com exilados na República Dominicana. Quando o presidente democraticamente eleito se declarou ‘vitalício’ no cargo, em julho de 1964, os Gaetjens fugiram do país. Menos Joe, que confiava em sua reputação esportiva em sua postura alheia à política como álibis para se manter a salvo no país.

Pelo visto, Papa Doc não era dos mais afeitos ao futebol. Gaetjens foi preso pelos Tonton Macoutes, milícia que se tornou o braço repressivo da ditadura haitiana, e levado ao Fort Dimanche. Desde então, nunca mais foi encontrado e sequer seu corpo foi entregue à família. Deixou apenas a história, lembrada sempre graças ao seu gol na Copa de 1950.